Novo de novo
Um dos maiores intérpretes vivos do Brasil, Caetano Veloso, em um de seus shows, tratou dos muitos ressurgimentos do samba antes de apontar o racismo em uma das letras de um de seus “pais fundadores”, justamente aquele que é branco: Noel Rosa. O samba — semente e fruto da brasilidade — é contraditório. Caetano já fizera outra referência a Noel Rosa em “A voz do morto”, trocadilho com a expressão “a voz do morro”, fórmula por meio da qual o samba se autodefine na letra de Zé Kéti. Quando, assumindo a voz da queixosa Aracy de Almeida, cansada, segundo ela, de carregar “o morto” Noel Rosa nas costas, Caetano decreta a “morte” de um sambista, é para acalentar o nascimento de outro; no caso dessa canção, Paulinho da Viola.
O samba renasce com o mundo que gira! “O samba ainda vai nascer; o samba ainda não chegou; o samba não vai morrer [aqui Caetano Veloso responde explicitamente ao apelo de ‘Não deixe o samba morrer’, de Aloísio Silva e Edson Conceição]; veja, o dia ainda não raiou; o samba é pai do prazer, o samba é filho da dor, um grande poder transformador”, afirma coerentemente Caetano Veloso na letra de “Desde que o samba é samba”, carro-chefe de Tropicália 2, disco feito em parceria com Gilberto Gil para marcar, em 1993, as bodas de prata do Tropicalismo, movimento político-cultural do qual foram protagonistas e que refundou as bases da brasilidade já assentadas pelos modernismos, sobretudo aquele expresso na Semana de 1922, em São Paulo.
Nesse mesmo disco, e ainda em parceria com Gilberto Gil, Caetano apresenta “Cinema novo”, samba-exaltação no qual o movimento cinematográfico iniciado pelo também baiano Glauber Rocha é comparado ao samba, em sua vocação de traduzir as belezas e contradições do Brasil: “O filme quis dizer ‘eu sou o samba’; ‘a voz do morro’ rasgou a tela do cinema, e começaram a se configurar visões das coisas grandes e pequenas que nos formaram e continuam a nos formar”.
É aqui, neste ponto, que começa, de fato, o que pretendo dizer de novo neste texto: o cinema brasileiro ainda não nasceu; o cinema brasileiro ainda não chegou; o cinema brasileiro não vai morrer; ele é pai do prazer; é filho da dor; um grande poder transformador! E a prova disso é “O agente secreto”, filme de Kleber Mendonça Filho que, como o Paulinho da Viola da letra de “A voz do morto”, ressuscita o cinema num mundo que gira.
Tributária inegável da criatividade do Cinema Novo e de sua “estética da fome” — em cuja fonte bebo para meu trabalho em arte visual —, a filmografia dos nordestinos Kleber Mendonça Filho, Karim Aïnouz, Lírio Ferreira, Sérgio Machado e Rosemberg Cariry, somada à de outras artistas da Sétima Arte que não são nordestinas, mas em cujas obras se percebe claramente a influência do Cinema Novo, como as extraordinárias Laís Bodansky e Ana Muylaert, prova que o cinema nacional é mesmo como o samba, na acepção de Caetano Veloso. Não se faz um filme com beleza sem um bocado de tristeza.
É justamente esse bocado que faz com que uma parte considerável da classe dominante brasileira rejeite o cinema nacional, até o ponto de, vencida pelo talento e pela resistência, cooptá-lo e convertê-lo em grande negócio, como demonstram as filmografias de Fernando Meirelles e, sobretudo, de Walter Salles. As escolas de samba do Rio de Janeiro são o equivalente dessa cooptação no campo da música. A classe dominante lesa-pátria não gosta do Brasil do samba porque é herdeira dos colonizadores; e, quando chega a gostar, é porque foi vencida pelo talento e pela resiliência dos artistas que inveja. Como poderia gostar de um cinema que se propõe a ser samba? Apenas quando esse cinema põe o “Tio Sam pra conhecer a nossa batucada”, como propõe o genial — e também baiano — Assis Valente, em seu clássico “Brasil pandeiro”.
O filme de Kleber Mendonça Filho tem valor independentemente de ter sido laureado com prêmios internacionais — que isso fique claro! O bocado de tristeza que carrega já estava em “Xica da Silva” e “Bye Bye Brasil”, de Cacá Diegues; em “Lúcio Flávio, passageiro da agonia” e “Pixote”, de Hector Babenco; em “Pra frente, Brasil”, de Roberto Farias, e “O bom burguês”, de Oswaldo Caldeira. Do mesmo modo, sua picardia, sexualidade e humor já estavam em “República dos assassinos”, “Leila Diniz” e “For All”, de Luiz Carlos Lacerda, bem como em “Carlota Joaquina”, de Carla Camurati.
O ser-tão de Kleber Mendonça Filho já estava em “Deus e o diabo na terra do sol” e “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”, de Glauber Rocha, e em “Vidas secas”, do mestre Nelson Pereira dos Santos. O cinema brasileiro sobreviveu e esteve vivíssimo no campeão de bilheteria “Dona Flor e seus dois maridos”, de Bruno Barreto, inspirado no romance do baiano Jorge Amado e com tema escrito pelo compositor, sambista e escritor carioca Chico Buarque de Hollanda, herdeiro artístico de Noel Rosa.
Um filme é sempre “para todos”. O cinema nacional resistiu às chanchadas da Atlântida, com Grande Otelo e Oscarito; às pornochanchadas de Neville de Almeida, inspiradas na obra de Nelson Rodrigues; ao experimentalismo de Arnaldo Jabor; à censura explícita ou velada; à retomada; e aos anos fascistas e pandêmicos da gestão Bolsonaro, o inimigo mais feroz já enfrentado pelo cinema brasileiro.
“O agente secreto” pertence a essa arqueologia do saber e a essa genealogia do poder. Ele é o cinema novo que grita: “quero ser velho, de novo eterno, quero ser novo de novo”. Viva o samba, viva o morro, viva o Nordeste, viva o cinema de Kleber Mendonça Filho, viva o cinema novo!
Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual. Autor, entre outros livros, de O anonimato dos afetos escondidos (Tusquest, 2025), Falsolatria (Editora Nós e Edições Sesc SP) e O que não se pode dizer (Civilização Brasileira, 2022).





