Poema para a catástrofe do nosso tempo

Poema para a catástrofe do nosso tempo
Cemitério N.S. Aparecida, Manaus, 13 de miao de 2020 (Foto: Fernando Crispim/Amazônia Real)

 

I

Amanhã não será um dia melhor
do que hoje, que não é um dia
melhor do que ontem. Há um
sentimento fúnebre no ar,
de quem tem vivenciado
uma morte após a outra,
de quem tem vivenciado,
antecipadamente, mais uma
morte, a última delas, a morte
após a própria morte, a morte
da qual não se tem retorno,
a morte da qual os mortos
não voltam dela para a vida,
a morte a que apenas os vivos
se encaminham para ela
sem jamais poder voltar,
a morte da qual não se tem
poemas para se fazer,
não a morte simbólica,
mas a outra, a real,
a experiência final da morte
em vida, da qual sobrevivemos,
se tanto, ainda que neste mundo,
enquanto fantasmas desossados,
descarnados, desfigurados,
que berram na tentativa de evitar
a morte e de evitar, a todo custo,
a morte em vida. Berramos em vão.
Não assustamos mais ninguém
com nossos berros. São eles, antes,
os inassustáveis, que nos assustam.
A cada momento, tentamos aprender
a fazer, fantasmaticamente,
o improvável luto de nossas
mortes, o que, quando conseguimos,
é tão somente de um modo
individual, jamais coletivamente.
Nunca aprendemos a fazer
o luto coletivo do que matou
e torturou muitos de nós, nunca
aprendemos a fazer a luta coletiva
contra nossa história de horror,
que permanece torturando e matando.
Os torturadores e assassinos
estão vivos, viveram em família
sem ser incomodados, falam
em nome da família e de deus,
viraram nomes de ruas, pontes,
cidades até se alçarem, de novo,
ao posto da presidência e da vice-
presidência da república
e, dessa vez, com o amplo apoio
do fascismo que há nas pessoas,
forjado por propagandas enganosas
da grande mídia, por fake news
compradas pelas grandes empresas
de outras grandes empresas
que governam o mundo,
os países e as pessoas.
Se, a cada vez que alguém grita
“não passarão”, eles já passaram
e continuam passando com força,
cada vez, desmesuradamente
maior, como alguns de nós ainda
perguntamos “como resistir?”,
“como resistir hoje?”.
Neste momento, é importante dizer
que a poesia não é uma arma
contra o autoritarismo, mas
o desejo de desarmar
o autoritarismo, desarmando
os que querem acabar
com a democracia em nome
do autoritarismo ou da ditadura.
Desarmar, portanto, ao menos,
e para quase ninguém,
mas desarmar, desde nossa
impotência radical,
um dos modos do autoritarismo,
um dos modos do fascismo,
o da língua. Amanhã
não será um dia melhor
do que hoje, que não é um dia
melhor do que ontem. Alguns anos
atrás, foi possível um recomeço
para um país que vivera 21 anos
sob governo militar, sob tortura,
sob assassinatos, sob corrupção,
sob inflação desmesurada, com dívida
externa impagável, a que agora
se quer, declarada e cinicamente,
voltar. Depois de, antes mesmo
de ser eleito, já ter dito e repetido
“eu sou favorável à tortura,
tu sabes disso, e o povo também
é favorável à tortura”, “através
do voto você não vai mudar nada
nesse país, nada, absolutamente
nada, só vai mudar, infelizmente,
no dia que nós partirmos
para uma guerra civil aqui dentro,
e fazendo o trabalho
que o regime militar não fez,
matando uns 30 mil… Se vai morrer
alguns inocentes, tudo bem”,
“minha especialidade é matar,
não é curar ninguém”, “o erro
da ditadura foi torturar
e não matar”, “Pinochet
devia ter matado mais gente”,
“vamos fuzilar a petralhada”,
o presidente, em campanha,
afirmou que o objetivo
de seu governo é fazer
com que o Brasil volte
40 ou 50 anos, ou seja, volte para
os piores anos, para os porões,
para os calabouços mais sombrios
da ditadura militar.
A partir de então, é preciso dizer
que o futuro é o passado, que
o que está à frente é o que está
40 ou 50 anos atrás, a partir
de então, tudo é o fim,
tudo é pior do que o fim,
tudo é o fim e o dia seguinte
do fim, a sobrevivência
fantasmática, desossada,
descarnada, desfigurada,
diária, frente ao pior,
ao mais do que pior.
Em campanha, repetindo
publicamente
o que nenhuma instituição
lhe limitou dizer nem fazer,
ele já havia dito tudo:
“Vamos fazer uma limpeza
nunca vista na história
desse Brasil”, “vamos varrer
do mapa esses bandidos
vermelhos do Brasil”,
“essa turma, se quiser ficar
aqui, vai ter que se colocar
sob a lei de todos nós.
Ou vão para fora ou vão
para a cadeia. Vai tudo vocês
para a Ponta da praia”.
“Ponta da praia”, vocês
sabem, é a base da marinha
na restinga de Marambaia
no Rio de Janeiro, onde
os opositores da ditadura
eram executados
e desovados. Tudo isso
começou há muito tempo,
tudo isso começou
com genocídios e escravidões,
tudo isso atravessou muitos
de nossos momentos, tudo
isso poderia ter vários
começos e recomeços,
mas, mais recentemente,
tudo isso recomeçou,
por exemplo, naquele
17 de abril de 2016,
o dia em que o pior do Brasil
se expôs pública
e espetacularizadamente
sem qualquer escrúpulo,
na programação de um dia
de domingo, em nome das famílias
dos deputados, em nome
de deus, em nome de qualquer
coisa, menos em nome
da coisa pública.
Nesse dia, ele, o pior, como outros
dentre os piores, deu seu voto
a favor do impeachment dizendo
o que de maneira alguma
poderia ser permitido
ser dito: “pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim”.
No elogio ao torturador
da presidenta da república
(e de tantos outros e outras),
em plena câmara dos deputados,
televisionado em espetáculo
para todo o país,
no elogio do torturador
conhecido por, além de tudo o mais,
colocar ratos
nas vaginas das mulheres,
conhecido por fazer crianças
assistirem seus pais
sendo torturados,
conhecido por torturar as crianças
na frente de seus pais,
quando ele deveria ter saído
dali preso, mas não saiu,
o ilimitado do autoritarismo
brasileiro não encontrou
mais nenhuma limitação.
Naquele dia, com essa
e outras falas, seguidamente,
terríveis, mesmo para nós,
que sempre soubemos
dos nossos piores dias,
aquele foi o dia do pior
do que o pior. De lá para cá,
temos berrado em vão,
em vão, berramos quando
depuseram injustamente
a presidenta, em vão, berramos
quando prenderam injustamente
o ex-presidente operário,
impossibilitando sua candidatura,
em vão, berramos contra o Supremo,
contra o TSE, em vão berramos
contra o assassinato de Marielle
e em vão continuamos a berrar,
ainda que tudo esteja às claras,
quem mandou matar Marielle?
Não assustamos mais ninguém
com nossos berros; são eles,
antes, os inassustáveis,
que diariamente nos assustam.
De lá para cá, como o esperado,
tudo só vem piorando
cada vez mais, com o pleno
consentimento dos poderes
institucionais, do Supremo,
e teimam, ainda, em dizer,
que o Brasil está funcionando
normalmente. Não, ele não
está funcionando
normalmente, não, ele não.

II

Para quem não sabe, para quem
não viu, não leu, não ouviu,
para quem não quer saber,
para quem não quer ver,
para quem não quer ler,
para quem não quer ouvir,
para quem está surdo,
para quem não quer cheirar
o que está, fortemente, pelo ar,
mesmo que nada então adiante
dizer, saiba, entretanto, que
são muitos os testemunhos
de tal tempo, do tempo
da ditadura militar.
Já se perguntou quem
testemunha pela testemunha
– uma pergunta aporética, claro –,
e não se trata de modo algum
de fazer com que a poesia
testemunhe pela testemunha,
mas que ela possa guardar
testemunhos que foram
dolorosamente prestados,
como, por exemplo, o de Eny
Moreira, advogada:
“Dia 10 de novembro de 1972,
no Jornal Nacional, o Cid Moreira
lê uma nota oficial do Primeiro Exército
dando conta de que ‘foi morta,
num tiroteio, a terrorista Aurora Maria
Nascimento Furtado’, e,
de manhã cedo, no dia seguinte,
a família me liga e me pede
para ver se eu conseguia
liberar o corpo. Eu fui ao Exército,
o Exército disse que era no Dops,
eu fui para o Dops, disseram
que não era lá e, quando eu descia
do elevador, um policial,
que me conhecia das tantas idas,
me disse ‘ó, o corpo estava
no IML, mas já foi para o cemitério
do Caju. Eu fui para lá. Cheguei lá
estava a Dirce Drach. Dirce Drach
é uma advogada, que trabalhou com
Lino Machado. Quando eu cheguei,
a Aurora estava já no caixão… Gente,
é muito difícil lembrar isso. Nela,
foi posto um pano branco, rasgado
aqui para imitar um vestido.
A gente foi cobrindo de flores,
ela tinha um olho saltado, o outro
completamente preto,
um afundamento… Um afundamento
no maxilar, uma fratura exposta
no braço, mordidas pelo corpo,
não tinha unha nem bico de peito.
O cabelo dela era liso. Ela tinha 26
anos, branquinha, eu tinha a mesma
idade dela. O cabelo dela liso
assim e tinha uma franja
que tinha sido cortada
em cima da sombrancelha
toda irregular. Eu fiz um gesto,
desse gesto de carinho
que você faz em criança,
passando a mão assim…
Quando eu passei a mão,
que o cabelo levantou,
meu dedo afundou. Eu
comecei a mexer no cabelo.
Eles tinham… A última
coisa que fizeram com ela
foi apertar um torniquete –
por isso que ela tinha
um olho saltado. Quer dizer,
a única prova é a minha palavra
e a da Dirce. O pior disso é
que eu tenho certeza que
os homens que fizeram isso
com ela eram os mesmos
que estavam lá até a ambulância
sair com o corpo dela pra
São Paulo. A gente tratou
de botar muita flor nela
para ver se os pais
não percebiam. Desculpa”.
Como o de Cecília Coimbra:
“Uma das coisas que era comum,
quando prendiam um casal
junto, era levar um e outro
para ver o outro ser torturado.
Então, me levaram algumas vezes
para ver Novaes ser torturado…
É uma coisa difícil pra gente, né,
falar disso. E os requintes
de crueldade que fazem
com a mulher. Frequentemente,
a gente era colocada nua,
molhada, o molhar era para que
os choques ficassem mais intensos,
os choques elétricos, na boca,
no seio, na vagina, na orelha,
no nariz… A crueldade chegou
de terem um filhote de jacaré
lá no Doi-Codi, que eles puxavam
com uma corda no pescoço,
esse filhote de jacaré. Eu fui
uma noite, não lembro se era noite
ou se era dia, eu fui levada
para sala ao lado da sala de tortura,
me botaram nua, me amarraram
numa cadeira e botaram o jacaré
passando pelo meu corpo.
Eu acreditei que o meu filho
tinha sido entregue ao juizado
de menores, eles me fizeram acreditar
nisso. Meu filho tinha 3 anos e meio,
o José Ricardo, e eu caí na armadilha,
porque acreditei mesmo, porque eu vi
todos os meus irmãos presos
e meus irmãos não tinham nenhuma
militância política. Eles invadiram
a casa da minha mãe, prenderam
meus irmãos, minha cunhada,
que estava fazendo um mês
de casada com meu irmão,
eu acreditei que minha mãe
estivesse presa, eles, inclusive,
brincaram, de gozação, diziam
‘a Maria Guerrilheira’, porque
minha mãe se chamava Maria.
Depois eu vim a saber que
as únicas pessoas que não
foram presas foram minha mãe,
meu filho de três anos e meio
e meu irmão, Custódio
Coimbra, que era menor
de idade, tinha 14 anos
na época”. Escutemos
mais uma vez, em um retorno
que rememora pela diferença,
a memória de Cecília Coimbra:
“Em agosto de 1970, fui presa
e levada para o DOPS/RJ.
Dois dias depois, algemada
e encapuzada, fui para
o DOI-CODI/RJ, no quartel
da Polícia do Exército,
à Rua Barão de Mesquita,
na Tijuca. Falar daqueles
três meses em que fiquei
detida incomunicável
sem um único banho
de sol ou qualquer outro
tipo de exercício é falar
de uma viagem ao inferno:
dos suplícios físicos
e psíquicos, dos sentimentos
de desamparo, solidão, medo,
pânico, abandono, desespero.
A tortura não quer ‘fazer’ falar,
ela pretende calar
e é justamente essa a terrível
situação: através da dor,
da humilhação e da degradação
tentam transformar-nos
em coisa, em objeto.
Em especial, a tortura
perpetrada à mulher
é violentamente machista.
Inicialmente são os xingamentos,
as palavras ofensivas
e de baixo calão ditas agressiva
e violentamente
como forma de nos anular.
Chegando ao DOI-CODI/RJ,
fui levada encapuzada
para o andar térreo,
para uma sala: a sala de torturas,
conhecida como ‘sala roxa’.
De capuz, tive minhas roupas
arrancadas e meu corpo molhado.
Fios foram colocados
e senti os choques elétricos:
no bico dos seios, vagina, boca,
orelha e por todo o corpo.
Gritavam palavrões e impropérios,
chutavam-me. Exigiam-me,
através das torturas, que eu falasse
o que não sabia! No dia seguinte,
não sei precisar bem, fui
novamente levada
para a sala de tortura
e lá assisti parte da tortura
que meu marido sofria:
choques elétricos
em todo o seu corpo.
Seus gritos acompanharam-me
durante anos. Era muito comum
esta tática
quando algum casal era preso,
além de se tentar jogar um
contra o outro em função
de informações que pseudamente
algum teria passado
para os torturadores…
‘Será mesmo que ele falou isso?’…
Era necessário um esforço
muito grande
para não sucumbirmos…
‘Se falou está louco!’…
era o meu argumento,
repetido à exaustão.
Continuavam querendo saber
sobre o sequestro do embaixador
alemão. Fui novamente despida,
e colocada numa sala
que ficava ao lado da de torturas.
Fui amarrada numa cadeira
e colocaram um filhote de jacaré
sobre meu corpo. Desmaiei.
Os guardas que me levavam,
sempre encapuzada, constantemente
praticavam vários abusos sexuais…
Os choques elétricos no meu corpo
nu e molhado
eram cada vez mais intensos…
Eu me sentia desintegrar:
a bexiga e o ânus sem nenhum controle…
‘Isso não pode estar acontecendo:
é um pesadelo… Eu não estou aqui…’,
pensava eu. O filhote de jacaré
com sua pele gelada e pegajosa
percorrendo meu corpo…
‘E se me colocam a cobra,
como estão gritando que farão?’…
Perco os sentidos, desmaio.
Numa madrugada fui retirada
da cela, levada para o pátio,
amarrada, algemada
e encapuzada… Aos gritos
diziam que ia ser executada
e levada para ser ‘desovada’
como em um ‘trabalho’
do Esquadrão da Morte…
Acreditei… Naquele momento
morri um pouco… Em silêncio,
aterrorizada, me urinei…
Aos berros, riram e me levaram
de volta à cela… Parece que,
naquela noite, não tinham
muito ‘trabalho’ a fazer …
Precisavam se ocupar”.

III

O que eu vi até o momento
é que outras gripes
mataram mais do que essa.
Assim como uma gripe, outra
qualquer leva a óbito.
Por enquanto, nada de alarme.
Não é uma situação alarmante.
Não é motivo para pânico.
Se estiver tudo redondinho
no Brasil, não vamos buscar
ninguém [na China]. Se depender
do presidente, não vamos
buscar ninguém. Custa caro
um voo desses.
Foi surpreendente o que aconteceu
na rua até com esse
superdimensionamento.
O vírus chegou, está sendo
enfrentado por nós e brevemente
passará. Nossa vida tem
de continuar. Que vai ter problema
vai ter, quem é idoso, quem
está com problema, quem tem
alguma deficiência,
mas não é tudo isso que dizem.
Quem tem obrigação de cuidar
dos idosos é a família
e não o governo. Quem tem abaixo
de 40 anos têm que se preocupar
para não transmitir o vírus
para outros. Para a própria vida,
é quase zero o risco. Cada família
tem que botar o vovô e a vovó
em um canto e evitar o contato
a menos de dois metros. O resto
tem que trabalhar. Toda família
testou negativo. Eu, a partir do momento
em que não estou infectado,
ao ter contato com quem quer que seja,
não estou colocando em risco a saúde
daquela pessoa. Talvez
eu tenha sido infectado lá atrás
e nem tenha sabido. Talvez muitos
de vocês também. Se eu resolvi
apertar a mão do povo
desculpe aqui, isso é um direito meu.
Muitos pegarão isso
independente dos cuidados
que tomem. É uma neurose.
70% [da população] vai pegar
o vírus. Isso vai acontecer
mais cedo ou mais tarde.
Devemos respeitar, tomar
as medidas sanitárias cabíveis,
mas não podemos entrar numa neurose,
como se fosse o fim do mundo.
O que que está acontecendo, nós íamos
passar por isso. Começou na China,
foi para outros países da Europa
e iríamos passar por isso. Agora,
o que está errado é a histeria,
como se fosse o fim do mundo.
E uma nação, o Brasil, por exemplo,
só estará livre desse vírus, né,
o coronovírus aí, tá, quando?
Quando um certo número de pessoas
forem infectadas e criarem
anticorpos, que passam a ser
barreira para não infectar
quem não foi infectado ainda.
Nós estamos em uma briga
pelo poder e vou ser fiel
àquilo que eu sempre tive
com a população brasileira.
Não dá para querer jogar
nas minhas costas
uma possível disseminação
do vírus. Vocês vão querer
jogar a responsabilidade
em cima de mim. Espero
que não venham me culpar
lá na frente pela quantidade
de milhões e milhões
de desempregados
na minha pessoa. Esse vírus
trouxe certa histeria.
A economia está parando.
Tem alguns governadores,
no meu entender, que estão
tomando medidas
que vão prejudicar e muito
a nossa economia.
Estão tomando medidas,
a meu ver, exageradas.
Brevemente, o povo saberá
que foram enganados
por esses governadores
e por grande parte da mídia
nesta questão do coronavírus.
Se for nos ônibus
do Rio, Metrô de São Paulo,
está tudo lotado. A vida
continua, não tem que ter histeria.
A histeria leva a um baque
da economia. Não é porque tem
uma aglomeração de pessoas
aqui e acolá esporadicamente
que tem que ser atacado
exatamente isso. É tirar a histeria.
Agora, o que acontece? Prejudica.
Algumas autoridades estaduais
têm tomado medidas, tem tido
reclamação e tem tido elogio
também, mas eu deixo claro
que o remédio, quando em excesso,
pode não fazer bem
ao paciente. Tem certos governadores
que estão tomando medidas
extremas. Uns fecharam supermercados,
outros querendo fechar aeroportos, outros
querendo colocar uma barreira
entre os estados, fechando academias.
Não compete a eles fechar
aeroporto, fechar rodovias, shopping,
feira do Nordestino no Rio de Janeiro.
Tem gente que quer fechar igrejas,
o último refúgio das pessoas.
Lógico que o pastor vai saber
conduzir lá o seu culto, ele
vai ter consciência, o pastor,
o padre, se a igreja está muito cheia,
falar alguma coisa, ele vai
decidir. Até porque
a garantia de culto é garantida
pela constituição. A chuva
está vindo aí, você vai se molhar,
agora se você botar uma capinha
aqui, tudo bem, passa, agora
se você entrar em parafuso,
você vai morrer afogado
embaixo da chuva.
Não temos como impedir
o direito de ir e vir.
Eu tenho o direito constitucional
de ir e vir. Ninguém vai tolher
minha liberdade de ir e vir.
Ninguém. Estão fazendo terror
com a população desses estados.
Os governadores são verdadeiros
exterminadores de emprego.
O comércio para, o pessoal
não tem o que comer.
A economia tem que funcionar,
caso contrário as pessoas
vão ficar em casa
sem ter com o que se alimentar.
Estão fazendo o que bem entendem.
Vão morrer alguns. Sim, vão morrer.
E daí? Lamento. Quer que eu faça
o quê? Eu sou Messias, mas não faço
milagre. Não podemos deixar
esse clima todo que está aí. Prejudica
a economia. Não adianta eu falar
fiquem calmos, ou esperem
uma guerra. Primeiro porque
eu estou me violentando.
Eu não quero histeria
porque isso atrapalha.
Agora, deixo bem claro: a gente
não temos que entrar em pânico.
Isso nós vamos viver. Você não pode
comparar Brasil com Itália.
Eu pergunto a você: sabe
quantos habitantes temos
por quilômetro quadrado
na Itália? São 200 habitantes
por quilômetro quadrado.
Na Alemanha são 230 habitantes.
No Brasil, 24. Há uma diferença
enorme entre esses países.
O número de pessoas que morreram
de H1N1 no ano passado
foi na ordem de 800 pessoas.
A previsão é não chegar
a essa quantidade de óbitos
no tocante ao coronavírus.
Eu não interfiro no trabalho
do nosso ministro da saúde,
eu vejo os números que parte
de lá, dessa projeção, eu tô achando
que é um exagero nisso aí.
Nós temos que levar em conta
a situação daquela pessoa:
no Rio de Janeiro, tinha
uma pessoa grave entubada
lá, tem 50 anos de idade,
desde os 12 é um fumante
inveterado, então, qualquer
problema que ele adquira
vai ser uma catástrofe
para a vida dele.
Estamos fazendo a coisa certa
e com tranquilidade. Devemos
sim voltar à normalidade.
Algumas poucas autoridades
municipais e estaduais
devem abandonar o conceito
de terra arrasada, a proibição
de transportes, o fechamento
de comércio e o confinamento
em massa. Ficar em casa
é coisa de covardes.
Essa é uma realidade, o vírus
‘tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo,
mas enfrentar como homem, porra.
Não como um moleque.
Tem mulher apanhando em casa.
Por que isso? Em casa que falta pão,
todos brigam e ninguém
tem razão. Como é que acaba
com isso? O cara quer trabalhar,
meu Deus do céu. É crime
trabalhar? O que
se passa no mundo
tem mostrado que o grupo
de risco é o das pessoas acima
dos 60 anos. Então, por que
fechar escolas? Brasileiro
tem que ser estudado. Ele não
pega nada. Você vê o cara
pulando em esgoto ali. Ele sai,
mergulha e não acontece nada
com ele. Não é esperar
que o governo faça
alguma coisa. O governo
não pode fazer tudo
que acham que o Estado
tem que fazer. No meu caso
particular, pelo meu histórico
de atleta, caso fosse contaminado
pelo vírus, não precisaria
me preocupar, nada sentiria
ou seria, quando muito, acometido
de gripezinha ou resfriadinho.
Depois de uma facada, não
vai ser uma gripezinha
que vai me derrubar não,
tá ok? Eu faço 65
daqui a quatro dias.
Vai ter uma festinha tradicional
aqui. Até porque eu faço aniversário
no dia 21 e minha esposa dia 22.
São dois dias de festa aqui.
Emenda, dia 21, próximo de meia-
noite ela me cumprimenta; logo depois
eu a cumprimento. Ou será
que eu estou proibido
de fazer essa festinha em casa?
O presidente sou eu. A decisão
foi o Supremo Tribunal Federal,
o Supremo que decidiu
que estados e municípios
podem decretar as medidas
que acharem necessárias para conter
o avanço do vírus. O Supremo
falou que eu não tenho autoridade
para isso, o Supremo disse isso,
mas, no que depender de nós,
nós vamos começar a flexibilizar
e mostrar que não é esse o caminho.
Pena que eu não possa intervir
em muita coisa, porque o Supremo
decidiu que as medidas restritivas
que têm de ser respeitadas
são aquelas de prefeitos e governadores.
Vamos seguir o destino. Vamos respeitar
a decisão do Supremo Tribunal Federal
que, afinal de contas, estamos
numa democracia, além da independência,
a harmonia entre os poderes.
Não queremos aqui criar qualquer polêmica
com outro poder. Todos eles são responsáveis
assim como eu sou como chefe do executivo.
Decisões sou obrigado a tomar, porque
sempre tenho dito, dado a minha formação
militar: pior que uma decisão mal tomada
é uma indecisão. Jamais pecarei
por omissão. Esse é o ensinamento
que eu tive na minha carreira
militar. Os excessos que alguns cometeram
que se responsabilizem por eles.
Quem tem poder de decretar
estado de defesa ou de sítio,
depois de uma decisão obviamente
do parlamento brasileiro, é
o presidente da república
e não o prefeito ou o governador.
Acabou a época da patifaria.
Chega da velha política.
Queremos é ação pelo Brasil.
Não queremos negociar nada.
Não tem mais conversa.
Daqui para frente, não só
exigiremos, porque chegamos
no limite. Faremos cumprir
a Constituição. Será cumprida
a qualquer preço. E ela tem
mão dupla. Não é só uma mão,
não. As Forças Armadas estão
ao nosso lado. Todos nós
juramos um dia dar a vida
pela pátria. Agora é Brasil
acima de tudo e Deus acima de todos.
Deus abençoe nossa pátria querida.

IV

Compartilhando vozes, afetos
e feitos na recusa de sermos
destroçados, guardo
testemunhos, notas, notícias
e percepções diárias da destruição
para estarmos, mais uma vez,
juntos, para atravessarmos o dia,
os meses, os anos de tantas dores
e desencontros, para não deixarmos
o esquecimento, mais uma vez,
nos assolar. Talvez eu seja aqui
um termômetro do choque da frieza
violenta da perversão contra
o calor de todos aqueles que,
ardendo em febre, sofrem. Talvez
eu esteja aqui longe de um poeta
em busca da afirmação de um estilo,
de consolidá-lo por sua repetição ou,
enfim, do cansaço dele e da busca
de sua superação – questões, hoje,
para mim, demasiadamente
pessoais, individuais –, talvez eu esteja
aqui com você, com vocês, com um outro,
com outros, ainda que poucos, em busca
de uma intervenção, pequena que seja,
ou mesmo que não seja, mas
apontando para essa direção
como muito do que tenho tentado
fazer. Talvez eu assuma aqui
diversos pontos de vistas, inclusive,
os de meus piores inimigos, desde
os quais também falo para tentar retirar
suas armas, desarmá-los, ao expô-las.
Do meu lado, sem me preocupar tanto
com acertos e erros, eu, que,
praticamente, só tenho a escrita
para lutar, eu insisto. Eu insisto
no que me é necessário, eu insisto
no impossível e na insistência,
eu insisto na necessidade do impossível
da insistência. Eu insisto nisso
que o meu tempo requer. Aqui,
escrevo, talvez, como Josefina,
com minha voz se confundindo
com as vozes de uma incerta
comunidade, com as vozes
de um povo incerto que está
por aí, com as vozes
de uma imaginação pública,
com minha voz praticamente
se confundindo com outras
vozes quaisquer que me tomam.
Que essas vozes quaisquer
se confundam em mim
com outras que se destacam,
mas que igualmente me tomam
em uma superposição de vozes
para mim necessária. Não me
furtando ao que considero
a honestidade de pensar
o nosso tempo em meio
aos tenebrosos acontecimentos
pelos quais passamos, talvez
eu esteja, aqui, como
um cartógrafo do nosso tempo,
como um meteorólogo
dos acontecimentos do nosso tempo,
como um historiador das falas
de um presente a criar um antimuseu,
um ainda não museu, um menos
que museu, a criar um antimonumento,
um ainda não monumento, um menos
que monumento, alguns resquícios
de lampejos de uma memória
em movimento do nosso tempo,
sabendo que amanhã não será
um dia melhor do que hoje, que não é
um dia melhor do que ontem.
Àqueles que insistem em perguntar
para quê poetas em tempos
de coronavírus?, àqueles que insistem
em perguntar para quê filósofos
em tempos de coronavírus?, àqueles
que insistem em perguntar
para quê poetas e filósofos em tempos
de Bolsonaro e coronavírus?, àqueles
que há poucos dias insistiam
em dizer que não deve haver
investimentos em ciência
no país, que tudo deveria ser
importado, mas que agora
estão se borrando de medo
por não haver testes
nem vacinas para o vírus,
nem ventiladores pulmonais
nos leitos dos hospitais, nem
leitos disponíveis nos hospitais,
nem nos hospitais particulares,
e que estão seguindo à risca
a recomendação dos cientistas,
ou àqueles que seguem
não levando a ciência em conta
e, claro, tampouco, muito menos,
a poesia e a filosofia (ainda que leiam
a Bíblia cotidianamente), àqueles
que seguem fazendo carreatas
em favor da pandemia, que seguem
dançando morbidamente com caixões,
àqueles que, assustadoramente,
não conseguem olhar minimamente
para o outro nem para o real, àqueles
que acham que você só deve
se preocupar com o que está
a um palmo do nariz, se tanto,
ou somente com o próprio
nariz, àqueles que infelizmente
não conseguem ler minimamente
o que se passa, saibam que vocês
estão no mundo em companhia
de pessoas como Alexander
Lukashenko, presidente
da Bielorrússia, de Gurbanguly
Berdymukhamedov, ditador
do Turcomenistão, Daniel
Ortega, presidente da Nicarágua,
John Magufuli, o presidente
da Tanzânia, que pediu ao povo
que rezasse pois o vírus
“não pode sobreviver
no corpo de Cristo”, e, claro,
de Jair Bolsonaro, o pior
dos homens, o populicida
em quem vocês votaram neste país
que luta (parece que em vão)
para se livrar de toda essa ignorância
que vocês insistem em querer
preservar para vocês e para o país.

V

Não. Amanhã não será um dia melhor
do que hoje, que não é um dia
melhor do que ontem. A cada dia,
o ministro da saúde oscila
entre ceder às barbaridades
do presidente e contradizê-lo.
Finalmente, ele disse que, se
o presidente (como tem feito
desde que, ele próprio, suspeito
de ser portador do vírus,
foi à manifestação convocada
por ele mesmo à sua base
de apoio para ir à rua
defender o fechamento
do Congresso e do Supremo
que, aliás, até o momento
da pandemia, vinham sendo
inacreditavelmente cúmplices
de suas – e de seus filhos –
inconstitucionalidades),
pois bem, o ministro finalmente
parece ter dito ontem para o presidente
não menosprezar a gravidade
da situação em suas manifestações
públicas, para o presidente pensar
se “estamos preparados para ver
caminhões do exército transportando
corpos pelas ruas com transmissão ao vivo
pela internet?”, para o presidente
não mentir em público
dizendo que temos o remédio
do vírus se ainda não o temos,
que, se ele insistir em dizer
que a cloroquina cura
sem qualquer evidência científica,
que, se ele, presidente, insistir
em falar que o coronavírus
é uma gripezinha ou um resfriadinho
qualquer, que, se ele insistir
em pegar um metrô ou um ônibus
em São Paulo, como disse que fará,
que ele, ministro, será obrigado
a criticá-lo em público, ao que
o presidente miliciano, o sociopata
que governa esse país desde o princípio
em nome apenas da pulsão de morte
e da perversidade (como suas ações
mesmo antes de governar), rebateu
dizendo, de modo sempre totalitário,
que, se isso acontecesse, ele, presidente,
iria demiti-lo, demitir o ministro da saúde.
Vinte e quatro horas depois disso,
hoje mesmo, agora há pouco,
o presidente assassino fez um tour
por Brasília, por Taguatinga, Ceilândia
e Sobradinho, por padarias, pequenos
comércios e pelo hospital do exército,
conversando com vendedores
ambulantes, juntando várias pessoas
em torno de si, indo, com sua gangue,
a diversos lugares… Veremos
se o ministro da saúde
virá mesmo a público criticar
seu cupincha, o ministro que,
diga-se, sendo há anos do grupo
do presidente, apoia os ruralistas,
foi contra a demarcação das terras
indígenas, é contra o aborto, foi contra
o programa Mais Médicos, lamentou
a lei do divórcio, votou a favor da PEC
do teto dos gastos, posicionou-se
contra o SUS, votou a favor da reforma
trabalhista e foi um dos deputados
federais que votaram “sim”
pelo impeachment de Dilma Rousseff
levando o país não a uma trágica
situação – Bolsonaro não tem nada
daquele outro tirano, Édipo –,
mas verdadeiramente a uma situação
de filme de terror, na qual,
até o momento, parecemos ser
as vítimas, meros figurantes
violentados desse governo, sem conseguir
esboçar qualquer reação. Reação
ao presidente miliciano, quem
conseguiu esboçar não foi,
infelizmente, nenhum partido
de esquerda nem nenhum movimento
social (enfraquecidos conjuntamente
pelo antipetismo fabricado há anos
diariamente pela mídia, pelo
Congresso, pelo Supremo
com tudo o mais, para conseguir
o impeachment de Dilma e a subsequente
condenação de Lula – sim, o bolsonarismo
é, em grande parte, a construção calculada
do antipetismo), mas quem de fato conseguiu
esboçar uma reação foram governadores
de direita, aqueles que vieram do grupo
miliciano do presidente, aqueles
que foram eleitos beneficiados
pela enxurrada de fake news
que levaram o genocida à presidência,
aqueles que cortaram verbas da saúde,
da educação e da cultura, aqueles
que aprovaram o teto de gastos,
que tramaram o desmonte
da proteção jurídica e social
dos trabalhadores, que instauraram
a precarização do trabalho
com as mãos do Estado
a desregulamentá-lo e flexibilizá-lo,
aqueles que querem privatizar tudo
o que dá lucro ao Estado
para aumentar as suas fortunas
individuais e a de seus grupos,
aqueles que querem a participação
da iniciativa privada
na gestão pública, aqueles que,
latifundiários da bancada ruralista,
preservam escravos em suas fazendas,
matam indígenas, invadem terras
que não são suas, destroem florestas,
aqueles que governam
por suas superexposições diárias
em redes sociais direcionadas
por marqueteiros do momento
que eles mesmos são, aqueles
que querem acabar com a previdência
de servidores, aqueles
que já roubaram cobertores
de moradores de rua em quem
igualmente já jorraram jatos de água
fria sobre seus corpos desnudos, aqueles
que propuseram dar ração, ao invés
de comida, para crianças de escolas
públicas, aqueles que tentaram acabar
com a cracolândia na base da bala,
que demoliram paredes de prédios
com pessoas dentro deles, aqueles
que já subiram em helicópteros
com snipers atirando contra a população
que mora em comunidades ou favelas,
aqueles que disseram que têm de acertar
na cabecinha (e acertaram), aqueles
que comemoraram dando um soco
no ar, como se fosse um gol
de um time de futebol, a ação
de um atirador de elite do Bope
sobre um perturbado mental
com inclinações psicóticas (como
disseram psicólogos levados ao local)
que havia sequestrado um ônibus
com um falso revólver, aqueles
que disseram que “algumas pessoas
estão dizendo que comemorei a morte,
não, eu comemorei a vida”, aqueles
que disseram que “os profissionais
da violência somos nós”, querendo dizer
por esse “nós” exatamente “os militares
e o uso da força pelo Estado”, aqueles
que, antes mesmo de se elegerem vice-
presidentes, já falavam em dar
um possível autogolpe do presidente
com o apoio das forças armadas,
aqueles, portanto, para quem,
de diversos modos, de todos
os modos, o que entendem por vida
é exatamente a morte, a violência,
aqueles que não têm o menor pudor
em realizar uma necropolítica literal
e neoliberal, ou ainda,
uma necrocracia e um necroliberalismo
literal e em todos os sentidos.
Nesse momento, foram eles,
e alguns ministros que, agora,
se afastam do presidente,
que conseguiram uma reação, foram
eles que saíram e continuarão saindo
fortalecidos com a – inevitável – queda
de popularidade do presidente, foram
eles que passaram uma imagem
mais ponderada do que a do presidente
e, consequentemente, não são
menos perigosos, mas talvez sejam
ainda mais perigosos
que o atual presidente, porque perdurarão
mesmo depois de o presidente
e sua família assassina caírem.

VI

Não, amanhã não será um dia melhor
do que hoje, que não é um dia
melhor do que ontem – já sabíamos
disso e dissemos
quando achamos necessário
dizer. O certo é que, apesar
de necessário, não é fácil
responder a esse momento
avassalador, em que conspiram
para nos calar, o certo é que é preciso
que, mesmo com um quinto da população
do mundo em quarentena, ou seja,
com algo em torno de 1,7 bilhão
de pessoas em isolamento onde podem
estar, não nos calemos, mesmo que tenhamos
de berrar pelas janelas, mesmo que, lentos,
tenhamos de pedir várias ajudas
para conseguir falar, mesmo que tenhamos
de pedir ajuda a um dos mais antigos poemas
e dizer: “Agora, nada é espantoso, inesperado
ou impossível, desde que Ares, senhor
da guerra, enviou mais um vírus
a se espalhar pelo mundo e o úmido
temor domou os homens. E tudo então
tornou-se crível e possível. Ninguém
fique espantado com o que quer
que venha a acontecer […]”. O que virá
a acontecer? Uma queda? Um golpe?
Um autogolpe? Uma revolução
autoritária? Um isolamento
do presidente, que ficará falando
sem governar? Mais arrochos? Prisões?
Demissões em massa? Mais miséria?
Dezenas de milhares de mortes?
Centenas de milhares? E o que
ocorrerá pelo mundo afora? O que
vem por aí? O quê? Sim, é estranha
e deslocada a evocação a Ares,
mas é o que diversos líderes mundiais
estão, mais uma vez, dizendo,
com a mesma ladainha de sempre:
que se trata, mais uma vez,
de guerra. Dessa vez, até o secretário
geral da ONU declarou: “A covid-19
é o nosso inimigo comum. Temos
de declarar guerra a esse vírus”.
É guerra. Eis a guerra. É guerra por lá,
por aqui, por aí, por sei lá onde,
por toda parte. As armas estão
todas apontadas diretamente
para os nossos corpos que,
não tendo imunidade ao vírus,
são passíveis de contaminação
mesmo em nossas – já impossíveis –
solidões mais ou menos reclusas.
Talvez, então, o presente seja
um modo solitário de ser comunitário.

VII

Mais uma vez, é guerra. É guerra.
É guerra, desta vez, sanitária.
Eis a guerra. Países interceptam
máscaras, respiradores, luvas
que iam para outros países. É guerra.
É guerra sanitária. É guerra por lá,
por aqui, por aí, por sei lá onde,
por toda parte. “Estamos em guerra”,
disse o presidente francês, “estamos
em guerra”, “em uma guerra sanitária”,
“não estamos lutando nem contra
um exército, nem contra outra nação.
Mas o inimigo está lá, invisível,
imperceptível e avançando.
Isso exige mobilização geral”. Esse
mesmo presidente entende “mobilização
geral” como confisco de equipamentos
que iam para outros países e, ao fazer escala
em seu país, foram apreendidos, digo,
roubados. Outro presidente, da nação
mais poderosa do Ocidente, redirecionando
para si mesmos equipamentos médicos
de combate ao vírus que tinham
como destino outros países, disse:
“Precisamos das máscaras. Não queremos
outros conseguindo máscaras. É por isso
que estamos acionando várias vezes
o ato de produção de defesa. Você pode
até chamar de retaliação porque é
isso mesmo. É uma retaliação”.
Os Estados Unidos compram, na pista,
por três ou quatro vezes o valor vendido,
carregamentos de aviões em aeroportos
chineses que iam para outros países,
fazem embargos impedindo o equipamento
de chegar ao país que, em sua alta diplomacia
médica, envia dezenas de milhares de médicos
para colaborar com dezenas de países do mundo.
Em Ankara, a Turquia sequestra avião
que levava máscaras, protetores
e respiradores da China para a Espanha.
A República Tcheca apreende máscaras
e respiradores que iam da China,
como “ajuda humanitária”, para a Itália.
Tailândia bloqueia máscaras que iam
para a Alemanha. Horst Seehofer,
ministro do interior do governo
de Angela Merkel, confirma que
Donald Trump tentara comprar
a vacina em desenvolvimento
em um laboratório da Alemanha
para que fosse usada apenas pelos EUA.
Médicos franceses querem que vacina
seja testada na África, repito,
não em franceses, mas em africanos.
Mais uma vez, é guerra. É guerra.
É guerra sanitária. Eis a guerra.
É guerra por lá, por aqui, por aí,
por sei lá onde, por toda parte.
E nossos corpos não têm qualquer
imunidade para a guerra, para o que
hoje se entende por política. Não,
amanhã não será um dia melhor
do que hoje, que não é
um dia melhor do que ontem.

VIII

Não, Iraj Harirchi, mesmo que você
tenha contraído esse vírus, ele NÃO
é democrático e faz SIM distinção
entre ricos e pobres, entre estadistas
e cidadãos comuns. Se a doença
e a dor atingem a todos, mesmo a você,
a Boris Johnson e à Rainha Elizabeth,
elas atingem aos pobres de maneira
muito pior; os estadistas sempre terão
todos os meios de proteção, os melhores
hospitais, assistências e tratamentos
à disposição. NÃO, Zizek, mesmo
que você goste de umas boutades
muitas vezes engraçadas e benvindas,
dessa vez, quando você disse que,
nisso, Iraj Harirchi “estava certo,
estamos todos no mesmo barco”,
acrescentando “efeitos secundários
potencialmente benéficos” da pandemia,
usando como “símbolo” de tais “efeitos
secundários potencialmente benéficos”
os “enormes navios de cruzeiro,
o que me tenta a dizer que este é o fim
da obscenidade de tais navios”,
com você deslizando da metáfora
do barco ao símbolo do navio,
não tenho como não pensar, antes,
nos efeitos maléficos, primários,
do vírus nas favelas conglomeradas,
nas periferias superlotadas, nos mais
de 30 milhões sem água encanada,
sem esgoto, sem comida, sem nada,
na população de rua, maior do que nunca,
nesses em quem as doenças crônicas
(hipertensão, diabetes etc.) são majoritárias,
nas aldeias indígenas tão suscetíveis,
nos presídios com celas abarrotadas,
transbordadas de gente, naqueles que
de maneira alguma podem parar
de trabalhar, naqueles que
de maneira alguma permitem
que parem de trabalhar, naqueles
que precisam de seus trabalhos
informais… Ainda que o vírus
possa causar uma variação
nessa lógica, você sabe muito bem
que quem organiza a decisão
dos que vão viver e dos que vão
morrer é o dinheiro ou, para ser mais
preciso, o capital. O Brasil
é o segundo país mais desigual
do mundo, praticamente empatado
com o primeiro – aqui 5 bilionários
detêm a riqueza de 100 milhões
de pessoas, ou seja, da metade
mais pobre da população. Acabo
de saber que os bairros e lugares
pobres do Rio e São Paulo
já estão com uma taxa de letalidade
dez vezes maior do que as regiões
mais ricas, fazendo com que o risco
seja inversamente proporcional
à renda. Acabo de saber que nos EUA
enquanto há mais de 30 milhões
de novos desempregados, a fortuna
dos bilionários aumentou na crise
mais de 300 bilhões de dólares.
Acabo de saber que, no Brasil,
enquanto 58 milhões de pessoas
que ganham até R$500,00 por mês
perderam pelo menos metade
de suas rendas e, dessas, 14,5 milhões
ficaram sem qualquer renda,
o segundo homem mais rico do país
disse que “O que eu gosto mais,
francamente, é que toda crise
traz oportunidades”. Francamente,
não, não estamos todos
no mesmo barco. Se, como disse
o amigo indiano de Nancy
com toda ironia (com a ironia
que o nosso infame chanceler,
criticando você, Zizek, e usando
o termo de Nancy, não soube ver),
o vírus pode ser um “comunovírus”
e não um “coronavírus”, se,
vindo, supostamente, do comun-
ismo, caberia ao comuno
decapitar a coroa (o corona),
a resposta a ele depende, de certo,
de inúmeros fatores e modos de vida
– a coroa não será decapitada assim
tão facilmente pelos comuns.
Mas não se tem certeza ainda
de onde vem o vírus, e creio
que demoraremos muito a saber
se, de fato, o primeiro caso veio,
como parece, do mercado de animais
silvestres, típico no Oriente, de Wuhan,
na China, ou de qualquer outro lugar
do mundo; talvez, isso nem seja
o mais importante, talvez isso seja
pouco importante. Talvez isso
seja muito importante, determinante
mesmo, não sei. Hoje, são tantos
os inimagináveis modos de guerra
para a guerra econômica em curso…
Lembrando que, já sabendo do vírus,
mas antes de a cidade ser colocada
em quarentena, 5 milhões de pessoas
saíram de Wuhan por ocasião das férias
do Ano Novo Chinês e por medo
da epidemia, o mais importante
parece ser a globalização que provocou
a tão rápida propagação do vírus
via turistas e empresários
pelo mundo afora, as aglomerações
urbanas cada vez maiores e a destruição
da natureza, sobretudo pelo agronegócio,
que, descomplexificando-a, gera a extinção
de muitos animais deixando os vírus
sem hospedeiros e fazendo com que eles,
nas bordas das florestas, cada vez menores,
com as cidades, cada vez maiores,
desses circuitos periurbanos, desses
limites da produção do capital, saltem
globalmente para nós, transbordem
para nós, transfiram-se zoonodicamente
para nós que não temos defesas
estabelecidas contra eles nem contra
muitas coisas. Em todos os casos,
não é o morcego nem o – menos provável –
pangolim, possível intermediário
entre o morcego e o homem, os responsáveis
pela propagação do coronavírus
e de outros milhares de patógenos
emergentes e reemergentes, mas
nós, sempre nós, nós que também
reproduzimos industrialmente
animais nas piores situações. Somos nós
os responsáveis, e não o coronavírus,
a peste suína africana, o Campylobacter,
o Cryptosporidium, a Cyclospora,
o Ebola Reston, o E. coli0157:H7,
a febre aftosa, a hepatite E, a Listeria,
o vírus Nipah, a febre Q, a Salmonella,
o Vibrio, a Yersinia e novos tipos
de gripe como H1N1, H1N2v, H5N1,
H5N2, H5Nx, H6N1, H7N1, H7N3,
H7N7, H7N9, H9N2… Somos nós,
sempre nós. Além do mais, Zizek,
para continuar com o deslizamento
da metáfora ou de seu símbolo, soube
hoje que, na insuficiência de leitos
hospitalares, há cidades que estão fazendo,
de navios, hospitais, acompanhados
de batedores. É bem verdade que,
em uma entrevista que leio agora, pouco
mais de um mês depois da publicação
daquele seu texto mencionado, você
– conscientemente ou não – parece
ter se retratado, ainda que de uma maneira
irresponsável, precisando, no lugar
de se referir ao que você mesmo
havia escrito, criticar uma outra pessoa,
no caso, uma mulher, uma popstar,
ao dizer: “Penso no egoísmo
dos superricos fechados em seus bunkers
ou em iates. Madona postou um vídeo
na banheira dizendo que estamos todos
no mesmo barco. Não é assim
e as pessoas veem a situação.
Os novos heróis são as pessoas comuns”.

IX

Enquanto, sem qualquer passaporte,
dissimulado no corpo das pessoas,
sem passar individualmente
por nenhuma biometria nem
por ela ser acusado, sem qualquer
marca digital, sem ser parado
pela polícia federal, sem fotografia facial,
sem ser parado por qualquer vigilância
digital, necessitando de seus hospedeiros
sem os quais ele é inerte,
sem ser aprisionado em campos
de refugiados, sem ser morto
ou assassinado como os imigrantes
nos barcos pelo Mediterrâneo,
sem qualquer respeito aos territórios
nacionais, sem precisar se esconder
em cavernas no Afeganistão
nem em esconderijos subterrâneos
na cidade de Al Daur, enquanto
o vírus atravessa rapidamente
todas as fronteiras, isolando-nos,
contraditoriamente, em quarentena,
como modo de proteção, em nossos
espaços privados, isolando-
nos em uma espécie de paralisia
afetiva, social e econômica, enquanto
isso, há multidões, frágeis, que,
não podendo se isolar, seguem
e continuarão seguindo expostas,
trabalhando em caixas de super-
mercados, entregas, farmácias,
fábricas, transportes públicos,
abastecimentos, hospitais… Todos
que se expõem para muitos
não se exporem, todos que deveriam
ser considerados profissionais da saúde,
pois cuidam da saúde de muitos.
Esse parece ser um dos senso-comuns
do momento, uma das frases
mais repetidas: que a pandemia
afeta igualmente a todos, que todos
somos, perante o vírus, efetivamente
iguais, que o vírus não discrimina,
que todos estamos no mesmo barco,
o que todos dizem sem conhecer
os lugares mais pobres, com maior
densidade de pessoas nos menores
espaços, o que todos dizem sem
conhecer tampouco os lugares mais
ricos, mas o vírus mostra mesmo,
como Butler nos disse, que “a comunidade
humana é igualmente precária”, como
também vemos, como ela disse,
que “a chegada de empreendedores
ávidos para capitalizar em cima
do sofrimento global” testemunha
“a velocidade com a qual a desigualdade
radical” encontra “formas de reproduzir
e fortalecer seus poderes
no interior das zonas de pandemia”.
Sabendo relativizar o que Zizek,
ao menos a princípio, não relativizou,
Butler disse: “A desigualdade social
e econômica assegurará que o vírus
discrimina. O vírus, por si só, não
discrimina, mas os humanos seguramente
o fazemos, modelados como estamos
pelos entrelaçamentos dos poderes
do nacionalismo, do racismo,
da xenofobia e do capitalismo”.

X

Zizek, é certo que, mesmo que
com mais controle, os cruzeiros
continuarão a existir, como é
mais certo ainda que os bilionários
de verdade não estão nesses
cruzeiros que você abomina, mas
com suas famílias em seus iates
pelas praias da América Central. Pior,
ainda pior, muito pior, é certo também
que as favelas continuarão existindo.
Isso aqui não é um cruzeiro
internacional de férias ou de aposentadoria
de alguns milionários, isso aqui é muito mais
do que um cruzeiro internacional de férias
ou de aposentadoria de alguns milionários
ou de quem mais pode estar por ali
a ser usado como símbolo para alguma coisa,
isso aqui não é a fuga com iates para praias
paradisíacas de meia dúzia de bilionários.
Isso aqui não é tampouco Kill Bill
nem nenhum outro filme de Tarantino.
Isso aqui é o real do Brasil e de muitos
outros países como o nosso. Desculpe-me,
Zizek, mas, com toda a admiração,
não consigo pensar que sairemos dessa
com uma “sociedade alternativa”, com
“uma sociedade que se atualiza
sob a forma de solidariedade
e cooperação global”. Não aqui, meu caro.
De modo algum, parece-me que sairemos
mais próximos uns dos outros: sairemos,
parece-me, mais isolados, mais separados,
mais desconfiados, mais vigiados,
cada um buscando por si sua sobrevivência.
Aqui (não só aqui, claro), estamos
mais próximos do que Preciado falou:
“A gestão política das epidemias
põe em cena a utopia de comunidade
e as fantasias imunitárias de uma sociedade,
externalizando seus sonhos de onipotência
de sua soberania política”. Se conseguiremos
“inventar novas estratégias de emancipação
cognitiva e de resistência”, não sabemos,
é uma questão que permanece aberta.

XI

Aqui, mais do que em qualquer outro
lugar do mundo, o presidente jogou
desde sempre a favor das bombas
e da bala para matar a população,
a favor da Bíblia para entorpecer
a população, a favor do boi para roubar
(as terras d’)a população, a favor
do BBB para não dar chance
à população, a favor de decretos
para matar a população, como joga
agora com o vírus para matar
a população como mais um meio
de viabilizar seus crimes contra o povo.
Aqui, até o vírus é um terrorista
a favor do Estado contra a população.
Estamos no começo desse pânico,
com as estimativas mais esdrúxulas
e ainda no início dos acontecimentos
que vêm. Conheço pessoas que moram
em favelas e estão apavoradas,
elas estão entre a necessidade
de ficar em casa, entre o toque
de recolher instaurado pelo
Comando Vermelho,
e a necessidade do trabalho
para o ganha pão diário. Não,
amanhã não será um dia melhor
do que hoje, que não é um dia
melhor do que ontem.
Como também disse Butler,
“É provável que, no próximo ano,
sejamos testemunhas
de um cenário doloroso em que
algumas criaturas humanas
afirmarão seu direito de viver
às expensas de outras, voltando
a inscrever a distinção espúria
entre vidas dolorosas e ingratas,
aqueles que a todo custo
serão protegidos da morte
e essas vidas que se considera
que não vale a pena que sejam
protegidas da enfermidade
e da morte. […] Por que seguimos
opondo-nos a tratar todas as vidas
como se não tivesse o mesmo
valor?”. É a vida, afinal, um direito,
sobretudo, dos economicamente
privilegiados? Não é hora
de pleitear com todas as forças
uma luta contra a desigualdade
das chances de viver?
Nesse mundo de asfixia
e esgotamento, em que, havendo
uma “desigual redistribuição
da vulnerabilidade”, há uma desigual
redistribuição do fôlego, em que a vida
é mais ofegante para uns do que
para outros, a questão do momento,
a questão de sempre, é, de fato,
como também disse Mbembe,
a questão de sempre, mas ainda mais
a questão do nosso momento,
é encontrar imediatamente “uma maneira
de garantir que todo indivíduo tenha
como respirar. Essa deveria ser
a nossa prioridade política” recompondo
“uma Terra habitável” que “poderá
oferecer a todos uma vida respirável”.
Sem um pouco de ar, todos
nós sufocamos, sem bem mais
do que apenas um pouco de ar,
quase todos nós sufocamos,
sem muito ar disponível
para respirarmos, nenhum
de nós conseguiremos viver
da maneira que devemos,
da maneira que podemos viver.

XII

Quem diria que, aqui,
no Brasil, chegaríamos ao dia
em que seria o isolamento,
não a multidão, o confinamento,
não as ruas, a interrupção, não
o movimento, a frenagem,
não a velocidade, o estancamento,
não a continuidade, a reclusão,
não a exposição, a cesura,
não a sequência, a suspensão,
não a segurança, o tranco,
o solavanco, o tropeção, os gestos
para lutarmos pelo direito
de que todo indivíduo tenha,
mesmo sem sair de casa,
como respirar, comer, trabalhar,
estudar, morar, cuidar da saúde
e da doença… Sempre achei,
como algumas vezes disse,
que, no discurso político,
tinha de ser trocado o que
chamam de “disputa de narrativa”
pela emergência de uma outra
lógica, de uma lógica do poético.

XIII

Hoje em dia, Agamben, mais
do que nunca, precisamos respirar
fundo, aprender a respirar
diante do que diariamente quer
nos sufocar. Há muito sabemos
que o pensar é um sopro
na linguagem, que aprender a pensar
é aprender a respirar. Isso nos parece
um exercício cotidiano de aprendizagem
de lentidão, mas também aprendemos
esse outro exercício, o de, no calor
da hora, correr os riscos que entendermos
necessários. Há amigos que dizem
que seus textos recentes são para ser lidos
daqui a anos; sem negar essa possibilidade,
seus textos estão sendo escritos nesse momento,
para esse momento, querendo ser lidos,
se depois, certamente também, e talvez
sobretudo, agora, de modo interventivo,
já que é agora que se trabalha a decisão
do futuro. Nunca vi você publicizando
repetidamente tantos textos breves
em intervalos tão curtos de tempo,
nessa ânsia de quem, desde o começo,
flagrou a importância do que estava
acontecendo, do que viria a acontecer
e a necessidade imediata de uma
resposta possível de seu pensamento
a esse acontecimento que nos assola.
Como você sabe muito melhor
do que a maioria, baseado apenas
nos primeiros números estatísticos
de um governo cuja epidemia chegou
depois, sobretudo, sem ter ido ver
como se deu o comportamento do vírus
em outros países em que ele se disseminara
anteriormente, não se deveria dizer
com muita pressa: “Em face da medida
de emergência frenética, irracional
e totalmente infundada
de uma suposta epidemia”. Em todo caso,
Giorgio, respirando constantemente
com a tranquilidade e a lentidão que poucos
têm, você também disse, com arguta
perspicácia, que, hoje em dia,
em termos mundiais, o discurso
do vírus ocupa o lugar deixado vazio
pelo discurso do terrorismo,
pelo terrorismo esgotado como causa
de medidas emergenciais, fazendo com que
cada cidadão, um possível infestador,
seja tratado como um terrorista potencial.
Para você, Agamben, trata-se, mais uma vez,
de uma falsa lógica, em que a liberdade
deveria ser suprimida para ser
defendida, em que a vida deveria ser
igualmente suspendida para ser
defendida. Sei que você tem falado
muito para a Itália, mas, aqui, no Brasil,
é um pouco diferente: o cidadão não é
um potencial infestador criminalizado
pelo Estado, muito pelo contrário,
aqui, o presidente diz que o cidadão
não é um potencial infestador
justamente para ele poder infestar
um número cada vez maior de pessoas,
ou diz que tem de haver logo
a infestação de 70% da população,
aqui, o presidente sai à rua, aglomera
cidadãos em torno de si, tosse, assoa
o nariz e, imediatamente em seguida,
dá a mão com que assoou o nariz
a uma idosa, a outro homem e a quem
mais estiver por perto. Aqui, precisa-se
de proteção contra um Estado
que desprotege à maioria, violentando-a.
Ou seja, aqui, inusitadamente, fazer
quarentena se tornou um gesto
de desobediência civil, já que, aqui,
o presidente negacionista de extrema
direita se tornou o arauto do direito
constitucional de ir e vir, das liberdades
individuais, da privacidade dos dados
telefônicos que monitorariam as pessoas
impedindo aglomerações para garantir
seu projeto autoritário, autocrático.
Não à toa, somos o segundo país do mundo
em descrença em relação à eficácia
do isolamento social, ou seja, aqui,
com bolsonaristas em portas de hospitais
exigindo o retorno de seus empregados
ao trabalho e às ruas, com bolsonaristas
agredindo profissionais da saúde
que lutam para salvar vidas
sendo aplaudidos pelo mundo todo,
aqui, com as vidas banalizadas,
o mundo, quer dizer, a economia,
dizem, não pode parar, mas,
finalmente, o mundo, ou seja,
a economia, está tendo não
que parar, mas que desacelerar,
o mundo vai ter de desacelerar,
mesmo aqui chegará o momento
de dizer o impossível, o inimaginável,
que o mundo desacelerou, que os tempos
modernos desaceleraram, mesmo que
por pouco tempo. Não é só aqui,
entretanto, que coisas assim ocorrem,
aqui é pior, bem pior, mas, a levar
em conta o que você escreve,
mesmo com, parece-me, um grande
exagero na formulação de uma
“vida puramente biológica”
e na perda de “todas as suas dimensões
[…]”, é no mundo inteiro que
“Os homens se acostumaram
tanto a viver nas condições de crise
e emergência perpétuas
que parecem nem mesmo notar
que suas vidas foram reduzidas
a uma condição puramente biológica
e perderam todas as suas dimensões,
não só as sociais e políticas,
mas até as humanas e afetivas”.
Se o campo de concentração é,
para você, o paradigma de nosso
tempo, não, nós não vivemos
como os muçulmanos, isso é certo,
nem como os que estão detidos
em Guantánamo ou em Abu Ghraib,
nós estamos envolvidos em leis,
julgamentos, lutas, vidas afetivas,
relações amorosas, responsabilidades
íntimas e públicas, conversas, leituras,
escritas, afazeres de casa, trabalhos,
redes de solidariedades, direito ao grito,
esforços de luta política e outras
coisas que escapam ao campo
de uma “vida meramente biológica”.
Como já disseram, a própria decisão
em tentar não se contaminar
já escapa ao “meramente biológico”.
Estamos muito mais para sobreviventes
que teimam diariamente em sobreviver
do que para muçulmanos, isso é certo.
Retrucando ao seu primeiro texto,
Nancy disse algo que também está
distante de nós, pois aqui o governo
está longe de ser “nada mais que tristes
executores, e atacá-los parece mais
uma manobra de distração
que uma reflexão política”. Aqui,
a política do governo é outra,
se é que há política, e, dentro
que estamos de outras “manobras
de distração”, nem conseguimos atacar
o governo como deveríamos. Aqui,
é antes o governo que nos ataca
incessantemente, aqui, não há
qualquer medida emergencial
de proteção, aqui, Giorgio, o Estado
gastou 5 milhões em uma propaganda
chamada “O Brasil não pode parar”
convencendo as pessoas a trabalharem,
a irem às ruas, a frequentarem templos
e rezarem em igrejas lotadas, a pegarem
metrôs, ônibus, a irem aos bares
e restaurantes, a levarem uma vida
chamada normal, como se nada
estivesse acontecendo. Aqui,
o presidente e muitos pastores
(fortemente críticos da ciência,
mas não do capitalismo,
ferrenhos defensores da religião,
com direito ao terraplanismo,
ao criacionismo e a coisas afins),
levando multidões às igrejas,
dizem que a cura é ir ao culto,
que a cura do vírus viria do culto
nas igrejas, e alguns deles, agora
contaminados, ao invés de irem
para suas igrejas se curar,
vão para os melhores hospitais
da cidade tomando o lugar
de muita gente que, jamais achando
que a igreja seria o lugar de cura,
precisaria de tratamento. Aqui,
quando perguntado sobre o número
de mortos por causa do covid-19,
o presidente respondeu: “Não
sou coveiro”. Apesar de toda
aquela convocação à normalidade,
é preciso lembrar e relembrar
um grafiti em Hong Kong dizendo
“Não podemos voltar ao normal,
porque o normal era exatamente
o problema”. Aqui, Giorgio,
tentando encontrar uma maneira
de estabelecer seja um golpe
militar seja uma revolução
totalitária que permita a eliminação
dos adversários políticos e de quem
quer que se coloque à sua frente,
o Estado é o maior terrorista
a impor sua lógica de uma suposta
e falsa liberdade de circulação
para que a suposta liberdade seja
defendida visando apenas que a vida
do cidadão comum seja absoluta
e imediatamente suprimida
para salvar a economia, digo, salvar
empresários, os pequenos, médios
e os milionários, para quem
os lucros valem muito mais do que a vida
dos trabalhadores. A partir de mais
esse seu texto que acabo de ler, escrito
há pouquíssimos dias, intitulado
“Uma pergunta”, não tenho como não
me esquivar de, em busca de compreensão,
fazer também “uma pergunta” a você.
Parece-me evidente que você visa
outra posição da que participa
do que você chama de um colapso
ético e político ou do ultrapassamento
da soleira entre humanidade e barbárie
diante de uma doença, diante da pandemia
que vivemos, tratando-se, portanto,
da busca de uma outra ética
e de uma outra política, ainda que
aporéticas, ainda que, seja qual for
o salto dado, seja qual for o abismo
enfrentado, ele arraste a aporia
consigo. Quando você fala
que aceitamos algumas medidas,
como a de que não apenas seres humanos
queridos nossos morram sozinhos
mas também que cadáveres
sejam queimados sem quaisquer funerais,
como a de que nossa liberdade de movimento
seja limitada como nunca antes na história,
como a de que suspendamos, na prática,
nossas relações de amizade e amor
reiteradamente apenas e “unicamente
em nome de um risco
que não era possível de precisar”,
não tenho como não pensar que o risco
é explícito, evidente, bastando ver
o número progressivo, assombroso,
de contaminações e mortos pelo mundo
afora. Imagino que você sabe que,
nos Estados Unidos, em que o presidente
a princípio negava o perigo da pandemia,
e que agora, depois da cloroquina, sugere
injeção de desinfetante como cura,
já são praticamente 75.000 mortos,
quase ¼ dos mortos em todo mundo.
Nosso presidente, uma marionete de Trump,
segue-o em tudo, inclusive no negacionismo
inicial, ainda que não tenha voltado
nem tardiamente atrás. Com 10.000 mortos
e 150.000 contaminados (fora os subnotificados,
que, segundo pesquisadores, talvez sejam
10 ou 12 vezes mais), e encaminhando-nos
ainda para o pico por vir, com mais mortos
proporcionais do que a Itália e os Estados Unidos,
tentamos nos preparar para o que vem,
pois, para o governo, qualquer número
de mortos será naturalizado
enquanto a economia tiver respiradores
artificiais a mantê-la o mais viva possível,
afinal, como você nos disse, o capitalismo
é a religião do nosso tempo, a mais
implacável com seu culto ininterrupto
aquela que não pode parar nem quando,
voluntária ou involuntariamente, paramos.
Se, a princípio, entrando cedo no debate,
você falava, como já citado, na “medida
de emergência frenética, irracional
e totalmente infundada de uma suposta
epidemia”, você retorna agora,
e ainda, repetidamente, a esse
“unicamente em nome de um risco
que não era possível de precisar”,
insistindo nisso ainda hoje, nesse
passado que, dito desde o presente,
estende-se a ele. Para além do diagnóstico
preciso que oferece do que vem,
fico pensando em que alternativas
seu pensamento nesses textos traz
consigo. Ainda que um filósofo
não proponha uma ação a partir
de sua reflexão, esta aponta
para uma outra ética, para uma outra
política, decorrentes de um lançar-se
arriscado da vida de quem não se exime
da responsabilidade que suas posições
trazem. Por exemplo: você aceitaria
uma ética e uma política alternativas
à do ultrapassamento do limite
entre a humanidade e a barbárie
que levasse, hoje, as pessoas a uma proximidade
contínua, até o fim, com os contaminados,
realizando, inclusive, os rituais fúnebres
nos modos habituais? Você aceitaria,
hoje, uma não restrição à nossa liberdade
de movimento, ou seja, o fim do isolamento
social? Salvo situações específicas, você
aceitaria que mantivéssemos os encontros
físicos e presenciais com nossos entes
queridos exatamente do mesmo modo
que antes? Se nos responsabilizamos
por tais restrições, você chama atenção
para responsabilidades ainda maiores,
como a da igreja que, sob um papa
chamado Francisco, o santo que abraçava
leprosos, esqueceu de visitar os enfermos,
esqueceu que os mártires ensinam
que é necessário estar disposto
a sacrificar a vida em vez da fé.
Sob sua posição de que o papa
estaria sacrificando sua fé
quando deveria estar sacrificando
sua vida, fica, para mim, outra dúvida,
para além dessa sua valorização
ainda hoje do sacrifício: encontrando-se
com os doentes atuais, poderia o papa
sacrificar não apenas a sua vida, mas,
contaminando-se, transformando-se
ele próprio em alguém que contagiaria
inúmeras outras pessoas propagando
ele mesmo a doença, poderia ele, então,
sacrificar, não tanto a sua vida, mas
as vidas de outras pessoas, de multidões
de pessoas? “Uma pergunta” que então
lhe faço, em busca de deixar sua posição
mais clara para mim, Giorgio,
é se, em nome de uma nova medida
dos princípios éticos e políticos,
que não seja exatamente a abdicação
deles, em nome do limite além do qual
não estaríamos dispostos a renunciar,
você aceitaria que centenas de milhares
de vidas deveriam ser contaminadas,
mortas, tornadas matáveis por decisões
distintas das que majoritariamente vêm
sendo tomadas? Lembro que, aqui
no Brasil, os que já estão mais morrendo
são os periféricos, os pobres, os negros,
os indígenas, os matáveis de sempre.
Eu disse antes, entretanto, repito:
as áreas pobres do Rio de Janeiro
e de São Paulo têm uma taxa
de letalidade 10 vezes maior
do que as outras, a chance de negros
morrerem é 62% superior à dos brancos,
cujo rendimento médio mensal
entre os que trabalham é 73,9% superior
à de negros. Com toda a pertinência
de seu diagnóstico e de sua preocupação
com o depois, com a chamada fase 2,
com o agravamento que virá do estado
de exceção ou de emergência
como princípio organizacional da sociedade,
não tenho como não me perguntar o que,
para além da crítica a ações tomadas, você
encamparia nesse momento como atitudes
a partir de uma ética e de uma política
não colapsadas, que não ultrapassassem
os limites entre humanidade e barbárie.
Como eu estava dizendo, aqui entre nós,
o terrorismo biológico encontra
total apoio na gestão do terrorismo
e no terrorismo de gestão
a gerir a cada vez a vida
biológica. Aqui, como Esposito,
disse, “o estabelecimento da emergência,
há muito tempo aplicada
mesmo em casos em que não há necessidade,
empurra a política para procedimentos
excepcionais que podem, a longo prazo,
minar o equilíbrio do poder em favor
do executivo”, aqui, um risco
para a democracia não é para nós
nada exagerado, pois sempre vivemos
no risco disso que, aqui, nunca conseguiu
se consolidar e a cada momento
é impossibilitado. Aqui, não é possível
ou, ao menos, sempre beirou o impossível
“tentar separar os planos, distinguindo
os processos de longo prazo
das notícias recentes”, aqui, as notícias
recentes e as respostas governamentais
a elas apenas confirmam a maior parte
dos processos de longo prazo. Enquanto
Esposito afirma, que o que acontece
hoje aí “tem mais o caráter de uma
decomposição dos poderes públicos
que de um dramático aperto
totalitário”, aqui, onde o poder público
foi o mais das vezes decomposto,
o que se dá é exatamente, mais uma vez,
um “dramático aperto totalitário”.
Como você certamente concorda, Giorgio,
não, amanhã não será um dia melhor
do que hoje, que não é um dia
melhor do que ontem.

XIV

Sou feito de nervos, carne, assombros
e muito do que olho me intoxica.
Nunca foi tão difícil olhar à minha
volta, mas, muito mais difícil é ver
o que olho. Hospitais a cada dia
mais lotados, mortes, pânico nos olhos
das pessoas, ameaças reais de mortes
por contágio familiar em muitos lares,
cemitérios cavando covas sem parar,
preços disparados do que se tornou
o mais necessário, decretos autorizando
demissões em massa, decretos autorizando
reduções da jornada de trabalho, decretos
autorizando cortes salariais de 30 a 50%
do funcionalismo público, decretos
para reduzir o isolamento, decretos
obrigando as pessoas a trabalharem,
decretos incluindo atividades religiosas
e casas lotéricas como essenciais,
decretos para dia do jejum, decretos
para a morte em nome da economia…
Decretos… Governa-se por decretos
e por fake news que saem diretamente
do planalto, dos filhos e dos aliados
do presidente em busca da salvação
de seu governo a qualquer preço,
mesmo ao preço de dezenas de milhares
de vidas, pois se trata de um governo,
como foi dito desde o começo,
literalmente altericida, populicida,
necrofílico, de guerra contra
o próprio povo, de destruição
irrestrita de todos (quase todos),
do Estado e de quase tudo o mais.
Diante das notícias falsas, dos falsos
sinais, das placas enganosas
por todos os lados a revestirem
direções já totalmente imprecisas,
difícil, mesmo impossível,
acertar qualquer localização,
qualquer rota, qualquer
destino. É preciso aprender
que não há mais localização,
nenhuma rota, nenhum destino
aonde se possa ir ou chegar.
Não há mais nenhuma revolução
à vista, nenhuma utopia e nem sei
se, por onde perambulo enceguecido,
existe uma saída esquecida ou a ser
criada. Por mais que eu tente,
minha voz não coincide
com o lugar em que estou,
levando-me a falar
da não coincidência
entre a voz, que desconheço,
e o lugar, que igualmente
desconheço. Nesse cotidiano
sem rumo em que vacilo, nada
que valha a pena ser
comunicado, mas, enquanto
não me canso, enquanto ainda
estou aqui, digo apenas
algumas coisas para dar voz
à perdição, dizendo que,
apesar de tudo,
como quem não cessa
de persegui-lo, sigo
no impasse de buscar
o real, inalcançável.
Sustentar esse impasse
me parece o mais
importante, o decisivo,
o de que não se pode
abrir mão. Talvez seja
este o meu erro. Nessa tensão
complexa entre os arranjos
das palavras e as coisas,
entre eles e o que se passa
por aí, nesse paradoxo
inultrapassável
porém irrecusável,
a linguagem muitas vezes
me afeta de maneira irreversível,
levando-me aonde não iria
sem ela. Se, às vezes,
a palavra resistência
me parece surrada, usada
para dizer aquilo
que não está à altura
do que nomeia, sigo
nessa insistência. Escrevo
apenas o que está perdido,
deixando o testemunho
desta quase cegueira.
Mesmo se houvesse
um guia e se o escolhido
fosse ninguém menos
do que o mais experiente
dos guias do passado
(no presente, como se sabe,
não há mais guias), eu
– nem ele, o guia –
não acertaria o caminho,
que nem existe mais.

XV

O presidente continua falando, mas, com sua palavra autoritária que certamente performa, apesar de tudo, não governa sozinho. Há um embate de forças que compõem o poder. Quem coordena a junta militar ou o chamado partido militar, em harmonia negociada com o presidente, quem articula a política do governo, é o chefe da Casa Civil que, pela primeira vez em quatro décadas da história do país, é um general, que foi o interventor federal no estado do Rio de Janeiro quando Evaldo dos Santos Rosa e sua família foram fuzilados com 257 tiros pelo exército ao se dirigirem a um chá de bebê. Ele é o mesmo que, invertendo a fórmula de Clausewitz, afirmou que a política é a continuação da guerra por outros os meios, indicando exatamente o que ocorre entre nós, que a política vigente (com o uso das múltiplas mídias, da financeirização, do privativismo, do judiciário, do policialesco, do alto e baixo militarismo – nem sempre juntos –, das milícias…) é uma guerra contra a população. Com ele, mostrando que vivemos um estado de guerra em que os civis estão sob controle, o Palácio fecha seu círculo militar. Como o então candidato prometeu em sua campanha, voltamos quarenta anos. Os militares presidem o país. O presidente, que, mostrando seu desprezo pelas instituições, nem a partido político é filiado, continua falando pelas redes e mídias sociais para os neofascistas que o apoiam, instigando-os a fecharem o Congresso, o Supremo, a colocarem um fim no isolamento, a bloquearem os acessos a hospitais… Com as instituições há muito permitindo chegar aonde chegamos, estamos entre o exército no poder, os necroliberais, o mercado, os empresários da FIESP, o judiciário, a extrema direita, as milícias, as polícias militares, os neopentecostais a manipularem a verdade como absoluta em nome de dinheiro e de poder, muitos desses grupos seguidamente insuflados pelo presidente que não preside sozinho, mas atua violentamente. Não havendo unidade entre esses grupos, a disputa é feroz e diária. Com o embate de forças que levou à queda do ministro da saúde para a posse de um outro que se alinhasse – leia-se, se submetesse – completamente ao presidente negacionista, com o presidente nos dias seguintes atiçando de cima da caçamba de uma caminhonete no Dia do Exército em frente ao Quartel General da guarda em Brasília um grupo de seus adeptos fanáticos a pleitearem um golpe militar, o fechamento do Supremo, do Congresso e um novo AI-5, tentando com isso encurralar também o exército, o vice-presidente acabou por dizer: “Está tudo sob controle. Só não sabemos de quem”. Uma coisa é certa: não do nosso.

XVI

Amanhã não será um dia melhor
do que hoje, que não é um dia
melhor do que ontem.

XVII

Como quem busca um mínimo
vestígio dos mortos, uma linha
que nos possibilite algum modo
de convívio, ainda que mínimo
e desigual, um horizonte qualquer
de memória, uma contemporaneidade,
um caminho que nos leve até eles
ou os traga até nós, de todo modo,
que não os permita ir completamente
embora, que não nos permita ficar
para sempre sem suas histórias,
sem seus afetos, sem o que
pensaram, sem o que sonharam,
sem o em nome de que e contra
o que lutaram, sem seus testemunhos,
procuro, sem as encontrar, listas
com seus nomes, levando-me a crer
que eles são a cada vez anonimizados,
desprezados, relegados imediatamente
ao esquecimento. Há milhares de nomes
que deveriam estar disponíveis
em algum lugar para sabermos
quem são os mortos diretos e indiretos
pelo vírus e, sobretudo, pelo presidente
que se aproveita do vírus para matar,
mas, além de não sabermos seus nomes,
não sabemos, tampouco, e menos ainda,
os nomes dos subnotificados, daqueles
que passam por fora dos dados
oficiais, daqueles que o governo
não testa e que, mesmo se os testasse,
esconderia os resultados de todos nós.
Enquanto pesquisadores dizem que, aqui,
se sabe apenas algo em torno de 8%
dos casos de contágio e de morte
pelo covid-19, uma pesquisa
nos cartórios mostra que o número
de mortos pelo vírus é 154%
dos anunciados. Com sua política
de extermínio, o governo, que,
atuando e falando como quer
sem que ninguém o limite,
controla os dispositivos
sobre os vivos e os mortos, não fabrica
apenas os modos de matar, mas, agindo
segundo uma lógica da desaparição,
faz de tudo para apagar
a memória dos que morrem,
seus nomes, seus sobrenomes,
suas histórias, algo de suas vidas,
seus vestígios… Temos notícias
de pessoas que, como poucas
outras na história, nem podem ser
veladas por quem mais as ama,
nenhuma irmã, nenhum irmão,
nenhum pai, nenhuma mãe,
nenhum filho, nenhuma filha,
nenhum amigo, nenhuma amiga,
nenhum ou nenhuma amante
pode derramar suas últimas lágrimas
diante dos corpos nem as pode enterrar,
delas, dessas pessoas sem rituais
fúnebres, mortas em leitos de hospitais,
em quartos domésticos, pelo meio
das ruas, quase nada sabemos
senão, quando muito, suas inclusões
nas estatísticas, e, quanto à maioria,
nem nas estatísticas elas cabem.
Chega-nos a notícia de que um tio
da minha companheira morreu,
de que o pai de uma amiga morreu
e, assim por diante, as notícias
vão chegando, de pessoas que
seguem para a vala do esquecimento
público, para a vala da ignorância
política, para a perda dos laços
sociais que há muito, induzidos,
vamos vivendo. O tio falecido
da minha companheira, que morava
em Duque de Caxias, cujo índice
de mortalidade já é o dobro do da Itália,
e cujos cadáveres se acumulam no necrotério
do hospital pois os parentes não têm
condições de arcar com os sepultamentos,
chamava-se Barbosa, nem sabemos
exatamente o nome completo dele,
ele se chamava alguma coisa Barbosa,
José Barbosa Salles, descubro, agora,
o pai da minha amiga se chamava
Seu Tuninho, ou Antônio Luiz Pereira,
descubro igualmente agora,
eles foram as duas primeiras pessoas
próximas, bem próximas, que faleceram.
Seja nos navios negreiros, no genocídio
colonial de escravos negros e indígenas,
nos desaparecidos da ditadura
militar, nos assassinados pela polícia,
pela milícia, pelo narcotráfico, em todos
que acabam nas valas comuns,
no cemitério de escravos,
no cemitério de indigentes,
no cemitério de subversivos,
no cemitério de homicídios,
essas vidas perdidas, largadas
e não veladas foram sempre vidas
não contabilizadas. Do cozimento
em vida dos escravos aos micro-ondas
do tráfico passando pelos fornos
incineradores de corpos nas usinas
de cana-de-açúcar usadas pela ditadura,
com essas e todas as outras técnicas
conhecidas de desaparecimento
que nossa história cruelmente
foi capaz de produzir, poderia dizer
que, para nós, digo, para mim
e para você, tanto os desaparecidos
quanto os relegados – em vida e em morte –
ao esquecimento são aqueles
que diariamente nos fazem falta.

XVIII

[Se fosse uma tragédia grega, Tirésias entraria em cena e, como em Antígona, diria para Creonte: “Percebes que te abeiras de um abismo?”. Isso não é, entretanto, uma tragédia grega].

XIX

[Isto não é Tebas, isto é Brasil e, por isso, ao invés de Tirésias, eu, que não sou nenhum Sófocles, trago um emigrante haitiano anônimo, que, no dia 16 de março, disse para o presidente enquanto ele, vindo de uma manifestação pública a seu favor em plena pandemia, chegava à porta do Palácio, à porta da residência oficial em Brasília, com seus apoiadores gritando-lhe “Que Deus te abençoe” e “Mi-to, Mi-to”. Séria, pausada e convictamente, disse-lhe, então, o emigrante haitiano: “Eu venho de Haiti. Você sabe muito bem, eu escolhi o Brasil como país. Você está entendendo, eu estou falando brasileiro. Bolsonaro, acabou. Você está recebendo mensagem no seu celular. Todo mundo, todo brasileiro está recebendo mensagem no celular. Você está espalhando vírus e vai matar brasileiros. Você não é presidente mais. Precisa desistir. Bolsonaro, você não é presidente mais”.].

XX

O ministro da Justiça é pressionado a pedir exoneração e o faz dizendo em coletiva para a imprensa que o presidente, além de falsificar um documento, quis intervir no comando da Polícia Federal, instrumentalizando-a, para proteger a si e a seus filhos em processos em andamento no STF. Vazando – ele mesmo – áudios para os jornais de conversas com o presidente e com uma deputada, o ex-juiz de primeira instância que, manipulando completamente a Lava-Jato, foi uma das principais forças a inescrupulosamente destituir uma presidenta, prender o ex-presidente mais popular do país impedindo-o de se candidatar à presidência (quando todas as pesquisas apontavam sua vitória) e, finalmente, assumir ele mesmo o cargo de ministro da Justiça do candidato vencedor (ou seja, do candidato que ele fez com que ganhasse as eleições), realiza, com o gesto da exoneração, – isso é certo –, a tentativa de o golpe voltar às mãos de quem o deu, de consertar o desvio do golpe. Enquanto isso, o presidente fica, paradoxalmente, cada vez mais isolado e autocrático, cada vez mais solitário e poderoso.
Dias depois, presidente se reúne com a cúpula das Forças Armadas, vai, em seguida, a mais uma manifestação estimulada por ele contra o Congresso, o STF e o ex-amado ministro da Justiça (que prestara um depoimento à Polícia Federal incriminando o presidente), por um golpe militar, por um novo AI-5 e pelo fim da quarentena, proferindo publicamente, mais uma vez, como seu hábito recente dos domingos, duras palavras antidemocráticas, ameaçando uma ruptura institucional.

XXI

Não temos podido fazer
quase nada, senão
o que fazemos. Somos
da geração que foi
às ruas pelas diretas já,
somos da geração
que elegeu o operário,
líder sindical, como
presidente, somos
da geração que colocou
a primeira presidenta
no poder, ou seja,
a primeira mulher
na presidência
da República. Somos
da geração que acabou
com a dívida externa,
com a mortalidade
infantil, com a fome
e a sede no Nordeste,
com a miséria mais
miserável pelo país
afora, que tirou o Brasil
do mapa da fome
da ONU, os maiores
fantasmas nacionais
de minha infância
e adolescência. Somos
da geração que ameaçou
a hegemonia do dólar
com o BRICS, que
criou tecnologia
para extração de petróleo
destinando seu lucro
à educação e à saúde,
que colocou negros,
indígenas e pobres
nas universidades públicas,
que finalmente inseriu
a respeitabilidade
do país no mundo
fazendo-o ser ouvido
em decisões internacionais.
Mas não conseguimos
sustentar o sopro
do vendaval
que ajudamos a ventar,
não conseguimos fazer
a história seguir
o curso que muitos
antes de nós
lutaram para provocar.
Fomos interrompidos,
obrigados a recuar:
a peste reina no país,
não encontramos
forças para derrubar
o gabinete do ódio,
o escritório do crime,
o governo miliciano,
a presidência perversa
nem, sobretudo, as forças
que propiciaram
sua chegada até ali.
Muito é terrível e,
entre tudo o que é
terrível, o mais terrível
é o ser humano, que,
aterroriza até o terror,
barbariza até a barbárie.
O som de nossas vozes
deveria trazer um sopro
de pensamento a proteger
pessoas, animais, rios,
cidades, florestas, países,
oceanos, continentes, céus,
mundos, submundos,
sobremundos, cosmos…
Hoje, entretanto, a vilania
governa com seu raquitismo
de pensamento arrojando
acelerada e horrivelmente
todos à morte, mostrando
que nos iludimos na vida
quando nos esquecemos
da ameaça dos revezes
que nos mostram todos
os impasses dos passos,
todas as não passagens
por onde teríamos de
passar, mas empacamos
atônitos, assombrados,
com a vida parecendo
engano, com a vida
perecendo, só sombra
da morte, nada mais.
As pessoas morrem
aos milhares, às dezenas
de milhares e não vemos
como isso vai acabar.
Sabemos há muito
que nada entra de grande
na vida mortal
sem sofrimento,
mas sabemos também
da exaustão do sofrimento
sem (nem digo algo
de grande, mas sem)
qualquer alternativa a ele.
Apesar de sempre termos
tido nas famílias um tio
ou uma tia ou um primo
ou uma prima ou um pai
ou uma mãe que desejasse
a volta da ditadura ou votasse
consecutivamente
nos candidatos
forjados pela grande mídia
como salvadores, como
caçadores de marajás,
como algozes de adversários
políticos tratados, sem
provas nem escrúpulos,
como corruptos,
apesar de sabermos
do cruel conservadorismo
entranhado nas pessoas,
a verdade é que nem
de longe podíamos imaginar
essa reviravolta, esse retrocesso
sem fim, o sem fundo
do poço que vivemos.
Hoje, a Secretaria Especial
de Comunicação Social
do governo utilizou,
mais uma vez, em um vídeo,
um slogan nazista:
“Só o trabalho, a união
e a verdade libertarão
o Brasil”. “Arbeit macht
frei”, a frase colocada
na entrada de Auschwitz
e de outros campos
de concentração,
utilizada, aliás, já
no discurso de posse
de Temer, o vice-presidente
golpista, ao assumir
a presidência, quando disse
“Não fale em crise,
trabalhe”, transformando
em seguida a frase
em propaganda nacional.
Amanhã não será
um dia melhor
do que hoje
que não é um dia
melhor do que ontem,
mas estamos aqui,
sem descanso,
diariamente falando,
diariamente gritando,
ainda que nossas falas
e mesmo nossos gritos
não assustem mais
ninguém. Não temos
podido fazer quase nada,
senão o pouco que
ainda conseguimos
fazer. Encho os pulmões
e retiro ritmos
urbanos do que quer
que me sirva para tentar
dizer o nosso tempo
eloquente de escassez
e excessos, de angústias
e desejos, nosso tempo
simultaneamente
legível e ininteligível.
Estamos tristes, poeta,
o mar da história é,
de fato, agitado,
atravessamos ameaças
e guerras. Estamos
tristes, poeta, e impotentes,
e frustrados, o pior
não é mais um sinal
do que poderia vir
a acontecer, ele se
encontra no meio
de nós, sem que vejamos
a possibilidade iminente
de seu desmoronamento.
Nosso país está cheio
de dores. Não busquemos
autocríticas no momento
indevidas nem responsabilidades
que no momento
não nos caibam (como se
pudéssemos ter evitado
tudo isso!). Ao longo
desses anos, eles se utilizaram
de todo poder, desmesurado,
de que são capazes. Sigamos
lutando como nos for
possível, sigamos lutando
com nossas palavras,
com nossos afetos,
com nossos corpos,
mesmo na não audição
de nossos gritos.
Sigamos lutando
para a poesia
não desfalecer diante
do que estamos vivendo,
para ela viver ainda
mais, para ela dar
mais vida, para ela tocar
os nervos e o coração
de modo a sustentar
nossa feroz discordância,
nossa revolta convulsiva-
mente escrita, para ela
testemunhar algo que,
tocando o que poderia
ser chamado de verdade,
com seu documentário,
com seus rabiscos
de diários, cartas,
estudos, anotações,
matérias, improvisos,
mesmo em seu atropelo
e com inúmeras lacunas,
escape às notícias falsas
e às vozes dos poderosos.
Que se tenha aqui um registro
para que se possa, um dia,
quem sabe, pelos sintomas
narrados, investigar a doença
maior do nosso tempo,
ganhando antídotos sociais,
vacinas políticas, curas
históricas de modo que ela,
em hipótese alguma, retorne.
Um país que elegeu
esse presidente é de todo modo
um país doente, um país
que produziu a mais letal
das doenças terminais.
Ao menos por uma tarde,
entretanto, alegremo-nos
com o fogo amigo deles.
Talvez não seja tão pouco
assim; talvez, nessa guerra
entre os diversos agentes
dos múltiplos poderes,
alguma brecha acabe
por se abrir, por onde
possa se dar uma disjunção
do tempo, uma fratura
na continuidade dos fatos,
um contrapelo da história,
por onde consigamos,
mais uma vez, e de novo,
romper aquilo que,
neste país imenso, desde
sempre trabalha, com todo
poder, para se impor, mas
tenhamos a certeza
de que amanhã não será
um dia melhor do que hoje,
que não é um dia
melhor do que ontem.

Rio de janeiro –
Vale do Socavão,

22 de outubro de 2018
(semana imediatamente anterior ao segundo turno das eleições)
a 11 de maio de 2020

Deixe o seu comentário

Dezembro

TV Cult