O frágil toque dos mutilados

O frágil toque dos mutilados

Eis a apresentação que escrevi para o lindo livro de Alex Sens, recém lançado pela Editora Autêntica:

Capa do livro

Magnólia trabalha com vinhos e gosta verdadeiramente de bebê-los. Herbert, com quem é casada, trabalha com literatura, tenta escrever um ensaio sobre Virgínia Woolf, e gosta verdadeiramente de sua mulher. Orlando, irmão de Magnólia, viúvo de Sara, depois de ter sido radialista, tenta dedicar-se à pintura. Ele gosta imensamente de cerveja e tem um histórico de alcoolismo, como vários outros personagens dessa trama em que cada um está em contato direto com um tipo de desespero, aquele que, vindo de dentro, ameaça arrebentar quem experimenta a vida apenas porque está, de algum modo, dentro dela. Sair apresenta-se a todo momento como uma possibilidade.

Orlando vive com os filhos adolescentes na casa de praia na qual recebe a visita da irmã e do cunhado. Não se viam há anos e, embora tudo seja desejo de aproximação e reencontro, um véu de beleza, de bons vinhos e comidas saudáveis feitas por Orlando, encobre uma sorte de tensões familiares a todos nós. O mar é, para a ação que aqui se dá, um pano de fundo tão belo quanto trágico. O romance, desenhado na meticulosidade da pena de Alex Sens, constrói-se neste trânsito, sobre aquela espécie de dificuldade consigo que é vivida por cada pessoa quando ser e estar – diante de si mesmo e diante dos outros – não parecem nada simples. Quando a possibilidade de viver junto com os outros está a cada momento posta em xeque.

Podemos dizer que se trata neste “O Frágil Toque dos Mutilados” de um romance sobre uma espécie de desespero contido, aquele desespero que leva as pessoas a ações de heterodestruição e autodestruição bem concretas. A meditação do romance se dá toda em torno dessa aparente simplicidade de um tempo em férias num lugar aprazível em que cada um tenta encontrar um lugar para estar. Para estar junto com os outros, sem perder-se no todo. Para estar sozinho sem precisar sucumbir. E, assim situados, o que cada um espera é que possam, de algum modo, ser o que são. Que uns não aceitem aos outros, que uns possam ser mais tolerantes do que outros, transparece como uma das ideias estruturadoras do romance, arca onde segredos e silêncios são cuidadosamente guardados.

O cerne, contudo, da história aqui perfeitamente narrada, é ocupado pela personagem Magnólia, mulher tão tensa quanto intensa, tão louca quanto ciente de sua loucura. Aquilo que no passado era o mero temperamento é, neste O Frágil Toque dos Mutilados, diagnóstico médico. O que era a estética da existência torna-se um erro ao qual a personagem é condenada. Mas ela mesma sabe que não se trata de transtorno algum, assim como Orlando sabe que, no seu próprio caso, não se trata exatamente de alcoolismo. Assim como, do mesmo modo, a morte de Sara não foi exatamente uma morte. Antes o que está em cena é o modo de ser próprio daqueles que, por todos os motivos do mundo, não cabem em si.

É esse não caber em si,  esse estar deslocado em um mundo mais do que regrado, um mundo em que o ato de viver está mutilado, o que funda esse lindo, simples e complexo, assim como melancólico, e certamente, ao mesmo tempo, luminoso, livro de Alex Sens.

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Setembro

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