O casaco de Marx

O casaco de Marx

No meio de outras leituras encontrei “O Casaco de Marx” de Peter Stallybrass (muito bem traduzido por Tomaz Tadeu para a editora Autêntica, 2012). O livro é pequeno e fácil de ler, mas tão emocionante em alguns momentos que até fica difícil de ler.

Um grande pensador é aquele que modifica nosso modo de pensar. Essa é a medida: se ele muda o meu modo de pensar, então vale a pena ler sua obra. Lembro de um texto de Marx num dos raros momentos realmente bons na minha velha faculdade de filosofia, em que um professor cujo nome não consigo lembrar de modo algum, pois não ficou por muito tempo entre nós, nos passou os Grundrisse. Pensei, está aí um pensador para a nossa época. Dois ou três anos atrás, eu andava na rua com a minha amiga Mônica Waldvogel – que vive estudando Deleuze com o Peter Pál Pelbart – quando ela me disse que estava desconfiada de que Deleuze não seria o pensador para nossa época. Não sei, pois li pouco de Deleuze, mas lembro de ter respondido que Marx continua sendo um pensador para nossa época. Não esqueci o olhar de estranhamento da minha amiga. Continuo, como leitora, acreditando que Marx foi pouco lido tanto do ponto de vista qualitativo, não entendemos  – sobretudo aqueles que se aproveitaram de seu pensamento para fins ilícitos, como os nazistas fizeram com Nietzsche – a complexidade do que ele disse. Tampouco o lemos em quantidade. Nem toda a sua obra, nem por tantas pessoas quanto seria desejável… Marx está à nossa espera.

Mas e O Casado de Marx? O Casaco de Marx é um conjunto de ensaios: A Vida Social das Coisas, O Casaco de Marx e O mistério do Caminhar. Cada um deles traz a questão da “sociedade de roupas”, aquela em que, segundo Stallybras, as trocas e os valores assumiam a forma de roupas. A roupa era um moeda no século XIX, sobretudo na Inglaterra analisada pelo autor. Era também memória, o que provocou em muita gente, sobretudo quando se trata da roupa dos mortos, o  que Stalybrass chama de “terror do traço material”. Ele aproveita para rever o sentido do horror à matéria que parece típico da era cartesiana e pós-cartesiana. As roupas são o traço, a marca que sobrevive ao corpo, elas são o nosso corpo que fica ligado ao nosso corpo que se vai. Mas notem que o autor estava falando de “roupas” e não de “moda”, com a qual infelizmente, muitas vezes, as confundimos. Bibi Barcellos, minha vizinha que costura uns vestidos lindos, me disse a mesma coisa há um tempo atrás, que o negócio dela era roupa e não moda. Adorei a distinção, a mesma que torna possível o livro do Stallybrass.

No ensaio que dá título ao livro é a materialidade na forma do casaco usado e tantas vezes penhorado pelo autor de O Capital que entra em discussão. Stallybras retoma Marx para mostrar o caráter abstrato do capitalismo.  A sociedade capitalista é aquela que perdeu seu vínculo com a matéria enquanto ao mesmo tempo ilude que não. Essa ilusão se chama “mercadoria”. Ela parece concreta, mas é abstrata. O capitalismo é uma grande abstração do mundo: um tipo de vampiro que devora corpos humanos concretos. A mercadoria é o que devora o corpo humano sempre rebaixado a trabalhador, proletário, prostituta. Todos objetos do capitalismo junto com as coisas que não são mais coisas concretas, mas meras abstrações. O casaco de Marx é um fato concreto que mostra a abstração da particularidade material que pode ser usada na direção do valor “suprasensível”, aquele que pode ser trocado ou penhorado. Marx foi um homem que escreveu sua obra impressionante em condições paupérrimas: ele mesmo se deu conta de que era incrível que alguém que falasse tanto de dinheiro tivesse tão pouco dele. É de chorar o que Stalybrass conta sobre a estadia de Marx em Londres na época da pesquisa para O Capital. Ele conta das várias vezes em que Marx não podia sair à rua no inverno porque não tinha roupas, tinha penhorado o casaco para ter o que comer e dar de comer à sua família. Conta das roupas penhoradas de Marx, de sua mulher e filhas e dos objetos domésticos que salvavam a vida de um intelectual sem recursos. Não fazemos ideia hoje de como a prática da penhora foi comum antes da existência dos bancos. O penhor de ontem é o cartão de crédito de hoje…

Sempre fomos devorados pelo capital… continuamos sendo quando compramos coisas de que não precisamos, quando fazemos empréstimos para pagar tranqueiras como carros e outras bugigangas. Somos iludidos pelo fetiche das mercadorias, daí consumimos… enquanto somos consumidos. Stallybrass nos ajuda a ver em seu pequeno livro que existem dois fetiches. Um que é a memória, o símbolo, o conteúdo da coisa que não se reduz à coisa enquanto mercadoria e outro que é o fetiche da mercadoria que não tem nada a ver com as coisas que significam alguma coisa para nós, mas que, para o capitalismo, são apenas a isca usada para nos capturar na sua rede avarenta.

Assim Stallybrass aperfeiçoa a questão do fetiche em Marx que, segundo ele, ficou mal colocada nos fazendo perder justamente a materialidade das coisas para a  forma de sua abstração como mercadoria.

Assim é que o livro é uma leitura delicada de Marx, mas sobretudo vale por nos fazer prestar mais atenção às coisas que nunca são apenas “meras” coisas.

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Setembro

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