Michel Foucault e a zona noturna da vida

Michel Foucault e a zona noturna da vida
Com Foucault aprendemos a pensar a constituição de uma instância que separa quem recebe cuidado daqueles sem qualquer atenção (Reprodução)

 

 “A doença é a zona noturna da vida, uma cidadania mais onerosa”
Susan Sontag

 

As últimas horas do filósofo francês Michel Foucault foram narradas em Para o amigo que não me salvou a vida (José Olympio, 1995), do jovem escritor, fotógrafo e jornalista Hervé Guibert. O livro testemunha a esperança frustrada do autor de ser “perdoado” da condenação de um diagnóstico fatal – o teste positivo para o vírus HIV – através da descoberta de uma vacina ou tratamento eficaz para a doença. Como um mergulho cego em regiões insondáveis de si mesmo, o escritor francês perscruta o sentido do morrer, inaugurando uma escrita literária por alguns nomeada “tanatografia existencial”: “O processo de deterioração iniciado no meu sangue continua dia a dia, assemelhando o meu caso, no momento, a uma leucopenia”.

O retrato do filósofo – e do próprio autor – não se deu inteiramente dentro dos contornos estabelecidos pela forma narrativa da escrita (auto)biográfica: o regime de verdade que vela o pacto estabilizador da palavra no interior daquilo que pode ser dito (e do que não deve ser dito!) foi implodido pela escrita autoficcional de Guibert, uma escrita do corpo que ameaça a presença de regras sociais, políticas e mesmo literárias sedimentadas na linguagem. As práticas sexuais e a descrição sem pudor dos fluidos corporais são escancarados no livro. O resultado desse gesto radical que se abre em direção a outros modos de experimentação de si via palavra tem a força de uma relação “outra” com a verdade. Verdade que não passa pela injunção de dispositivos de poder, resultando na constituição de sujeitos “assujeitados” (como a “verdade do sexo” extraída pelo dispositivo de sexualidade); mas da experiência-limite de dessubjetivação em torno de uma relação agónica com a própria morte.

Guibert era amigo íntimo de Foucault e viveu até os 36 anos de idade. Como Foucault e tantos outros de sua geração, o escritor é mais uma das vítimas da aids. A data dos fatos narrados é o ano de 1984, ao longo dos dias que antecederam o 25 de junho, dia da morte de Foucault. Publicado somente em 1990, o registro imediato da experiência vivida por Guibert no hospital parisiense Pitié-Salpêtrière se deu através da escrita de um diário alimentado por aquilo que o autor se referiu como “insignificâncias degradantes”, assim como pelas anotações de conversas esparsas “atrozmente selecionadas pela situação”.

Num tom direto, sem fazer concessões a si mesmo e aos demais personagens retratados no livro, Guibert descreve seu amigo Foucault (que no livro é chamado de Muzil) totalmente entregue aos dispositivos médico-hospitalares: protocolos os mais variados que operavam verdadeiros mecanismos de exclusão. Além dos cuidados físicos necessários, tratava-se, enfim, de uma assepsia moral misturada a uma certa crueldade punitiva por parte dos membros do hospital: “Muzil tinha sido transferido para o tratamento intensivo no fim do corredor, Stéphane [Daniel Defert, companheiro de Foucault] tinha me avisado que era preciso desinfetar as mãos na entrada, enfiar luvas e chinelos de plástico, e colocar um guarda-pó e um boné antissépticos sobre as roupas.”

Ainda segundo o relato de Guibert, o enfermeiro do centro de tratamento intensivo, chefiando a organização do espaço em torno do doente, “recriminava a irmã de Muzil porque tinha lhe trazido comida escondido, jogava no chão os potinhos de pudim de baunilha dizendo que era proibido e que até mesmo tudo o que estava reunido em cima da mesinha-de-cabeceira era proibido, por razões de higiene […] agarrou os dois livros de Muzil que Stéphane havia lhe trazido da editora e que acabavam de sair da impressão [segundo e terceiro volumes da História da sexualidade], e decretou que mesmo aquilo não era desejável ali, que era preciso apenas o corpo do paciente e os instrumentos para os cuidados.”

O tratamento recebido por Foucault em seus últimos dias de vida no hospital – assim como o que foi reservado a seus amigos e familiares – é um triste caso exemplar de tantos outros envolvendo internação hospitalar, mas também um acontecimento revelador de uma ironia infame: o que havia sido descrito minuciosamente por ele em seus livros se confirmava numa cruel repetição da história. Afinal, seu corpo havia sido “sequestrado” pelos mecanismos de controle e apagados metodicamente os laços com os seus. Refém de um conjunto ordenado de medidas restritivas, o resto de vida subjetiva naufragou sob um mar de procedimentos e ordens administrativas.

O interesse pelos “jogos de exclusão” que operaram a partilha da loucura e da razão e a consequente medicalização da loucura esteve presente desde os primeiros escritos de Foucault, resultando numa obra monumental como a História da loucura, publicada em 1961. Este é um tema central tanto nos cursos ministrados na década de 1970 no Collège de France (O poder psiquiátrico e Os anormais, entre outros) como nos livros Vigiar e punir, Microfísica do poder e História da sexualidade. Os trabalhos publicados por Foucault apresentavam os resultados de suas pesquisas histórico-filosóficas. Uma certa inquietação de fundo, no interior de um pensamento incansável em sua constante reinvenção, desenhou uma espécie de “linha mestra”, uma preocupação ética diante das relações de força atuantes na constituição do sujeito moderno.

Percebe-se nesta história narrada por Guibert em torno de uma figura intelectual tão emblemática – que decifrou como ninguém as formas de atuação dos micropoderes na modernidade – um estranho ressoar que ecoa o destino dos corpos moribundos no interior de boa parte dos centros médicos de tratamento. Ainda assim, não se trata do pior: há também aqueles deixados no chão, na rua, nas filas à sua própria sorte. Com Foucault, aprendemos a pensar também a racionalidade biopolítica do Estado e a constituição de uma instância decisória que articula o limiar que separa os que devem receber algum tipo de cuidado daqueles sem qualquer atenção e amparo médicos.

 

Cenas de isolamento,
desespero e solidão –
vividas por toda uma
geração na década de
1980, momento em
que o enfrentamento
da aids e do vírus HIV
mal engatinhava – ainda
se repetem dentro e
fora dos muros dos
hospitais.

 

 

A conversa entre Guibert e um jovem médico que cuidava de Foucault é bastante indicativa desse fosso profundo em que são jogados os doentes condenados à morte: “O jovem médico perguntou quem eu era e disse, de modo alusivo, como se eu estivesse perfeitamente a par daquilo a que se referia, o que não era de modo algum o caso: ‘O senhor sabe, com uma doença desse tipo, da qual não se sabe grande coisa para ser franco, é melhor ser prudente’. Recusou-me a permissão de rever Muzil vivo, invocou a lei do sangue que privilegiava os membros da família em relação aos amigos, não que estivesse questionando que eu fosse um de seus íntimos, tinha vontade de cuspir na cara dele.”

O relato de Hervé Guibert é explícito com relação à instituição de um mecanismo de punição moral entranhado no registro de um poder disciplinar, o poder/saber médico que individualiza os corpos e extrai deles sua liberdade subjetiva, tudo reduzido à materialidade de um corpo constituído por um certo olhar ao mesmo tempo domesticador e produtivo. Nesse sentido, o espaço da intimidade de Guibert e Foucault não escapou ao poder do médico, que, ancorado no dispositivo hospitalar, sub-repticiamente excluiu a relação dos dois, numa forma de condenação de suas práticas sexuais e afetivas.

Para o amigo que não me salvou a vida se tornou um sucesso literário quando lançado em 1990 na França, um ano antes da morte de Hervé Guibert. Mas não só: o livro constituiu uma peça estratégica importante no combate à doença e seus estigmas. A aids era tida na década de 1980 como “a doença dos gays e dos drogados”, e essa localização preconceituosa da doença entre grupos marginalizados não foi e nunca será inocente, tendo em vista que o campo semântico de fundo é o corpo vivo enquanto metáfora da vida coletiva, social e política.

Os significados em torno do vírus HIV, de seu potencial de contágio e destruição, deslizam nesta operação metafórica no sentido da acusação e culpabilização de certos grupos, formas sociais e práticas de si. O que nos leva a pensar que as relações de poder que atravessam os corpos doentes resultam em formas políticas de uma espécie de subcidadania. Escreve Foucault, em seu livro sobre a História da sexualidade – 1. A vontade de saber (Graal, 1999), que o poder sobre a vida, o “biopoder”, se realiza na “proliferação das tecnologias políticas que, a partir de então, vão investir sobre o corpo, a saúde, as maneiras de se alimentar e de morar, as condições de vida, todo o espaço da existência”.

A obra de Foucault, cujo drama pessoal não escapou ao registro extremamente lúcido e doloroso de Hervé Guibert, nos deixa como legado a consciência de que no espaço inscrito pelo corpo doente está em jogo, para muito além do corpo acometido por processos físicos destrutivos que demanda cuidados, um corpo político obrigado a resistir aos mecanismos de exclusão, esvaziamento e supressão da subjetividade.

João Paulo Ayub Fonseca é psicanalista e doutor em Ciências Sociais pela Unicamp com tese intitulada “Arte é sangue, é carne – a riqueza e a miséria da palavra no romance de Graciliano Ramos”. Autor de Introdução à analítica do poder de Michel Foucault (Intermeios, 2015).


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