O que não se programa: IA, psicanálise e os limites do método científico
Edição do mês
O filósofo alemão Immanuel Kant retratado por Johann Christoph Frisch ( wikimedia commons )
A promessa de autonomia lançada pelo Esclarecimento – de que a humanidade poderia libertar-se das amarras do mito e da tradição pelo uso ousado da razão – sempre carregou consigo uma sombra. Por um lado, o projeto iluminista aspirava a um mundo mais justo e livre; por outro, a razão que deveria emancipar mostrou sua face instrumental, convertendo-se em ferramenta de cálculo e dominação. É nessa encruzilhada, entre promessa e catástrofe, que a inteligência artificial emerge como herdeira e ápice desse processo, levando ao limite a lógica da quantificação e da eficiência.
Ao adentrar o território da psicoterapia, a IA não apenas testa os limites de sua aplicabilidade, como também levanta uma questão: é possível traduzir o sofrimento humano em dados e protocolos? Se abordagens como as terapias cognitivo-comportamentais (TCCs) encontram nos algoritmos um espelho de sua própria metodologia, é na psicanálise que se esboça uma resistência fundamental. A experiência analítica afirma a presença viva e enigmática do corpo do analista como condição para que algo do indizível e do irredutível de cada sujeito possa, enfim, emergir.
Filha dileta do Esclarecimento, a inteligência artificial carrega em seu cerne a mesma promessa que moveu os filósofos do século 18: a de libertar a humanidade das trevas do mito, da superstição e da natureza indômita pelo poder do conhecimento e do método. Para compreender como essa prole tecnológica ameaça substituir psicólogos, prometendo aliviar sofrimentos psíquicos com a frieza precisa de um algo
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