Gabe Klinger: Vinhos, cinema e a cidade

Gabe Klinger: Vinhos, cinema e a cidade

 

Isabel, estreia em Berlim do cineasta paulistano Gabe Klinger, volta o olhar do espectador ao pequeno universo particular dos bares de vinho em São Paulo, tendo em vista ainda questões urbanas próprias do mundo pós-pandêmico.

Em diálogo com obras como Noite vazia e Filme demência, o longa-metragem trata o espaço urbano como personagem. Sem ter a perfeição técnica como ideal último, a proposta é aproximar o espectador da dimensão da intimidade, do vínculo e da memória.

Em entrevista à Cult, Klinger comenta a relação de seu cinema com a cidade, como adentrou no mundo do vinho e porquê decidiu investir em sua carreira como realizador no Brasil.

 

O que atraiu o seu olhar para a realidade dos bares de vinho?

O vinho é um interesse meu que cresceu durante a pandemia. Você já entrou numa loja de vinhos e se sentiu intimidado? É sempre um pouco constrangedor levar uma garrafa de vinho para um jantar e não saber se está levando o vinho certo. Essa é uma sensação que sempre quis superar na minha vida pessoal.

Acho que, como a música clássica, se você tem um pouco de conhecimento sobre vinho, você pode ter acesso a novos prazeres e experiências. É tão subjetivo, tão incrível como arte: depende do paladar individual, do contexto, da companhia e da temperatura. Assim como o cinema, é algo coletivo. E, eu vi que esse movimento tem crescido em São Paulo e, principalmente, com mulheres à frente disso, com vinhos naturais e vinhos artesanais.

Fazer um filme sobre vinho partiu de um desejo em adentrar nesse mundo e aprender mais sobre o assunto, porque, no meio do cinema, se você só interage com essas pessoas, é um pouco chato. E é sempre bom ter uma desculpa ou um projeto para poder se introduzir em um novo meio, ganhar intimidade e fazer amizades.

Esse é um interesse compartilhado entre mim e a Marina Person. Quando escrevi a primeira versão do roteiro e apresentei a ela, descobri que ela queria abrir uma loja de vinhos e produtos fermentados brasileiros com Gustavo, seu marido. Os dois já haviam começado a olhar possíveis locações para a loja e estavam trabalhando em um plano de negócios – os mesmos passos que Isabel dá no filme, mas na vida real. A partir daí, trabalhamos juntos nas versões seguintes do roteiro.

Um ator pode se preparar, pesquisar e tentar encontrar seu personagem de várias formas. Nesse caso, Marina já tinha feito a pesquisa toda, o que acelerou o processo e também facilitou muito. É uma paixão de verdade; não é uma coisa que ela precise fingir.

 

No filme, há também uma dimensão pós-pandêmica da alteração dos espaços urbanos. Foi uma intenção consciente englobar um aspecto documental no filme?

Querendo ou não, é um filme pandêmico. O roteiro nasceu durante esse período e comenta esse mundo pós-pandemia, sobre esse desejo de voltar aos espaços comunais, de criar comunidades que perdemos. Vamos recuperar o que perdemos! Certamente tem muito desse desejo no filme.

 

Mas há também elementos como o mercado imobiliário, que acossa esse desejo, certo? Como você chegou à ideia de mostrar essa contradição?

São as contradições de viver em São Paulo. Isabel é quase inteiramente filmado no nível da rua. Há, por exemplo, a casa de Isabel, que é a minha casa: uma casa de vila operária dos anos 1950, que é um tipo de imóvel que está desaparecendo em São Paulo. Eu procurei esse imóvel porque queria ter um contato com a cidade como ela era antes. Esse estilo de filmagem foi definido na configuração visual do filme, pois não queríamos excluir a cidade – queríamos abraçar a cidade. Todas as pessoas que você vê passando na rua no filme, é tudo real. Nunca cortamos o acesso ao set. Pelo contrário: queríamos agitar um pouco o movimento e não gravar em uma rua vazia pois não combinaria com o que já foi filmado.

O único lugar que está acima do nível da rua é o restaurante, onde Isabel trabalha e se encontra infeliz. A tendência do rooftop de ir para dentro e para cima, a verticalização da cidade, simboliza a elite de São Paulo: o lugar de onde ela quer escapar para ter contato com o chão. Quis que isso ficasse aparente no filme, e também se relaciona com meu olhar: eu nunca gosto de estar nesses lugares recuados. Gosto de sentar na rua, em espaços acessíveis e democráticos. Acho Isabel uma personagem democrática.

 

Como foi o custeio do filme? Usar locações abertas barateou a produção?

Em breve, estrearemos no Festival de Berlim para vender o filme [para as distribuidoras]. Isabel é um tipo de filme que não precisou atender o gosto de ninguém por não ter recorrido a financiamento de editais. Por isso, tivemos total liberdade. O filme teve produção do Rodrigo Teixeira (RT Features), que dá essa liberdade aos seus diretores.

As locações foram escolhidas por questões de orçamento, logística e por não querermos fazer intervenções de arte muito radicais. Mas também as escolhemos porque para mim era importante que os lugares tivessem alma – que fossem lugares vividos. É o caso do [bar] SEDE 261 [em Pinheiros], que aparece nas gravações quase sem nenhuma mudança; O Clos Wine Bar [na Vila Madalena]; a minha casa; o centro da cidade – são lugares com os quais eu mantenho uma conexão pessoal.

Lembro que, quando estávamos filmando na Praça da República, eu e Marina comentamos sobre seu pai [Luiz Sergio Person] ter filmado naquele exato lugar seu filme São Paulo Sociedade Anônima 63 anos antes. Não mudou quase nada. É parte da nossa conexão com a cidade, que desenvolvemos não só com as gerações, com família, amigos, mas também com a história do cinema na nossa cidade, com esses diretores que escolheram filmar a cidade dessa mesma forma: desse jeito guerrilha, que era mais comum nos anos 1960, mas que ainda existe até os anos 1980 e 1990, por exemplo, com Carlos Reichenbach.

Esses cineastas continuam trabalhando na rua e com locações reais. Não sei porque – provavelmente por regras e restrições – de algumas décadas para cá, as produções foram migrando para estúdios ou fechando ruas para filmagens. É uma coisa meio careta na face do cinema brasileiro atual: você não vê mais o caráter real da cidade, a sujeira, o caos. É uma pena, porque esses filmes brasileiros dos anos 1960 são tão vibrantes porque estão na rua e abraçam o caos.

 

É ousado o uso da película 16mm para filmar. Ainda mais quando não se tenta esconder os defeitos fotoquímicos. Pode comentar essa escolha?

Hoje é possível limpar digitalmente tudo isso, mas eu não faria isso de jeito nenhum. É como o vinho: às vezes, produtores colocam seus vinhos, cuja expressão da uva está um pouco fora do padrão, em barris de carvalho para “arredondar” o sabor, diferente do vinho natural ou artesanal. Para mim foi importante deixar a imagem sem nenhum tipo de filtragem ou intervenção radical nesse sentido.

 

O que te mobilizou a investir na sua carreira como realizador no Brasil?

As coisas estão mudando no mundo inteiro. O cinema está se descentralizando. Antigamente, desde 1914 – quando Chaplin, Douglas Fairbanks, Mary Pickford e Lillian Gish começaram a United Artists –, a ideia era ir a Hollywood. Hoje em dia, as pessoas estão fugindo de Los Angeles, porque não é mais o centro. As pessoas filmam em Londres, na Geórgia, e tem produções, inclusive do Rodrigo Teixeira, de diretores americanos e europeus vindo filmar em São Paulo. Isso é inédito. A economia do cinema no mundo inteiro está mudando.

E, pessoalmente, me senti muito desconectado da indústria americana, por ser muito comercial. Filmes exibidos em festivais como o Sundance, por exemplo, mostram histórias sem espaço para ambiguidade. É tudo muito superficial. Isso é engraçado: eles gostam e aceitam filmes como O agente secreto, Parasita, mas não são filmes que seriam produzidos lá. E essa contradição é uma hipocrisia do cinema americano.

Após o “momento Bolsonaro” – quando tudo estava realmente em ruínas – pensei que talvez fosse um bom momento para voltar às minhas raízes. Então, me reconectei com Rodrigo Teixeira, e agora são vários roteiros e projetos em andamento. Então vamos ver o que acontece, Isabel é o começo.

 

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