A razão como resistência
O filósofo luso-holandês Baruch Spinoza (Wikimedia Commons)
Diante do avanço dos discursos de ódio, do negacionismo climático, da exploração da fé, dos delírios de massa, da manipulação das mentalidades, da polarização estrategicamente construída, de opiniões e mentalidades pré-programadas por sistemas de dominação religiosa, digital, midiática e política, diante da aniquilação do entendimento, do avanço dos preconceitos, da brutalização da vida que resulta da impossibilidade orquestrada do diálogo, tornou-se urgente reabilitar a velha ideia da razão. A produção de irracionalidade é o programa do poder atual, baseado em um controle mental que visa à autodestruição do sujeito autônomo. Recuperar a razão é a única maneira de ir além do falso monismo, a simulada superação da fratura entre razão e sensibilidade que sustentou a filosofia e as teorias dela derivadas ao longo de séculos.
Sugerir a reabilitação da razão pode pegar mal diante da histórica crítica da razão que animou o que podemos chamar de primeira filosofia contemporânea (de Schopenhauer à Escola de Frankfurt), mas também diante de sua crise mais recente, efeito do avanço inevitável – e necessário – das filosofias estruturalistas, pós-estruturalistas, feministas e decoloniais, que deram as costas ao tema da razão baseada no princípio de identidade aristotélico, patriarcal e branco. De fato, era preciso avançar por novos caminhos. Depois da desmontagem – seja ela dialética, seja “desconstrutiva” –, o que sobrou da ideia de razão ficou num depósito abandonado no velho museu da filosofia europeia.
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