Para dentro das janelas

Edição do mês
Para dentro das janelas
Humberto Werneck, autor de Pequenos fantasmas (Luiza Sigulem/Divulgação)
  Há coisas estranhas que acontecem sem que saibamos, enquanto acontecem, que são estranhas – por exemplo, ao passar por uma livraria em Lisboa, semanas antes de escrever este texto, e procurar por um livro de Marguerite Duras, saí com os contos completos de Murilo Rubião. Há em Rubião um tom de caso contado costurado de forma tão sedutora que ninguém ousaria querer saber se o narrado aconteceu ou não. Ainda que os elementos do sobrenatural e do absurdo façam com que essa busca pela verificação dos fatos não seja nem mesmo considerada, insisto em que uma das grandes inutilidades para a literatura é a obsessão em encontrar verdades como se fossem absolutas. Não conheço nada mais relativo que uma verdade, especialmente a que vem dos escritores. A fluência no texto de Rubião me faz pensar em crônicas, o que me leva imediatamente a Minas e a Humberto Werneck. A oralidade e a informalidade do gênero, mas também o rigor da estrutura que desenrola o texto como se os cronistas passassem uma informação privilegiada aos seus leitores, fazem da crônica um gênero enganador – afinal, é difícil escrever fácil. Há em Minas, comprovadamente, uma tradição no contar dessa forma de verdades floreadas. Há o próprio Rubião, assim como Drummond, Fernando Sabino, Rubem Alves, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Adélia Prado; e o autor de Pequenos fantasmas, Humberto Werneck, fruto dessa dificuldade maquiada de simplicidade que é a escrita de crônicas boas. Pequenos fantasmas não é, mas quase poderia ser, um livro de crônicas: diante

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