Histeria natalina

Histeria natalina

(Minha crônica de natal publicada no Correio do Povo no sábado. Acrescentei uma imagem da série Cremaster de Matthew Barney para iluminar…).

Quem tem a impressão de que o Natal de nossa época corrompe o próprio Natal está sendo ingênuo. Quem pensa que o Natal não poderia ser sinônimo de consumismo, não percebeu que se trata justamente disso. O que muitos ainda chamam de “espírito natalino”, relaciona-se diretamente com a esperança de um tempo de paz e amor. Mas isso tem um sentido altamente capitalista hoje em dia. Em uma sociedade em que todos estão em guerra – e muitos tomados pelo ódio – podemos falar apenas em trégua. O Natal e seu espírito virou a esperança de uma trégua.

Uma trégua que nos permite encenar que ainda, e de algum modo, “amamos uns aos outros”. A trégua que importa é garantida pela festinha em família ou no trabalho na qual o “amigo oculto” ameniza os efeitos de um consumismo que, no extremo, se tornou impossível. Ninguém consegue comprar tudo o que sente que devia e a culpa por desobedecer à regra do jogo consumista não deixa a consciência em paz até que aquele presente do amigo – que de amigo não tem nada – permita abstrair da mentira e, ao mesmo tempo, encenar o jogo que deixa a todos contentes de que ainda são capazes de brincar. Na sociedade infantilizada, saber brincar é essencial para a boa convivência. Quem não quer brincar mais não será visto senão como um grande chato que esqueceu o espírito natalino e, por isso mesmo, não vai às compras.

Da série Cremaster de Matthew Barney

Quem critica o Natal consumista pode ser criticado por ir contra o espírito natalino em nome do qual a festa ainda vale a pena para a maioria: o sentido das compras e vendas. A mansidão é exigida de todos. Ninguém acredita que alguns podem sair a roubar e matar na época do Natal sem sentirem-se culpados, assim como não se acredita que alguns possam não querer dar nem receber presentes. Os contentes com o espírito natalino recebem a denúncia mais como um problema psicológico do crítico – esse mau humorado que não sabe entrar na festa e enuncia a todo momento o “não brinco mais” – do que do objeto criticado. O crítico, para quem pensa que o Natal é apenas uma festa cristã, é tratado como anticristão, o equivalente do desmancha-prazeres. Como o ateu no sistema religioso, alguém que não sabe brincar de crer em Deus e acaba de mau humor com a festa alheia.

A religião capitalista tem seus rituais, liturgias, homilias e festas. O Natal é a mais espantosa. A alteração da paisagem urbana é prova disso. Seu tom de exagero dá sinais de uma histeria. A histeria natalina do plástico fabricado na China. O Natal tropical sempre se esmerou no tom artificial que tenta copiar com isopor e algodão a neve do norte num evidente complexo de inferioridade geográfica. O Natal não é apenas cristão e capitalista, ele é também chinês e de plástico. Se alguns filósofos já disseram que a racionalidade técnica era a racionalidade da dominação, podemos dizer hoje que a racionalidade é de plástico e custa baratinho. O espírito do capitalismo natalino é o espírito decorativo. Por uns dias as luzinhas pisca-pisca mal penduradas em árvores e janelas escondem as dores urbanas nas grandes cidades, cujo espírito de morte pede ocultamento. Natal noutro sentido seria um minuto de silêncio com as luzes pisca-pisca apagadas.

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