Revolta dos bichos

Revolta dos bichos
A escritora polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Nobel, autora de 'Sobre os ossos dos mortos' (Foto: Lukasz Giza/ Divulgação)
  Um história de suspense, com mortes bizarras e a vingança dos animais contra a civilização predadora. Elementos como esses já seriam suficientes para prender a atenção do leitor, mas é mesmo a voz peculiar da narradora que nos seduz. Janina, professora aposentada de inglês, entremeia a descrição dos fatos com despretensiosos achados filosóficos, observações idiossincráticas da vida ao redor, um humor meio rabugento – com o qual simpatizamos – e manias curiosas. Não acredita que os nomes de batismo sirvam às pessoas, por exemplo. A figura sinistra encontrada morta nas primeiras páginas é para ela o Pé Grande, por razões óbvias (haveria também uma conexão diabólica). Ela mesma detesta Janina – prefere Medeia, com toda a ressonância mitológica que isso implica. Vive solitária, como se a natureza a permeasse e a tecnologia lhe fosse indiferente, com a televisão sempre ligada no canal do tempo. Presa no rigoroso inverno polonês, numa área próxima à fronteira com a República Tcheca (área em que vive a própria autora), a excêntrica senhora tenta defender os animais da caça ilegal, cuida das casas daqueles que não resistem ao frio e fogem para a cidade, e se dedica a fazer mapas astrais em que a morte tem tanta importância quanto os nascimentos. Seu pensamento tem paralelo com as visões do poeta William Blake, cujos versos traduz com ajuda de um jovem. Volta e meia recorre a uma “filosofia da raiva”, esse “mini-Big Bang”, único sentimento, para ela, que traz clareza de propósito, foca intenções e simplifica as

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