Lâmina que ainda reluz

Lâmina que ainda reluz

FOTOS: Bob Sousa

“Pois bem, e se os humanos superassem os animais na sua capacidade de violência precisamente porque falam?”

Slavoj Zizek. Violência.

Em 1967, quando Plínio Marcos ainda estava sendo descoberto pelo grande público, após a revelação do contundente naturalismo de Dois perdidos numa noite suja no ano anterior, o crítico Décio de Almeida Prado definiu o texto de Navalha na carne como “um teatro da crueldade em estado bruto, tal como a encontramos na realidade”. Quase cinco décadas depois, a peça mantém praticamente intacta a força de sua estrutura dramatúrgica, embora a maneira como vimos lidando com as questões sociais que servem de moldura à obra tenha mudado bastante.

A encenação de Navalha na carne pelo Teatro Oficina permite ao público paulistano, uma vez mais, procurar compreender o que ainda pode lhe dizer hoje um texto tão conhecido do repertório teatral brasileiro, para além da reverência a um clássico. Dirigida por Marcelo Drummond, que também interpreta o cafetão Vado, com Sylvia Prado no papel da prostituta Neusa Sueli e Tony Reis encarnando o homossexual Veludo, a montagem constitui um exercício cênico baseado em jogos de ambiguidade muito expressivos.

O primeiro deles se dá entre a atmosfera opressora que se constrói em termos físicos – atores e espectadores, muito próximos uns dos outros, ficam espremidos em um canto nos fundos do Oficina, margeados pelas duas escadas que levam ao segundo pavimento do teatro – e a posição um tanto quanto liberal que tendemos a assumir diante de figuras intensas, barrocas, quase trágicas, mas cujo halo de dramaticidade já não nos choca mais.

Um outro jogo se dá no plano da interpretação, que não envereda pelo caminho fácil da mimese realista. A técnica que o trio de intérpretes adota para dar vida a personagens forjados sob o signo de uma marginalidade tão vincada é a do antinaturalismo, embora cada um dos atores obtenha resultados muito diferentes entre si. Sylvia Prado, intérprete de maturidade artística inegável, seja quando assume o protagonismo, seja quando integra as composições corais das montagens do Oficina, constrói sua Neusa Sueli lentamente, diante dos olhos da plateia, testando inflexões de voz e dando vazão a emoções que somente ao final – no famoso monólogo da inquirição “Será que somos gente?” – explodem em um todo coerente, fazendo a personagem mergulhar em um estado de angústia que revela sua miséria física e moral.

Em outro tipo de registro, Tony Reis investe em uma teatralidade mais desabrida, exteriorizada, histriônica, revelando uma inesperada virilidade de Veludo, calcada tanto na exibição de um físico bem torneado, como na exploração do caráter cambiante de seu masoquismo. Marcelo Drummond talvez seja o intérprete que menos esteja colado ao personagem, e isso não representa ruído algum, frustrando somente àqueles que esperam um tour de force ao gosto do Oscar. O Vado de Marcelo soa mais malandro do que violento, mais ladino do que sádico, mais inoportuno do que dominador, contrastando, inclusive, por se mostrar vulnerável, com o vigor de Veludo.

Melhor para Neusa Sueli, a grande personagem da peça, que – tiranizada por dois tipos de masculinidade caricatural – é o único ser capaz de tatear a gênese da própria selvageria, e a dos demais, ousando fazer uso de um lirismo seco, duro, lacônico como em um hai kai composto somente por palavras de baixo calão. Enquanto Vado e Veludo estão presos ao automatismo de suas personas, a prostituta procura ao final da peça ultrapassar sua condição, dotando seu discurso de uma verdade que a liberta da galeria de tipos sociais fixos e ilumina de algum modo sua interioridade.

Melhor para Neusa Sueli, a grande personagem da peça, que – tiranizada por dois tipos de masculinidade caricatural – é o único ser capaz de tatear a gênese da própria selvageria, e a dos demais, ousando fazer uso de um lirismo seco, duro, lacônico como em um hai kai composto somente por palavras de baixo calão. Enquanto Vado e Veludo estão presos ao automatismo de suas personas, a prostituta procura ao final da peça ultrapassar sua condição, dotando seu discurso de uma verdade que a liberta da galeria de tipos sociais fixos e ilumina de algum modo sua interioridade.

O derradeiro jogo ambíguo do texto dirige-se diretamente para nós: embora um pouco cega por retratar três tipos que aos poucos vão desaparecendo da vida social brasileira, com seu comportamento e linguajar ultrapassados, a navalha de Plínio Marcos ainda amedronta, porque a escória calou-se nos palcos em nome de uma ideologia que não  erradicou a miséria; somente tornou mais silenciosas as várias expressões de sua selvageria.

Navalha na carne
Onde: Teat(r)o Oficina (Rua Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo).
Quando: até 28 de janeiro (quartas e quintas, às 21h).
Quanto: R$ 30,00 inteira, R$ 15,00 meia e R$ 10,00 moradores do Bixiga.
Info: (11) 3106-2818.

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