Privado: Língua e realidade

Privado: Língua e realidade
Abraham Moles chamou de “fantasia metafórica” a maneira inventiva e inovadora que Vilém Flusser tinha de pensar: ele construía redes a partir dos assuntos mais variados de diferentes disciplinas, e, unindo mundos e épocas dessemelhantes, criava combinações inéditas e espantosas. A totalidade da obra de Flusser é permeada por metáforas de todos os tipos, mobilizadas como possíveis modelos de interpretação. O filósofo usava também uma série de metáforas a fim de descrever a forma e o funcionamento das línguas e a relação entre uma e outra. Ademais, utilizou a ideia da língua como sendo uma metáfora ela própria a fim de interpretar amplamente sociedade e cultura. Na obra Língua e realidade, do início de sua carreira, a realidade é compreendida como um globo dividido por eixos na vertical e na horizontal. Realidade e língua são justapostas. O eixo vertical separa os símbolos auditivos e visuais, Oriente e Ocidente, língua falada e escrita, música e escultura. O eixo horizontal, chamado por Flusser de equador da realidade, separa as duas metades, cada uma consistindo em diferentes camadas linguísticas. A superior caminha desde a conversação até a poesia e a prece, rumo ao Polo Norte do nada, o silêncio autêntico. Já a inferior vai desde a conversa fiada, passando pela “salada de palavras” e balbucios intelegíveis, até chegar ao Polo Sul do nada e do silêncio inautêntico. Duas visões conflitantes sobre a língua habitam a obra de Flusser desde o seu princípio. Por um lado, ela é descrita como rede, antecipando o que viria a ser

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Novembro

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