Ideologia do medo

Ideologia do medo
Olavo de Carvalho: suas ideias estão para a filosofia como sua astrologia para a astrofísica (Arte Revista CULT/Reprodução YouTube)

 

Há pouca verdade na narrativa filosófica de Olavo de Carvalho. Seus textos, principalmente aqueles dedicados à filosofia, trazem a marca da superficial erudição do autodidata. Pouco importam, entretanto, as simplificações e os erros a respeito dos autores criticados. O público-alvo não é formado por filósofos especialistas e provavelmente sequer conhece os autores execrados. Para seus leitores, mais importante do que o texto criticado é a própria crítica, na qual podem encontrar uma explicação para seus medos. E se essa crítica vier embalada com sinais de erudição, mais sedutora ela será.

A narrativa apressada, na qual personagens da cultura filosófica são empilhados e espancados para que confessem seus pecados, constitui um dispositivo eficaz de legitimação intelectual. Contrapor a esse pensamento uma filosofia profissional, retificar o argumento, demonstrar as falhas interpretativas ou corrigir os erros factuais têm pouco valor. Não é isso o que trará ou retirará definitivamente dignidade a seu discurso. Ele tem uma dignidade própria. O valor desse discurso está em sua eficácia, em sua  capacidade de traduzir as angústias de seu público em uma narrativa eficaz.

Carvalho afirma-se orgulhoso artífice de um trabalho prometeico, original, nunca antes levado a cabo por nenhum brasileiro, cuja missão é, simplesmente, revelar a ideologia da maldade existente em um mundo grande e terrível. Sua narrativa tem como pano de fundo o declínio da civilização ocidental e dos valores cristãos a ela associados. No lançamento de O imbecil coletivo (1996), o último e mais vendido livro de sua conhecida trilogia, Carvalho expôs de modo dramático o conflito entre as figuras bíblicas do Behemoth, representação das necessidades naturais e das forças obedientes a Deus, e do Leviatã, encarnação  da infranatureza diabólica e da rebelião.

É nesse conflito entre as forças do bem e do mal que está a síntese de seu pensamento tradicionalista. Só Deus poderia vencer esse conflito, subjugando o Leviatã. Quando a humanidade recusa o salvador, essa luta culmina inevitavelmente em um confronto destrutivo. Guerras, revoluções e catástrofes acossariam a humanidade trazendo consigo a aniquilação e o medo. Uma ameaça desse porte à civilização ocidental necessita de um sacerdote supremo. Carvalho encontrou em Antonio Gramsci a encarnação desse maligno hierofante. É no início de tudo que ele se encontra, já em A nova era e a revolução cultural (1994), primeira obra daquela trilogia.

Nosso autor conhece muito pouco sobre a vida e a obra de Gramsci. Comete erros biográficos e amontoa anacronismos, divertindo o leitor informado. Refere-se a uma suposta “filha” de Gramsci, pai de apenas dois meninos, e escreve repetidas vezes que no Brasil foram publicas suas “obras completas”, o que nunca ocorreu nem aqui nem na Itália. Mas isso pouco importa. Carvalho acredita ter identificado a mente por detrás de uma conspiração cuja tropa de elite é formada por “jornalistas, cineastas, músicos, psicólogos, pedagogos infantis e conselheiros familiares”. Isso basta. Não é preciso sequer que esse exército diabólico conheça Gramsci, ele seguirá suas ideias enfeitiçado, “mesmo sem ter disto a menor consciência”. Os indivíduos são apenas o suporte dessa misteriosa estrutura.

Um conhecimento melhor da vida e da obra daquele malévolo sardo não traria nada de novo, pensa Carvalho. Em O imbecil coletivo, ele explica que inteligir é uma atividade intuitiva: “É captar, num relance, a unidade objetiva de um conjunto de dados, dispondo-os num quadro que é posto imediatamente à disposição de todas as faculdades psíquicas, da vontade, do sentimento, da imaginação, etc.” Intuído o mal, apreendido num relance, não há nada que a leitura possa acrescentar. Mas a intuição de Carvalho é muito particular. Ela é a percepção de um homem aterrorizado pelo declínio de um mundo e de suas tradições. Uma percepção que ele pode compartilhar com o homem comum. A uma suposta ideologia da maldade, Carvalho opõe uma ideologia do medo.

É preciso levar a sério as ideias de Olavo de Carvalho e seu trabalho como intelectual público. Isso não implica atribuir a essas ideias o valor de uma filosofia profissional, um valor que provavelmente o próprio autor não desejaria. As ideias de Olavo de Carvalho estão para a filosofia acadêmica assim como sua astrologia está para a astrofísica. O objetivo desse autor não é expor a verdade dos textos filosóficos e sim apresentar uma narrativa coerente e consistente que revele às pessoas comuns a origem do mal e aponte os responsáveis pelos medos que as afligem. A análise dessa narrativa escapa portanto à filosofia acadêmica. Ainda assim é preciso conhecer sua obra para não repetir seu erro. Os historiadores e sociólogos da cultura terão assim o desafio de se dedicar aos textos de Carvalho com o mesmo afinco e rigor com os quais Theodor Adorno se debruçou sobre a coluna de astrologia do Los Angeles Times para escrever As estrelas descem à Terra. Isso requer paciência e autocontrole.


Alvaro Bianchi é professor livre-docente do Departamento de Ciência Política da Unicamp e autor de O laboratório de Gramsci: filosofia, história e política (Zouk, 2018)

(41) Comentários

  1. Excelente artigo. Ainda que, provavelmente, eu esteja no espectro político oposto do autor, é uma leitura interessante (e um alarme) para esses tempos de indigência intelectual. O ataque à Ciência não é privilégio da Direita, gostaria de destacar; nem sei exatamente se o Sr Olavo de Carvalho é “de direita”. Com uma precisão clínica, o autor do artigo demonstrou que estamos falando mais de uma reencarnação de espíritos medievais, a exemplo do personagem da Montanha Mágica. Um abraço.

  2. Artigo patético. Minimiza a obra escrita e cultural do professor Olavo pela chacota e não pela refutação. No final é a grande esquerda desmascarada querendo provar que não é tão má assim, e mais são seus acusadores. Vida longa ao mestre Olavo, o cara que mudou o Brasil. E sem mimimi, inscrevam-se no COF e na décima aula os honestos intelectualmente já entenderão que realmente #olavotemrazão

  3. Olavo de Carvalho, assim como o autor sofrem do mesmo pecado….. falam muito ( cada um do seu jeito) mas pensam com as ideias de outros. De original não tem nada. Soma dos dois é soma zero. Pretenso pensamento intelectual. Que tristeza!

  4. Antônio Gramsci, marxista leninista, ficou ao lado de Stalin contra Trotsky. Comunista revolucionário. O socialismo possui 150 anos de fracasso. Nunca tal regime prosperou em parte alguma. Só gerou fome, miséria, genocidio, ditaduras bárbaras, corrupção.

  5. Recalque. Erudição é senão um conjunto de conceitos baseados em autodidatas que ao romper com o padrão fizeram e viraram história. Até mesmo Gramsci.

  6. Um gramscista sentiu-se fortemente tocado pelo mestre. Isso é bem hilário e altamente revigorante para seus seguidores.

  7. opor verdade à narrativa coerente é um tanto quanto excêntrico do ponto de vista epistemologico. Mas nao se exige isso de cientista social.

  8. Trata-se de mais um “cavalo” receptor do espectro gramscista inconsolável pelo fato de Olavo de Carvalho sozinho ter quebrado a hegemonia da esquerda no cenário cultural brasileiro. Olavo tem razão !

  9. Marcius, no caso, ele é um cientista político mesmo. Nós, como cientistas, não “seguimos” ninguém nesse sentido. O que você entende por “seguir”?

  10. Medo à direita, medo à esquerda. Sentimento comum da humanidade. A esquerda demoniza o capitalismo, sua coisificação da vida. Só vejo semelhanças medrosas.

  11. Este é mais um arauto da pós-verdade, levando o pseudo conhecimento aos encéfalos desidiosos

  12. Se para o Olavo o mais importante é a própria crítica. Pra vc então nem se fala né, A diferença é que ele é conhecido em todo Brasil , e vc? Nunca nem vi. Querendo se aparecer criticando, fazendo o mesmo. Que paradoxo né?

  13. Se tu achas que os ensinamentos do Professor e filósofo Olavo de Carvalho estão errados . Tente Refuta-los com dados e não apenas com suas impressões.
    Discuta com ele em um embate filosófico

  14. Se o escritor deste artigo tem um embasamento maior do que o Professor Olavo de Carvalho sugiro primeiro refutá-lo com dados ou em um embate filosófico. É muito fácil se esconder atrás de um artigo degradante e deprimente. Mostre que o Olavo está errado e conquiste o meus respeito .
    Só para terminar… #OLAVO TEM RAZÃO

  15. Bem, tenho formação jurídica e sociológica (extensão em sociologia do conhecimento), ambas por uma Universidade Pública. Creio que o Bianchi está equivocado; realiza uma diérese proposital só “comentar” o pensamento do Olavo. Ele não é, certamente, o ” dono da verdade e nem da erística, mas nem por isso seu pensamento deixa de ter um valor significativo, há muito, ausente no Brasil. Conheço pelo menos, um dúzia de colegas do Judiciário, com mestrado e doutorado , cujos não são “olavetes” (seja lá o que isso for), que respeitam e lêem o Olavo; então … .Quanto a Gramsci, uma das melhores monografias de um colega foi ” Gramsci, uma pseudo provocação do pensamento”. Quanto a uma suposta “ideologia do medo” , bem os fatos pretéritos e atuais , com tentativas incrementais de dissolução da cultura Judaico-Cristã, falam por si; ainda que se alegue em petição de princípio é com sofismas, que se trats simplesmente da história. Como se tal “raciocínio” explicasse tudo é desse solução prática e fidedigna para o “roubo do ouro de Santana”. Menos pessoal, menos !

  16. É claro que teria de ser um adorador do Gramsci para falar tanta besteira maquiada de “intelectualidade”.
    Gostaria apenas de ressaltar que a base da filosofia é o pensamento crítico, que te faz pensar e refletir sobre o assunto a ser analisado.
    Com isso você joga essa lógica de Gramsci por água a baixo.
    Outra coisa, conheço o Olavo e seus trabalhos, mas não conheço esse dito “especialista” que escreveu esse artigo.
    Quais foram suas contribuições?
    Onde o Sr estava método esses anos todos enquanto o país era “estuprado” pela esquerda?
    Onde estavam suas críticas e analises?
    Pois é….

  17. Estranho que o Steve Bannon,o Jorge Amado,o Bruno Tolentino,o Ariano Suassuna,o Ives Gandra,o Wolfgang Smith,o Alexander Duguin,entre outros pensadores de primeiríssima linha discordem do professor da Unicamp… Além do governo americano que deu ao Professor Olavo de Carvalho o visto de moradia permanente por sua contribuição inestimável na área da filosofia.

  18. Os argumentos filosóficos do Olavo tem como substância o palavrão , assim disse um articulista da folha de São Paulo. Tudo que procede da esquerda é demonizado.

  19. Este senhor critica Olavo mas não ilha pro proprip umbigo. O fato dele ser admirador e ter farto conhecimento da vida daquele que foi tão nocivo à sociedade quanto o próprio Marx, talvez até mais, decorre só uma qualificação a ele atribuída: comunista. Disfarçado nas sombras da cultura.

  20. Apenas mais um admirador de Antônio Gramsci, tentando menosprezar a obra e as opiniões do Professor Olavo, por detrás de um texto educadamente escrito está claro esta intenção.

  21. Quando vocês irão mudar essa estratégia de difamar o Olavo sem criticar propriamente sua obra? Vocês fazem isso há anos e ele só cresce. Parem de mentiras e meias verdades.

  22. Marcio Lei, não há discurso sem ideologia, mas é possível utilizar metodologias que tornem a análise mais objetiva. Então, concordar ou não com Gramsci não invalida os argumentos apresentados.

  23. “É preciso levar a sério as ideias de Olavo de Carvalho” – é mesmo. porque muita gente que não tem inteligência e discernimento pra ler um gibi do tio patinhas está se sentindo finalmente contemplado com o conteúdo pretensamente filosófico desse charlatão – e assim deve ser tratado – chamado olavo de carvalho (indígno de ter seu nome escrito com maiúsculas)

  24. Caro Álvaro Biachi.
    Olavo de Carvalho é a explicação por onde o senso comum canaliza seus medos e angústias frente a um mundo “difícil de entender”. Reich e Paxton já afirmaram tal questão. Carvalho, portanto, dá sentido e força a uma multidão desorientada. E o pior, extravasa recalques e uma raiva reprimida, que agora encontra, de modo simplório, a quem culpar por sua falta de perspectivas e sofrimento. E lista é grande e variável, pois Carvalho sabe acusar e captar para si a atenção dessa público o qual ora parece ser representante.

  25. Vc tem razão Álvaro,
    se a porcaria é vendida e assistida, precisamos denuncià-lo. Combinando as frentes: luta contra as opressões, contra os preconceitos, contra a miséria brutal neste país, temos q lutar também analisando e desmascarando, mostrando quem ganha com as pregações desse “mestre”. Somente batalhas no dia a dia – onde essas coisas acontecem – incansáveis e combinadas, nos farão sair desse verdadeiro atoleiro material e “cultural” que estamos metidos.

  26. Ótimo texto para juntar-se aos demais que tem contribuído para revelar o “engodo semântico” que é Olavo de Carvalho.

  27. “A superficial erudição do autoditada…” Uma boa frase. Tenho acompanhado os textos mais densos de filosofia bem como os de polêmica política de Olavo há uns 15 anos e o que vejo, ao contrário, é que ele demonstra profundidade e amplitude de erudição que escapa a qualquer “especialista”. O pensamento de Olavo de Carvalho tem uma amplitude inédita entre nossos intelectuais. Quanto mais amplo nas suas pretensões, mas erros factuais nos detalhes (e é nos detalhes que se esmeram os especialistas). O tipo de personalidade intelectual de Carvalho é de uma espécie em extinção, inadequado nas universidades onde se tem de ser especialista neste autor, ou naquele, nessa corrente, ou naquela outra. É o tipo filosófico com pretensões napoleônicas, como Hegel. Mete-se em todos os assuntos, como Aristóteles, que escreveu sobre a física, a metafísica, a política, a religião, a literature. Já vi muita gente do mesmo espectro ideológico de Olavo corrigi-lo nos detalhes. É o tipo de intelectual engajado também, assim aproxima-se de Sartre (inclusive na verborragia). Veja a ousadia de Olavo no Jardim das Aflições que, poucos entenderam, é um longo ensaio sobre o problema da “translatio imperii” (joguem no google) que atravessa séculos. Ou sua “teoria dos quatro discursos de Aristóteles”, ou ainda sua teoria que busca esquematizar três forças agentes na geopolítica atual (o globalismo, o tal esquema russo-chinês, e o nacionalismo conservador, próprio dos paleoconservatives cujo maior expoente na atualidade nos EUA é Steve Bannon).

    Que bom que o texto manda “levar Olavo a sério”. Na verdade, a academia fingia ignorá-lo, tentando anular a influência do Guru da Virgínia pelo silêncio, mas sempre o levou a sério, como uma ameaça ao stablishment cultural brasileiro, inequivocamente esquerdizante ou progressista.

    Por fim, pergunto ao autor: esse medo que identifica na narrativa de Olavo de Carvalho não é uma projeção do próprio medo da intelectualidade marxista, esquerdista, iluminista ou progressista, ou seja lá que nome se queira dar a tudo o que se opõem ao conservadorismo? Não é o autor que está com medo?

    P.S. Favor desconsiderar o comentário anterior.

  28. Meu comentário anterior saiu com muitos erros gramaticais. Um complemento: o que atrai tantos leitores em Olavo de Carvalho não é apenas o alarmismo, mas o poder de uma síntese criativa, além de uma miríade de autores e ideias que não estavam em circulação que causaram muito interesse: Eric Voegelin, Xavier Zubiri, Viktor Frankl, Ludwig von Mises, (figura que ficava ofuscada em nosso liberalismo diante de Hayek e Friedman, mas que ascendeu no panteão dos liberais graças a Olavo, ganhando até um instituto em São Paulo), Roger Scruton, Wolfgang Smith, autores “perenialistas” hoje são estudados por milhares de intelectualoides como esse comentarista. Jamais atrairiam interesse se não fosse Olavo de Carvalho. Para quem só ouvia falar de Foucault, Freud, Marx, escola de Franfurt, Gramisci, Deleuze, Derridá, etc, foi um grande sopro de renovação.

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