Política, passado, presente

Política, passado, presente
(Arte Revista CULT)

 

Por Laudeir Borges

Na comilança domingueira de família, depois do almoço e no quase imediato café da tarde, o menino, como que a chamar atenção, já que só havia política e nostalgia na conversa dos adultos avançados em quatro e cinco décadas de vida – gente madura, supõe-se ‒, pois não é que o sobrinho de sete anos, naquela displicência nada inocente da infância, meio que grita para que todos ouçam: “bandido bom é bandido morto. Bolsonaro 2018!”

Gelei-gelamos, nem todos, desconfio. Depois rimos, que é o que a gente faz, quando nos desconcertam, quando o outro se esborracha no chão, é humilhado na TV e quando não estamos entendendo nada, rimos, incapazes de qualquer sobriedade.

Quanto mais pedíamos que parasse, mais o menino repetia e gritava e ria, tirano: “bandido bom é bandido morto. Bolsonaro 2018!” Acabou revelando que tinha ouvido aquilo do primo de 14, que lá não estava pra se explicar. Cismei, sem comprovação, que o primo mais velho apanhou o bordão medonho entre colegas zoadores na escola.

Relevei-relevamos, coisa de criança!

Mas não.

Assim como eles, também na infância tive minhas primeiras
manifestações políticas. 1978, doze anos. De onde foi que aquela garotada da
quinta série tirou a ideia de sair gritando no pátio, perto da diretoria: “Arena não presta, MDB é que presta”? Memória fraca me faz querer que tivesse sido um grande ato, mas sei que foi só um pequeno grupo de meninos e meninas; imaginar que todos concordavam, mas escuto lá longe ecos de alguns gritando pela Arena e o silêncio da maioria; sonhar que foi espontâneo, mas… vai saber.

Certeza é que em 1980 teve uma greve de professores na sequência de outra imensa um ano antes.

A professora de matemática foi subindo pelo quintal da casa em eterna construção, na rua de terra firme no sol e lama na chuva. Na ausência de campainha e na indiferença ao portão de tábuas rotas mal pregadas, ela foi entrando, que a casa era lá no fundo do lote. Dona Margarida era novinha e sorridente, magra-magrela e tinha um fusca. Disse que demorou pra achar o endereço (era um mato, gente!) e explicou que os professores precisavam de uma carta de um aluno a ser entregue às autoridades policiais e judiciais, pedindo que libertassem o professor de português, preso por liderar a greve.

Luiz Soares Dulci tinha sido professor da minha turma por um semestre. Para ocupar-nos, quase toda aula mandava que escrevêssemos uma redação (e, ah como eu gostava de redação! Até hoje, né?). A maioria não gostava: aquele professor sempre se ausentava e se atrasava e saía da sala. Às vezes era chamado à cantina, onde haviam preparado uma refeição pro magro-magrelo-varapau-que-o-vento-leva, que ele estava sempre ocupado com os assuntos da greve e mal tinha tempo de se alimentar. Aquele homem parecia frágil e era protegido e cuidado pelos outros professores e pela direção da escola.

Líder grevista. Preso. Minha mãe autorizou e eu escrevi a carta em nome dos alunos da Escola Estadual Três Poderes pedindo às autoridades que soltassem o professor de português. Passei a limpo na minha letra mais caprichada. Mas meu nascente senso crítico me dizia que a carta estava ruim e ainda hoje algum pensentimento difuso cutuca minha autoimagem para avisar que o texto não teve a força que esperavam e não foi entregue ao governador, ao secretário de segurança ou a quem quer que fosse. E mais no fundo a tristeza indignada a perguntar: de que vale a palavra de um menino preto que mora lá onde só se chega a duras penas?

Solto, o professor Dulci não voltou à escola. Foi substituído por dona Maria do Rosário, elegante, hostilizada pelos alunos, preta, e que me convidou a, no segundo grau, estudar no colégio particular onde dava aula. Solto, o professor de português foi fundar o Partido dos Trabalhadores em Minas Gerais e seguir sua história na política. Dia desses o vi no aeroporto de Confins. Quis me aproximar e dizer que houve uma carta. Não fui ter com ele nem estudar com dona Maria do Rosário – essa timidez que me arma e desarma o tempo todo.

Não dá mais pra ser assim, a vida ficou abrupta demais:

— Crianças fofas, precisamos conversar!

Laudeir Borges, 52, jornalista mineiro morando em Brasília há 8 anos, poeta e designer gráfico, parte do coletivo O Grito

 

(4) Comentários

  1. Me fez lembrar de minha mãe na greve dos professores em Minas, na década de 70, levando jatos de água do então governador Francelino Pereira. Ditadura. Eu chorava, criança, mas,
    por alguma razão, estava orgulhosa dela. Obrigada, Laudeir. Necessário lembrar.

  2. Bonito demais! Realmente, precisamos conversar com meninos de todas as idades e fazer muita poesia e espalhar poesia… quem sabe? Esperança, sempre!

  3. Cara. Se todos nós tivéssemos escrito e entregue cartas para alforiar utopias talvez não nos sentissemos agora emudecidos. Bela história meu irmão.

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