“Ideologia de gênero” ou o gênero da ideologia?

“Ideologia de gênero” ou o gênero da ideologia?

Discussões sobre gênero e sexualidade são, geralmente, desclassificadas

Durante os dois últimos meses, Câmaras de Vereadores e Assembleias Legislativas de todo o país selaram uma interferência bastante perigosa do pensamento religioso conservador sobre as políticas públicas de educação, colocando em xeque o princípio constitucional da laicidade do Estado.
Nas votações dos planos de educação por todo o Brasil, houve um movimento bastante articulado para suprimir das diretrizes educacionais qualquer compromisso expresso com o combate das desigualdades de gênero e de sexualidade.

Admitiu-se que constasse, no máximo, fórmula genérica de “combate a todas as formas de preconceito e discriminação” em detrimento de jogar luz às diferentes formas de violência, nomeando-as e, assim, dando a visibilidade necessária para a busca de soluções a esse problema.

O argumento utilizado para a cruzada fundamentalista contra a inserção desse recorte de gênero e de sexualidade foi o de que se trata da tentativa de implantar uma “ideologia de gênero”, cujo maior objetivo seria desfigurar a família tradicional e subverter os sexos biológicos, designados como dados imutáveis pela natureza ou por Deus.

Tal argumento é falacioso por diversas razões. Primeiro, porque não se trata de uma “ideologia” o reconhecimento do caráter social e histórico dos dispositivos e arranjos de regulação do sistema que articula a dicotomia sexo-gênero. As diferentes formas de organizar a experiência humana das sexualidades e das identidades variaram a depender de fatores diversos em cada sociedade, sendo que os padrões de comportamento tidos por “normais” e “legítimos” sempre conviveram – em tensão – com uma enorme gama de diversidades no campo dos desejos e das subjetividades dissidentes.

Para além de sonegar reconhecimento à riqueza de experiências humanas, essa visão conservadora comete outro equívoco, que é desqualificar a discussão sobre gênero e sexualidade como “ideológica” e, portanto, imprestável. No debate democrático, “ideológico” não é adjetivo pertinente para desqualificar uma posição política. Independentemente da definição adotada, em linhas básicas, ideologia remete a um conjunto de ideias e valores que pautam o pensar e o agir de indivíduos e grupos na sociedade, a partir de seus interesses e lugares.  Assim, tão “ideológica” quanto a “ideologia de gênero” é a “ideologia anti-gênero”. Como adverte Zizek, “quando um processo é denunciado como ‘ideológico por excelência’, pode-se ter certeza de que seu inverso é não menos ideológico” (Um mapa da ideologia, Ed. Contraponto).

Não há, assim, o lugar de imparcialidade ou neutralidade que esses setores reivindicam, como se a natureza fosse um dado que lhes desse razão inquestionável. Eles tentam, aliás, apresentar sua ideologia conservadora como uma “segunda natureza”, buscando confundir uma convenção social com um determinismo natural.

Ao agir assim, alçam a hetenormatividade e o patriarcalismo a horizontes insuperáveis da vida humana, como se qualquer afronta a essas formas hegemônicas não pudessem contar com proteção e reconhecimento do Estado.

Desse modo, a inclusão de um recorte, nos planos de educação, que contemple o tema da orientação sexual e da identidade de gênero é fundamental para subverter essa visão autoritária, construindo para as novas gerações uma educação voltada para a alteridade, com tolerância e respeito à diversidade.

A luta pela inclusão de diretrizes igualitárias em nossa legislação não vem de hoje. É bastante conhecida, por exemplo, a importante campanha que o grupo Triângulo Rosa, com João Antônio Mascarenhas à frente, empreendeu para incluir o termo “orientação sexual” na Constituição. A despeito de aprovada em duas Subcomissões, a proposta foi derrotada em 1988 com 53 votos a favor, 250 contra e 6 abstenções.

A inscrição da proteção da diversidade e da promoção do respeito em texto legal não é finalidade última, mas instrumento para a efetivação dos direitos em uma democracia.

Na cidade de São Paulo, essa votação ocorrerá na Câmara Municipal agora, no dia 11 de agosto. É preciso somar à mobilização em curso, garantindo que haja a inclusão desse recorte de sexualidade e de gênero ao Plano Municipal de Educação para que respeito, de fato, se aprenda na escola.

Até o momento, o modo equivocado como esses setores conservadores estão pautando esse debate revelam mais do gênero da ideologia deles – heteronormativa, transfóbica e patriarcal – do que da “ideologia de gênero”.

(21) Comentários

  1. Olha o mundo já esta praticamente sem direitos que nós seres humanos gostaríamos, agora não acho que seja necessário esse debate. Eu tenho outro conceito sobre o caso.

  2. O que na verdade temos nesse cenário atual é uma questão mal abordada ,assim como mal colocada como tal fato é um contribuinte para que respeito se aprenda na escola. A escola é local de parceria com a sociedade e não de definição de valores e sentimentos , Isso é caso de família. Nunca a linguagem escolar será maior do que a linguagem da própria sociedade-lar. Não teríamos chegado a este desgaste e sentimentos ruins gerado entre as comunidades escolares , se desde o incio o assunto não fosse lançado como conteúdo obrigatório de especificação e sim parte do que se tem como abordar de forma geral como toda e qualquer espécie , e também sem uma linguagem desrespeitosa as famílias tradicionais sim, e não famílias do passado , como muitos textos e materiais que já circulam menosprezando -as .Não se muda uma linha de pensamento por imposição, sem o diálogo verdadeiramente aberto sem priorizações não chegaremos nunca a um denominador comum o assunto sob a base de politica educacional . A própria sociedade não foi antecipadamente convidada para apontar a forma de como incluir tal questão de forma a contribuir para a formação humana .O que grande massa recebeu foi uma formula pronta , uma abordagem até grotesca , uma avalanche de fatos aliados chamando de manifestação a favor quando muito mais parecia uma afronta ao que realmente se tornou a base para chegar até aqui esta geração, a família tradicional sim, e hoje em diversos espaços e de tempos e tempos são criticados como cegos da doutrina religiosa como se da religião fosse possível apartar totalmente da formação humana, o que também se torna um pensamento minimalista. Onde mora a resistência talvez chegou primeiro desrespeitosamente o provocador de tal cenário. Repensemos cada um nossa forma de agir manifestar ,se nós mesmos não estamos sendo os primeiros a ser o alavancadores da guerra civil em todas as dimensões.Idealizar é fácil o difícil é respeitar o caminho para concretizar…quem sabe um dia!?

  3. Devemos respeitar a escolha de cada um, perante DEUS somos todos iguais. mas tem aqueles que fazem escolhas na qual não podemos nos intrometer e nem julgarmos.

  4. Lembrando sempre que o respeito tem que ser direcionado á pessoas, mesmo não concordando não cabe a nós julgarmos, direitos e deveres todos temos .devemos que ser tratados iguais independente da opção! portanto não seria necessário um abordagem como esta.

  5. Aos Prezados(as) ,

    O respeito ao próximo é inquestionável. Todos devemos respeitar a posição, decisão, escolha do outro individuo, independente se estão de acordo ou não conosco. Entretanto, a “desesperadora” intensão de mudar o natural – pois nascemos assim, não há justificativa para após milhares e milhares de anos, querer mudar algo que vem de nossa criação, de tudo, da nossa essência- para justificar respeitar o outro. Acredito haver meios de ensinar na escola sobre respeito, tolerância, sem confundir a cabeça das crianças. Pois é isso sim que ocorre, a criança fica confusa, já que nasceu como o sexo x e agora querem dizer a ela que não, que como o “sapo”, ela pode mudar de sexo, conforme sua necessidade.
    Da mesma forma que criticam de patriarcal, intolerante, discriminatória, os setores conservadores. Também se comporta da mesma forma, os setores que forçam a barra, pressupondo tamanho descabimento.
    Particularmente, respeito a forma de pensar e agir dos demais, mas não compactuo em deixar que meus filhos sejam orientados desta forma, sexualidade se trata na escola, na forma de orientação. Porém, gênero quem decide é a família. Ninguém tem direito de intervir.

  6. Na minha opinião deveria inserir nas escolas , quem sabe assim aprendem ,desde cedo a conviver e entender o diferente . Nas famílias tradicional se tem dificuldade de entender ,mais é real e esta presente em nossas vida temos que aprender a conviver e acima de tudo respeita.

  7. Acho super errado! No Brasil, o debate sobre a “ideologia de gênero” se intensificou com a estruturação do Plano Nacional de Educação (PNE), em 2014. Neste caso, a proposta do Ministério da Educação (MEC) era incluir temas relacionados com a identidade de gênero e sexualidade nos planos de educação de todo o país.Eles criaram um modelo no qual as pessoas, dentro da família, não tivessem nenhum tipo de relação, eliminando as relações familiares. Acho um absurdo! Sendo que, tem tantas coisas mais importantes para que sejam incluídas na educação , aí vem essa coisa ridícula, eliminando todo o tipo de educação e relação familiar, com a religião e com Deus. Acho que, com o passar do tempo, a própria pessoa possa descobrir qual é o seu estado natural e, assim mesmo, “decidir” se é homem ou mulher.

  8. . Qualquer tipo de relação com a transcendência, com a religião ou com o ser Criador deve ser simplesmente anulada. O homem do século XXI, dono e senhor de si, perderia seu bem mais precioso – a sua identidade.“A ideologia de gênero é uma tentativa de afirmar, para todas as pessoas, que não existe uma identidade biológica em relação à sexualidade. Quer dizer que o sujeito, quando nasce, não é homem nem mulher, não possui um sexo masculino ou feminino definido, pois, segundo os ideólogos do gênero, isso é uma construção social”.

  9. Valores são responsabilidades da família, o governo não deve se meter em questões sentimentais… essa discussão é completamente desnecessária partindo do próprio ponto de haver questionamento sobre Gênero! Cada um escolhe ser o que quer, não precisa fórum ou pautas discursivas pra isso.

  10. Muito interessante tudo o que eu li, teve comentários interessante também. Mas olha só minha reflexão! Ninguém na vida escolhe sofrer, ninguém sabendo da sociedade onde vivemos escolheria ser homossexual por exemplo. Concluo não é escolha portanto. Você foi gerado homossexual. Condenar é fácil quero ver sentir na pele ser homossexual ou ter seu filho homossexual por exemplo!

  11. Penso eu que ,cada um tem sua opinião de escolher ser o que quiser ,porém eu vejo isso como um afronto as famílias,não descrimino ninguém,porém isso faz com que a família perde seus valores ,valores tão importantes,já vivemos em uma época onde se pode tudo ,imagine vc ,perder o respeito aos seus avós ,o respeito dentro da sua casa ,acredito e digo ,família é família ,é terra sagrada ,e escola é pra ensinar conteúdos escolares e não qual sexo você é ,sou contra ideologia de gênero nas escolas ,mas cada um faz o que pensa que está certo né.

  12. Há apenas conversa e entendimento de que existem diferenças de existência no mundo que devem ser respeitadas, ninguém quer sofrer os preconceitos do mundo pela sua opção de vida.

  13. Verdade! As transformações em que se diz respeito a sexualidade virou banalidade transfobica e a ideologia de gênero e uma questão delicada que deva ser implantada na educação sim porém junto com os gênitores dos alunos em democracia.

  14. É um assunto ate dificio de comentar quando somos de família conservadora e ao mesmo tempo temos parentes homossexual. Creio que não e preciso chegar a tal ponto de introduzir este assunto na escola . valores são ensinados em casa pela família vai depender muito da pessoa se vai querer seguir os pais ou o que ver no mundo la fora ,além de ser muito constrangedor para um profissional da educação que zela pelos valores familiares . Sei que devemos sim respeitar a cada um sem preconceitos cada um escolhe o que quer para sua vida ,mas confundir a mente de nossas crianças jamais.

  15. Na minha opinião e que a sociedade ainda não aceitam o diferente como sendo uma opção e um direito de cada um ter o seu .E as famílias querem impor aquilo que foi passado para elas de forma que não aceitam que muitas vezes vivem na realidade e isso é onde vem os conflitos com sim mesmo e com a sociedade por não ser aceito e muitas vezes também não se aceita por ser visto com um olhar estranho.

  16. Já temos tantas deficiências nas escolas, onde os alunos mal sabem escrever, e querem impor a todo custo a discussão de gênero!!!! Sou até a favor que discutam isso, mas somente depois de darem estruturas às escolas para tal.

  17. sim eu apoio o respeito a todos , mas as escolas esta carente de conhecimentos de educação de qualidade . de respeito aos professores . ate acho bom tal assunto nas salas de aula mas não com crianças , talves na adolescência .

  18. Hoje em dia, na sociedade brasileira, tem que haver mais respeito. Sendo que o respeito, começa em casa. Para ter uma boa educação, é preciso que os pais fiquem atentos, com seus filhos.Dando carinho, diálogo, para que não haja preconceito dentro e fora da sociedade . A sexualidade hoje, está comum independente do seu gênero e escolha, Portanto é fundamental os pais ter responsábilidade com seus filhos , para que eles tenham uma educação, e respeito com a sociedade e diversidde.

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