Melancolia 
de Ozymandias

Melancolia 
de Ozymandias
Christian Dunker (Divulgação)
  Em sua última coluna aqui na Revista CULT, Vladimir Safatle abordou o tema da morte e do luto como modelo e protótipo dos processos de simbolização sob os quais se erige a cultura. O tema é vasto e nobre desde que Montaigne nos ensinou que escrever é aprender a morrer e Hegel insistiu que o espírito é o osso, e a cultura as suas ruínas. Também para Freud a sequência histórica dos fracassos esquecidos e invertidos em sucessos monumentais regula a gênese da cultura como sistema de transmissão simbólica da experiência. A história dos desejos desejados, para retomar a expressão de Kojéve.    Recentemente, Slavoj Žižek (Vivendo no fim dos tempos, Boitempo, 2012) retomou o problema reinterpretando nosso fracasso em fazer o luto como causa do empobrecimento de nossa imaginação política. E ele chega a detalhar o impasse recorrendo aos cinco tempos do luto, descritos por Elisabeth Kübler-Ross: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Fazer o luto, como qualquer psicanalista advogará, não é meramente esquecer ou desligar-se de um ente ou objeto querido. O trabalho de luto implica reconstruir relações que se revelam apenas após a perda, é descobrir do que eram feitas tais relações, para em seguida, ativamente, deixar que o outro nos deixe. Contudo, o grande drama que abre o processo de luto é que não sabemos de saída o que foi perdido. Momento trágico no qual o melancólico se fixa. Daí que o luto comece pelo inventário, marcado pela lembrança compartilhada, daquilo que não sabemos ainda a extensão nem a essência.

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