Não é apenas Deus que sabe distinguir

Não é apenas Deus que sabe distinguir

Vladimir Safatle

“Entre um falso e um verdadeiro gozo, quem senão Deus (Nous Theos) veria diferença?” Essa era a crítica feita por Bento Prado Jr. à crença de Herbert Marcuse na capacidade de distinguir entre bons e maus, entre verdadeiros e falsos prazeres. No entanto, Bento Prado tinha e não tinha razão.

Ele tinha razão, se acreditarmos em um princípio geral, universalmente aplicável, de distinção entre falso e verdadeiro gozo, entre hedonismo e prazer edificante. De fato, não encontraremos normatividades genéricas nesse campo. Ele não tinha razão, se lembrarmos que há uma ciência do singular no que diz respeito ao prazer. Se compreendermos o gozo como aquilo que orienta a conduta dos sujeitos em sua busca por satisfação, então deveremos admitir que todo sujeito distingue entre falso e verdadeiro gozo. Todo sujeito se apoia na capacidade que o vivente tem de escolher, selecionar e excluir para orientar sua conduta baseada na satisfação de certos desejos e da recusa de outros. Essa capacidade é singular, ela funciona com base na contingência de experiências singulares e não universalizáveis. No entanto, para o sujeito, ela é absolutamente necessária. Todo sujeito sabe que há certas experiências que, para ele, serão marcadas por um gozo muito próximo ao da morte, da dispersão extrema, da dissociação que nada constrói. Ele sabe que deverá encontrar uma forma de evitar tais experiências ou, ao menos, de enquadrar o gozo que elas prometem no interior de uma estrutura com a qual ele saberá como lidar melhor. Isso é inerente à capacidade de conservação de todo e qualquer organismo. Não tenhamos medo de dizer que isso é natural.

Crença na habilidade de distinção

A distinção entre falso e verdadeiro gozo pode ser lida como distinção entre um regime de satisfação que aumenta a capacidade de ação, a flexibilidade para suportar as contingências de nossa história, e outro que restringe tal capacidade e flexibilidade, que me impede de operar realizações. Não é apenas Deus que sabe fazer tais distinções. A vida as faz e, em um dado momento, é sinal de inteligência confiar o caráter aparentemente prosaico e trivial de considerações que acumulamos ao longo da vida. Elas são absolutamente verdadeiras, para nós. Fruto de um saber prático que não é simplesmente a internalização de coerções sociais exteriores. Em alguns momentos fundamentais, devemos confiar na habilidade que desenvolvemos para selecionar, excluir e compor, ou seja, na habilidade que desenvolvemos para distinguir entre falso e verdadeiro gozo.

Há momentos na vida em que não temos clareza da direção que devemos tomar, das ações que devemos realizar. Mas temos clareza das consequências que devemos saber evitar, de certas direções que, em hipótese alguma, devemos tomar. De fato, é errado acreditar que esse saber prático é fonte segura de orientação. Mas é igualmente errado acreditar que ele é apenas uma sucessão de equívocos. A esse respeito, Chesterton teve a sagacidade de escrever uma vez: “O homem que não consegue acreditar nos seus sentidos, e o homem que não consegue acreditar em nada além dos seus sentidos, os dois são insanos; porém, a insanidade deles não é provada por algum erro na sua argumentação, mas pelo erro evidente de sua vida. Os dois se trancaram em duas caixas, em cujo interior estão pintados o sol e as estrelas; os dois estão incapacitados de sair: um, para entrar na saúde e felicidade do céu; o outro, nem sequer para entrar na saúde e felicidade da terra”. Dificilmente, alguém seria capaz de dizer com tanta precisão que nossas evidências guardam algo de necessário para nossas formas de vida.

Tais considerações demonstram que podemos não saber como realizar, de maneira segura, o melhor. Podemos nem sequer saber o que é o melhor. Como o famoso asno de Buridan, que não sabe como escolher entre dois montes de comida à mesma distância, podemos entrar em colapso no interior de nossos sistemas de decisão. No entanto, sabemos bem o que é o pior. E todo organismo é capaz de mobilizar suas forças para evitá-lo.

(2) Comentários

  1. Acompanho o professor desde que assisti uma aula dele na USP ( estudo arquitetura ) e o considero um espetáculo.

  2. Queria saber por que quase todo estudioso dialético que encontra a psicanálise sofre como que um deslumbramento com suas categorias e termina, pelo menos provisioriamente, escrevendo as mais reles trivialidades sobre a conduta humana. Absolutamente insosso.

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