Por mais viadagens teológicas

Por mais viadagens teológicas
A atriz transexual Jo Clifford como Jesus em cena de ‘The Gospel According to Jesus, Queen of Heaven’ (Divulgação)

 

Religião é um dado da cultura. Seja qual for a abordagem teórica que se utilize para refletir sobre ela – inclusive no campo da teologia – não há como pensar a cultura sem pensar na forma como as diferentes expressões religiosas se materializam como manifestações culturais. O sonho – ou delírio – de um mundo “sem religião”, ainda quando se admita e respeite o direito à não-crença religiosa, contradiz a própria ideia de diversidade, inclusive na perspectiva dos Direitos Humanos assim como hoje são compreendidos e defendidos. O problema parece estar na suposta impossibilidade de (re)conciliar diversidade religiosa e diversidade sexual e de gênero.

Religião é um entrave nas discussões e na garantia de direitos no âmbito da diversidade sexual e de gênero. É possível e provável que em todas as religiões (entendidas mais como instituições ou movimentos organizados do que como práticas particulares) haja correntes e posicionamentos que valorem depreciativamente alguma questão que esteja relacionada às dissidências de gênero e sexualidade, uma vez que também são conformadas pela cultura em seu formato heteronormativo padronizador e compulsório. Umas mais do que outras, claro.

Em todas as religiões, no entanto, é possível reconhecer discursos e práticas de resistência aos padrões normativos. Elas são mais porosas e fluídas do que admitem ser quando entram na esfera pública. Por mais que reivindiquem sua vinculação com a tradição (em termos doutrinários, organizativos ou em relação a suas fontes sagradas) como forma de afirmar sua continuidade, todas elas apresentam elementos de descontinuidade. As religiões mudam e a cultura (em seu sentido amplo) interfere nesse processo ao mesmo tempo em que é impactada por elas.

Os movimentos e estudos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros), queer, de diversidade sexual e de gênero, carregam seus próprios fundamentalismos. Seja nas perspectivas identitárias assimilacionistas ou no próprio aburguesamento do queer na sua versão cult e fashion, o dogmatismo em relação à religião talvez seja seu principal ponto de insucesso. Avessos a qualquer discussão sobre o tema – a menos que seja para denunciar, justamente, a violência e o sofrimento causados – perdem a oportunidade de dialogar criticamente e, deus-me-livre, articular-se com as formas de resistência em seu interior e construir perspectivas libertadoras no campo da cultura e da religião. Talvez as feministas possam nos ajudar mais aqui, pois parece que o diálogo com as teologias feministas, como as de Ivone Gebara e Nancy Cardoso, por exemplo, tem sido mais frutífero. Talvez.

No âmbito do cristianismo, há reflexões já desde a década de 1950 e, com maior profusão, a partir da década de 1990, que prefiguram o que veio a ser conhecido como teologias homossexual, gay, lésbica, queer. Alguns exemplos nessa linha são J. Michael Clark (Beyond the ghettos, Defying the darkness) David Comstock (Gay theology without apology), Robert Goss (Jesus acted up, Queering Christ), Elizabeth Stuart (Gay and lesbian theologies). Embora não haja necessariamente uma relação direta e seja possível tecer diversos questionamentos em termos de teologia e organização, a emergência de grupos cristãos ou igrejas com perspectivas diversas/dissidentes com relação a questões de gênero e diversidade sexual – bastante conhecidos como grupos e/ou igrejas “inclusivas” – é também evidência de perspectivas não hegemônicas no campo da religião. Essas iniciativas tanto se alimentam de movimentos políticos e culturais quanto subsidiam ou poderiam subsidiar outras discussões e ações no campo da política, da cultura e da própria religião como a conhecemos.

Teologia indecente

O que todas elas parecem ter em comum é a utilização da experiência de dissidência de gênero e sexualidade como ponto de partida para suas construções no campo da teologia e da prática eclesiástica. Essa forma de pensar e praticar religião emergiu no contexto de amplos questionamentos sobre a reflexão teológica e a vida da igreja nas últimas décadas, particularmente no que se tornou conhecido como teologias da libertação (incluindo as teologias feminista, negra, indígena, camponesa). Na América Latina, entre vários outros elementos, destaca-se a importância que assume a religiosidade popular nas reflexões de teólogos e teólogas e nas propostas de renovação de muitas igrejas. Afinal, a experiência religiosa não é propriedade das instituições religiosas, mas se constrói no cotidiano das práticas comunitárias de indivíduos e grupos diversos.

No livro Via(da)gens teológicas, procuro explorar justamente essa relação partindo da forma como se constroem historicamente o que se tem chamado de religiosidade e sexualidade brasileiras. A constatação é de que nenhuma compreensão da cultura brasileira (em sua diversidade) pode ser construída sem considerar essas duas dimensões da experiência humana que determinam definitivamente essa cultura a partir de conjunturas históricas específicas, no passado e no presente. Autores e autoras como Roberto da Matta, Marilena Chaui e Richard Parker que não me deixem mentir. Tanto uma como a outra, e a relação entre elas, é marcada, enquanto fenômeno da cultura e experiência de fé, por aquilo que chamo de ambiguidade. Não como um elemento de confusão ou imprecisão, mas precisamente como formas de negociação, mistura e inter-relação que criam e recriam crenças e práticas na vida concreta das pessoas. Jesus f*cking Christ!

Marcella Althaus-Reid, a principal referência no campo das teologias queer e pós-coloniais, partindo da realidade latino-americana e da teologia produzida no continente, colocou as bases para uma teologia que leve a sério essas experiências através de sua proposta de uma teologia indecente. Afirmou que toda teologia é um discurso e uma prática sexual e demonstrou os pressupostos heterocêntricos e heteronormativos das teologias cristãs tradicionais. Assim, segundo ela, “uma teologia indecente questionará o tradicional campo da decência e ordem latino-americanas enquanto permeiam e apoiam as múltiplas estruturas (eclesiológicas, teológicas, políticas e amorosas) de vida em meu país, Argentina, e em meu continente” (Althaus-Reid, Indecent theology).

Na trilha da indecência, as narrativas de vida (tomadas como histórias sexuais) de três pessoas trans, um slogan do MST (“ocupar, resistir e produzir!”) e um pouco de pegação com uma pintura de Frida Kahlo podem ajudar a construir uma reflexão teológica a partir da realidade brasileira que afirme as dissidências de gênero e sexualidade no campo da cultura desde uma perspectiva religiosa. As narrativas e os corpos das pessoas trans explicitam as ambiguidades da vida e propõem uma outra epistemologia organizada como ocupação dos corpos dissidentes que são o que quiserem ser, resistência aos cânones culturais e linguísticos nas línguas afiadas que subvertem a lógica dominante e produção de uma outra teologia que nasce da pegação. A pegação é elevada à rigorosidade de uma ferramenta hermenêutica, um modo de interpretar e produzir conhecimento que leva a sério (ou se diverte com) o erotismo dos corpos vividos. Se lê a realidade, a Bíblia e a tradição como exercício sensual de revelação do divino.

O Veado ferido (pintura de Frida Kahlo) materializa de diversas formas uma teologia que se faz como via(da)gem. Revela as marcas da violência homofóbica na pele rasgada de um São Sebastião “patrono dos viados”. Mistura as religiosidades dos povos originários, o catolicismo popular, as religiões orientais. Traz as ambiguidades – sexuais, políticas, religiosas, culturais – da própria autora que se mistura à realidade criada a ponto de ser ela mesma o personagem de sua representação de vida e de crença – autorretrato. É viagem porque se faz como processo e é viadagem porque propõe uma nova relação entre cultura e religião a partir das dissidências sexuais e de gênero em forma de teologia.

Enfim, uma sociedade sem preconceitos em relação às sexualidades e ao gênero aliada a uma outra perspectiva analítica em relação às religiões poderia fazer emergir, com mais intensidade e escala, as práticas religiosas já existentes que constituem as nossas viadagens teológicas.

 

André S. Musskopf é professor da pós-graduação em Teologia da Faculdades EST e autor de Via(da)gens teológicas – itinerários para uma teologia queer no Brasil (Fonte Editorial, 2012)


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