Bruno Gagliasso: “Os jovens precisam saber quem foi Honestino Guimarães”

Bruno Gagliasso: “Os jovens precisam saber quem foi Honestino Guimarães”

Seis anos depois de viver um torturador em Marighella, Bruno Gagliasso volta ao cinema com Honestino, um híbrido de documentário e recriação ficcional, que deve estrear em maio. O filme, dirigido pelo manauara Aurélio Michiles, traz depoimentos de ex-alunos da Universidade de Brasília que foram amigos e colegas de Honestino Guimarães, um líder estudantil de esquerda, procurado e torturado pelos militares e dado como desaparecido em 1973, aos 26 anos de idade. Gagliasso, que interpreta o estudante nas cenas recriadas, marcou presença no Fest Aruanda, em João Pessoa, no início de dezembro, para apresentar o longa-metragem e recebeu o repórter Miguel Barbieri para uma entrevista, onde falou também de política, dos filhos e de ter tempo por ser um privilegiado.

Você fez uma grande pausa no cinema e retorna novamente com um filme político. É proposital?

Eu estou numa pegada de fazer filmes que me enriqueçam como ser humano. E filmes que me façam deixar um legado não só para os meus filhos, mas para quem me acompanha. Eu, hoje, sei que sou um privilegiado e posso me dar ao luxo de fazer os filmes e séries que quero. E uso isso a meu favor e a favor do que eu quero construir. Basicamente, são escolhas.

Quando você fala em privilégio, é privilégio financeiro?

Acho que também. É poder trabalhar e não ser remunerado por um determinado tempo. A nossa profissão é dura, então, repito, é um privilégio eu ter tempo. Não é todo mundo que consegue.

Aparecem outros trabalhos que você recusa?

Bastante coisa, mas são trabalhos que não me interessam. Quero falar de Honestino, de Marighella, de Por um Fio (que estreia em 2026). Quero produzir, como estou fazendo, pela primeira vez, um filme sobre Chico Mendes. Também estou na produção do novo filme do Fernando Coimbra (diretor de O Lobo Atrás da Porta e Os Enforcados) e de um infantil, cujo elenco é composto de 80% de pessoas negras. E eu preciso de tempo para fazer tudo isso. Estou com 43 anos e me dei um presente: ter tempo. Eu acho que é o bem mais precioso. Quero ficar com meus filhos e, se eu fiz um filme como Honestino, gosto de estar presente num festival, como o Fest Aruanda, para poder falar sobre ele.

Não ficar em evidência numa novela não diminuem as publicidades?

Não penso nisso, mas, no meu caso, não diminuiu. Acho que já foi o tempo em que você precisava estar numa novela para fazer uma campanha publicitária. Eu penso que, hoje, o maior veículo de comunicação não é só a televisão. Temos a internet e os canais de streaming.

E como você chegou a esse patamar?

Fui construindo aos poucos, mas a virada de chave na minha cabeça foi com a chegada dos meus filhos. Eu sempre trabalhei muito, fiz uma novela atrás da outra e, por isso, tive de recusar convites para fazer filmes. Quando me perguntam se vou voltar às novelas (a última foi O Sétimo Guardião, de 2018/2019), digo que não é minha prioridade. Tem que chamar muito a minha atenção e ser um convite irrecusável. Preciso de tempo para me dedicar aos meus filmes e séries, aos meus filhos e à minha mulher (a atriz Giovanna Ewbank).

Você fez uma carreira também como empresário e, hoje, como está o Bruno empreendedor?
Quando meus filhos chegaram, eu larguei praticamente tudo. Saí da sociedade dos restaurantes Le Manjue, focado em comida orgânica, e fiquei só com a pousada em Fernando de Noronha. Mas é curioso. Eu não me vejo como empresário, me vejo muito mais como um investidor. Eu não sei gerenciar. Também tenho terrenos perto da minha fazenda, onde gosto de estar com meus filhos e meus bichos. Com o tempo, a gente vai amadurecendo, escolhendo os caminhos e o legado que queremos deixar.

Como terminou a história da mulher que proferiu ataques racistas a seus filhos, em 2022, em Portugal?
Ela foi condenada. Ficou presa por um tempo e teve que se internar numa clínica de reabilitação. Se tiver qualquer outra atitude racista em Portugal, será presa novamente.

Embora você e Giovanna sejam famosos, seus filhos também sofrem com o racismo no Brasil?
Mais importante do que falar sobre isso é saber que eles sabem se defender e que têm pais para o que der e vier. A gente deu instrumentos para que eles se defendam. Colocamos em escola antirracista, apresentamos autores negros, filmes, desenhos… Nós aprendemos a ser antirracistas depois de velhos, mas, hoje, há um arsenal muito grande para servir de instrumento. E a melhor forma de defendê-los é não escondendo deles a verdade de que a gente vive num mundo racista.

Como é criar três filhos no mundo de hoje?
A melhor forma de criar uma criança é com amor. Amor é educação, é atenção, é o tempo que aproveito para estar com eles. Amo viajar. Quero ir com eles para a Amazônia, Japão… Minha filha quer ir para a Coreia! A gente quer levá-los para o Malawi (país do Sudeste da África), onde Titi e Bless nasceram, mas a situação política por lá está complicada e vamos esperar que eles cresçam um pouco mais.

Você se engaja em muitas causas, mas quando o Bruno político despertou?
Acho que, mais exatamente, a partir do impeachment da Dilma. Eu nunca fui um alienado político, mas a intensificação começou lá em 2016. O Brasil viveu um período muito despolitizado, que foi pós-ditadura e, como passamos a correr o risco de voltar atrás, muita gente se politizou. A gente ouviu políticos falando asneiras, vimos um deputado (Bolsonaro) homenagear o coronel Ustra, que matou, torturou… Isso é muito sério. É uma ameaça à democracia.

É por isso que você fez um filme como Honestino?
Ele é muito importante, é um alerta, principalmente para os jovens. Precisamos exibir o filme nas universidades, furar a bolha, tentar tornar ele pop. O risco à democracia está aí a todo momento e a vitória não está ganha. A prova disso foi que os jovens foram às ruas pedindo democracia e educação três meses atrás, além dos protestos recentes contra o Congresso.

Como foi interpretar Honestino sem ter nenhum registro do personagem?
Fui em busca da verdade e, é impressionante, porque foi de dentro pra fora que Honestino “nasceu”. A primeira sessão do filme foi no Festival do Rio (em outubro) e, assim que acabou a exibição, a filha, a primeira mulher e o neto do Honestino estavam emocionadíssimos. A primeira esposa falou que meu andar, o olhar e o trejeito de segurar os óculos eram do Honestino. E eu não vi absolutamente nada. Eu li, sim, cartas e poemas dele para compor o personagem. Honestino lutava por educação, democracia e liberdade e ele ainda está presente quando você vota num cara que vai te representar. Está presente na Marielle, que foi assassinada, está no Freixo e em todos aqueles jovens que lutaram pela democracia.

Você concorda que Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto “conversam” muito com Honestino?
Além de se passar na mesma época, a da ditadura, eles têm a necessidade de não se deixar apagar uma época. Apagaram corpos, mas não apagaram ideias. É muito importante que isso seja registrado. Os jovens precisam saber quem foi Honestino, líder de movimento estudantil e presidente da UNE. Hoje, a gente corre perigo o tempo inteiro. Por muito pouco, não vivemos uma ditadura de novo. A memória é viva e ela tem que pulsar.

É por isso que você está bastante empenhado na divulgação de Honestino?
Se eu estivesse abraçando um monte de coisas, talvez eu não pudesse estar aqui no Fest Aruanda. Se eu tenho orgulho de ter feito o filme, vou lutar por ele até o final. Quero que mais pessoas assistam, que meus filhos saibam que eu fiz e, para isso, como já falei, eu preciso de tempo.

Se você tivesse vivido na época do Honestino, mas sem ser artista, qual seria sua atitude como cidadão?
Seria amigo do Honestino e estaria ao lado dos oprimidos, e não ao lado da escória. Se você se omite e se cala, você está ao lado do opressor. Um governante não tem que governar para privilegiados e, sim, para quem precisa. Você ser de extrema-direita hoje é um absurdo. Não posso estar ao lado de quem não respeita a religião do outro, de quem é racista, homofóbico, de quem idolatra torturador. Não consigo ser amigo de gente desse jeito. Não quero contato com pessoas que querem me convencer de que Gaza não está sofrendo um genocídio, mesmo eu vendo imagens de crianças sendo mortas. Nem sei se perdi amigos por causa de política. Eu li uma frase que diz que “você não perde amigos durante a vida, você apenas reconhece os verdadeiros”.

Como está a relação com seus pais e seu irmão (o ator e deputado federal pelo PL Thiago Gagliasso)?
Com meus pais, está ótima, mas eu não tenho nenhuma relação com meu irmão há muito tempo. Não sei nada a respeito dele nem quero saber. Eu prefiro guardar as memórias de amor que a gente tinha na infância.

Você era muito ativo no Twitter (atual X) durante a pandemia, criticando o governo Bolsonaro. Perdeu seguidores por causa do seu posicionamento político?
Não tenho a mínima ideia. Era só mais uma ferramenta para eu me comunicar e falar sobre o que eu quero e no que acredito. Não estou preocupado se eu vou desagradar alguém. Muito pelo contrário: eu quero desagradar quem é preciso desagradar.

Como você está vendo o cenário político e a projeção para as eleições de 2026?
A gente tem que estar atento e forte. Precisamos lutar o tempo inteiro porque sempre tem alguém querendo nos puxar para baixo. Num passado não tão longínquo, tentaram exterminar a cultura. Podemos passar por momentos difíceis, mas a arte sempre vence – e a história está aí para provar isso.

A direita terá vários candidatos para presidente, mas a esquerda só tem o Lula. Onde estão as lideranças da esquerda?
Tem muita gente boa, como o Boulos, mas, agora, tem de ser o Lula, que eu acho que será reeleito. Em termos de liderança, há um grande homem, que foi candidato a governador de Pernambuco pelo PCB e, futuramente, será presidente do Brasil. É o historiador Jones Manoel, um nome para se ficar de olho.

Com qual ou quais filmes você volta em 2026?
Por um Fio, inspirado no livro do Drauzio Varella, onde faço o irmão dele, que também era oncologista e morreu de câncer, que deve estrear no segundo semestre. Fiz uma participação na série Impuros. Tenho Makunaima, do Felipe Bragança, e Corrida dos Bichos, do Fernando Meirelles. E ainda o filme sobre Chico Mendes, onde interpreto o assassino dele. Eu tô ferrado (risos) porque, além disso, vou filmar muita coisa.

Miguel Barbieri é jornalista e crítico de cinema

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