Profundo, espetacular

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Profundo, espetacular

Em Não estou lá, filme sobre a vida de Bob Dylan dirigido por Todd Haynes em 2007, o ator Christian Bale, um dos vários intérpretes que encarnam o músico (sem muito compromisso de verossimilhança), canta a canção “The lonesome death of Hattie Carrol” (A morte solitária de Hattie Carrol), aparentemente à beira de uma estrada, enquanto trabalhadores rurais de braços cruzados e com semblante grave e marcado o escutam atentamente.

A canção “This Is Not America”, cantada por David Bowie (o próprio), soa enquanto o trailer do filme The falcon and the snowman (1985), de John Schlesinger, mostra sequências aceleradas e vertiginosas da vida de dois rapazes norte-americanos (Timothy Hutton e Sean Penn), passando por cenas de amizade, amores, perigos, perseguições, traições, até um desfecho dramático e misterioso, que insinua condizer com um lisérgico “This is not America” que se desfaz em “This is not a miracle”.

Ambas as canções são inspiradas por histórias reais e ambas criticam a imagem ideal do norte-americano e da América: um país democrático e justo, onde todos têm oportunidades iguais e que dá espaço para que os cidadãos trabalhem e sejam livres.

O próprio filme The falcon and the snowman é baseado em livro de mesmo nome, e narra a história de dois rapazes típicos de classe média norte-americana. Amigos, os dois decidem vender segredos norte-americanos para a União Soviética. Um deles, um treinador de falcões, desilude-se com a política hipócrita da empresa de segurança em que trabalha e o outro encontra nesse comércio de informações uma fonte de renda segura para manter o vício em cocaína, donde o apelido “Snowman”.

Riqueza e pobreza

Já a canção “The Lonesome Death of Hattie Carol”, escrita em 1963, denuncia a então comentada morte de uma atendente de bar, Hattie Carol, por um jovem ricaço, filho de um latifundiário de tabaco, que, bêbado, decide agredir todas as pessoas que vê pela frente, inclusive a vítima, trabalhadora pobre, negra e mãe de dez filhos, atingida gratuitamente pela bengala do rapaz.

O jovem é condenado por assassinato em primeiro grau, preso em flagrante, mas, com a ajuda de bons advogados, acaba ficando somente seis meses na prisão.

O “sha la la la la”, que serve de fundo para o estribilho “This is not America”, já diz muito sobre a poética de David Bowie e, principalmente, sobre suas diferenças em relação a Bob Dylan, em cujas letras jamais se ouviria um “sha la la la la”. Isso não é exatamente uma crítica a David Bowie, mas uma constatação sobre o tipo de tensão que se estabelece entre letra e música em suas canções. Vejamos.

“This is not America” é uma crítica à América. Esta não é a América que esperávamos que fosse, que nos disseram que era.

Em seguida, em “This is not a miracle”, numa crítica menos inocente do que a primeira e carregando numa paronomásia não muito original (America, Miracle), a crítica é feita ao assim chamado milagre americano, que parece nunca ter correspondido exatamente ao que se prometia.

A letra caminha e arma mais alguns trocadilhos, como acontece com os homófonos peace e piece, em que se brinca com a ideia de que o pouco que resta de paz em cada um não vai resistir ao passo atropelador da grande história, que não reconhece e nem se importa com as individualidades, como prometia a América.

Snowman, o homem de neve (e de pó), está derretendo por dentro e o falcão roda até cair ensanguentado no chão.

A letra relativamente breve, mas principalmente abrangente (com algumas rápidas menções aos indivíduos), ambicionando uma crítica à América como um todo, sem se deter nas particularidades individuais e com dezenas de repetições, um estribilho fortíssimo e o “sha la la la”, além do acompanhamento dramático de Pat Metheny e a voz estranha e andrógina de Bowie, mostram de que forma, em David Bowie, a letra serve muito mais à canção, à música, do que o contrário.

É como se a letra fosse um adendo (competente, mas secundário) à potência criada pelo poderoso conjunto sonoro, muito maior e mais significativo do que a fraca poesia.

Com a canção de Bob Dylan, embora também haja a crítica evidente ao sonho da América, especialmente porque foi escrita numa época em que o racismo era declarado e legal e a vítima de que se fala na canção era negra, as coisas se constroem de forma praticamente oposta à da poética de Bowie.

Pode-se dizer que o aspecto crítico, denunciador, vai se estabelecendo de forma metonímica, e não metafórica, como ocorre em “This Is Not America”. Dylan conta a história inteira, com todas as particularidades, ou seja, parte do pequeno para atingir o grande, sem declarar essa crítica explicitamente, mesmo que ela seja bem clara, daí a metonímia.

Dylan fica no particular, enquanto Bowie faz o caminho contrário, daí o lado metafórico. Snowman e Falcon, em Bowie, são como a América. Hattie Carol, de Dylan, é a América. É somente no estribilho – “mas vocês que filosofam a desgraça e criticam todos os medos, tirem os remendos de seu rosto, agora não é hora de lágrimas” – que se tece um juízo mais abertamente negativo à hipocrisia: da América, dos intelectuais omissos, do senso comum e até do leitor/ouvinte.

Remendos e lágrimas

No estribilho final, aliás, há uma mudança decisiva: “Enterre os remendos em seu rosto, agora é hora de lágrimas”. A forma como Bob Dylan (e também Christian Bale) canta a canção, acompanhado somente de seu violão e de sua gaita, numa melodia que se repete e quase se arrasta, na tradição do country/folk rural, mostra que, em seu caso, há uma integração orgânica entre a letra e a melodia, de maneira que uma se torna necessária à outra.

Partindo da história detalhada, sucessiva e bem particular, Dylan acaba atingindo a América por dentro, sem jargões generalistas, que só fazem “chover no molhado”. Tanto é verdade que a canção acabou gerando manifestações contra o acusado e retaliação por parte do próprio (como ocorreu também com outras canções do músico).

Dylan, com seu prosaísmo, a oralidade, as frases longas, os detalhes e a melodia igualmente “falada”, localiza-se na tradição dos contadores de histórias rurais, embora sua poética seja também muito urbana.

Bowie, com as generalizações, as repetições, o “sha la la la la” e os arranjos e a voz exuberantes e potentes, não narra; compõe versos curtos e quase soltos, que dependem, para sobreviver, da força da música a que eles servem.

É a América profunda, vista de onde ela acontece, e a América espetacular, vista da Inglaterra. Talvez Bowie, nesse caso, seja um daqueles que filosofam a desgraça e criticam todos os medos. Mas agora, como antes, não é hora para lágrimas.

Noemi Jaffe é doutora em literatura brasileira pela USP

Letra – This Is Not America

Esta Não É a América por David Bowie, Lyle Mays e Pat Metheny

Esta não é a América, sha la la la la
Um pedacinho de você
A pequena paz dentro de mim
Vão morrer (Isto não é um milagre)
Pois esta não é a América
As flores não abrem
Nesta estação
Prometa não olhar
Por muito tempo (Esta não é a América)
Pois este não é o milagre
Houve um tempo
Uma tempestade que soprou tão pura
Pois este pode ser o maior céu
E eu não faço
A menor ideia
Pois esta não é a América, sha la la la la, sha la la la la, shala la la la
Esta não é a América, não, não é, sha la la la la
Boneco de neve se derretendo
De dentro para fora
Falcão gira em espiral
Caindo ao chão (Este pode ser o maior céu)
Tão vermelhas sangue
As nuvens de amanhã
Um pedacinho de você
O pedacinho dentro de mim
Vão morrer (Pode ser um milagre)
Pois esta não é a América
Houve um tempo
Um vento que soprou tão novo
Pois este pode ser o maior céu
E eu não faço a menor ideia
(Pois esta não é a América) sha la la la la
Esta não é a América, não, não é, sha la la la
Esta não é a América, não é não
Esta não é a América, não, não é, sha la la la

Letra – The Lonesome Death Of Hattie Carroll

A Morte Solitária de Hattie Carroll por Bob Dylan

William Zantzinger matou
A pobre Hattie Carrol com uma bengala
Que ele girou em volta do dedo em que usava um anel de diamantes
Numa reunião da alta sociedade em um hotel de Baltimore
Os tiras foram chamados
E tiraram a arma dele
Enquanto o levaram preso até a delegacia
E autuaram William Zantzinger
Por homicídio em primeiro grau
Mas você que filosofa a desgraça
E critica todos os medos
Tire o pano de seu rosto
Agora não é hora para suas lágrimas
William Zantzinger, que aos 24 anos
É dono de uma fazenda de tabaco de 600 acres
Com pais ricos e abastados
Que o sustentam e protegem
E que tem relações nos altos escalões
Da política de Maryland
Reagiu ao ato que cometeu
Dando de ombros
Com palavrões e pouco caso
E sua língua fazia sons de raiva
Em questão de minutos estava livre, com fiança paga
Mas você que filosofa a desgraça
E critica todos os medos
Tire o pano de seu rosto
Agora não é hora para suas lágrimas
Hattie Carroll era empregada da cozinha
Tinha 51 anos de idade
E Tinha dado à luz dez filhos
Ela carregava os pratos e tirava o lixo
E nunca se sentou à cabeceira da mesa
E nem sequer falava com as pessoas à mesa
Ela apenas limpava toda a comida da mesa
E esvaziava os cinzeiros em outro andar
Foi morta por um golpe
Caiu assassinada por uma bengala que voou pelo ar
Que desceu atravessando a sala
Fadada e determinada a destruir todos os mansos
E ela nunca tinha feito nada para William Zantzinger
Mas você que filosofa a desgraça
E critica todos os medos
Tire o pano de seu rosto
Agora não é hora para suas lágrimas
No tribunal de honra
O juiz bateu seu martelo
Para mostrar que todos são iguais
E que os tribunais são honestos
E que não há pistolão
Nem influência ou persuasão
Que mesmo os nobres recebem o tratamento que merecem
Depois que os tiras os perseguiram
E prenderam
E que a escada da lei não tem degrau de baixo ou de cima
Ele encarou a pessoa que matara sem razão
Que simplesmente sentiu vontade disso
Sem qualquer aviso
E falou através de sua toga
Com voz distinta e profunda
E decretou com voz severa
Por castigo e arrependimento
Pena de seis meses para William Zantzinger
Oh, mas você que filosofa a desgraça
E critica todos os medos
Enterre o lenço fundo em seu rosto
Porque agora sim é hora para suas lágrimas

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