Felipe Neto e as novas forças antibolsonaristas

Felipe Neto e as novas forças antibolsonaristas
Felipe Neto, youtuber, tem 38 milhões de inscritos no YouTube e 11,5 milhões no Twitter (Reprodução/Youtube)

 

O ódio é um bom combustível para a escolha eleitoral, como aprendemos em 2018, mas não enche a barriga, não protege a sua vida nem a da sua família, não defende a democracia contra o autoritarismo, não garante justiça, respeito nem a possibilidade de uma vida em comum. E assim, maio de 2020 é o mês em que a ficha dos brasileiros finalmente cai, para além da bolha politizada dos progressistas. A constatação que se espalha contagiosamente nessa pandemia é que estamos desamparados. No momento em que mais precisamos de um líder inteligente, competente, com capacidade de liderança e trabalhando incansavelmente pelo país, o que encontramos é exatamente o oposto disto: um governo estúpido, incompetente, incapaz de liderar e que dedica energia apenas às pautas mais excêntricas, que nada têm a ver com as reais necessidades do país. 

Enfim, os brasileiros notaram que o governo está nu. Não, corrijo, que o governo é nu, pateticamente desprovido de recursos e forças capazes de tirar o país desta situação, um vazio de ideias úteis, um fiapo de autoridade moral, um nada quando despojado do agora já inútil discurso ideológico e fanático. Notaram que somos governados por um discurso, por umas encenações, umas frases de efeito, um espetáculo, sem energia, sem substância, sem matéria.

Nas últimas duas semanas, a desafeição por Bolsonaro como governante e o desgosto com o bolsonarismo como doutrina alcançaram um novo e influente conjunto da sociedade. Um curioso segmento que até então não se havia mobilizado para enfrentá-lo, seja porque a agenda dele se movia por outras prioridades, seja porque a enorme polarização política, que alcançou o seu máximo em 2019, havia se tornado uma perigosa armadilha para quem não retira da política o seu reconhecimento social ou o seu sustento. Refiro-me ao mundo dos influenciadores sociais, dos grandes monopólios de capital social, portanto, de reconhecimento e prestígio, no admirável mundo novo digital. 

Sim, senhores, tiozinhos e tiazinhas engajadas na política nacional, abram alas para Anitta, Felipe Neto e Whindersson Nunes, que uma nova força política entrou em campo. Os vídeos em que Anitta se instrui, com Gabriela Prioli e com Alexandre Molon, sobre o que é e como funciona a vida pública, são provavelmente o melhor curso fundamental de política que se poderia formular para a maioria dos brasileiros neste momento. Inclusive sem esconder as verdades sobre o que se passa no país sob o regime bizarro do bolsonarismo. O manifesto de Felipe Neto contra os avances autoritários de Bolsonaro, e a sua convocação dos influenciadores, celebridades e intelectuais públicos digitais para reagir ao perigo que isso representa para a democracia e a nossa vida, são provavelmente o material mais vigoroso de reação ao bolsonarismo produzido desde o início da pandemia. Por fim, a entrevista do mesmo Felipe Neto ao programa Roda Viva, um assombroso estouro de público e impacto, consolidou o youtuber com um dos mais potentes atores antibolsonaristas neste momento. 

Curiosa foi a reação de uma parte da esquerda e dos antibolsonaristas, que partiu ou para o ataque ou para a demarcação de quanto Felipe Neto e Anitta não os representam. Como assim? Se a esquerda ou os tiozinhos antibolsonaristas não gostam de Felipe Neto e de Anitta, há uma solução simples à disposição: fazer melhor que eles ou arranjar alguém que o faça. “Melhor” significa, inclusive, que tenha alcance semelhante em milhões, que ultrapasse a bolha da esquerda, que supere os filtros anti-PT e antiesquerda, e que tenham a mesma capilaridade. Passem em resenha toda a esquerda ou a reação progressista ao bolsonarismo (Lula, Ciro, Haddad, Flávio Dino e influenciadores digitais) e não vão encontrar quem chegue perto da influência, alcance e penetração de Felipe Neto e Anitta nas arenas digitais, que, admitamos, é onde o jogo da opinião política hoje é jogado.

Anitta tem 46 milhões de seguidores só no Instagram. Felipe Neto tem 38 milhões de inscritos no YouTube e 11,5 milhões no Twitter. Whindersson, que passou as duas últimas semanas alfinetando Bolsonaro, tem 33 milhões inscritos no seu canal no YouTube, mas, somando todos os que os fãs nas principais plataformas digitais, é acompanhado por mais de 73 milhões de pessoas. Acham pouco? Então pensem que Bolsonaro foi eleito por 57,7 milhões de votos e hoje deve ser ainda apoiado por algo que se estima em torno de 35 milhões de apoiadores ativos. Assim, quem é a esquerda ou até mesmo Bolsonaro na fila do pão para enfrentar esse novos jogadores se eles realmente entrarem em campo?  

A franja da esquerda ou dos progressistas que se dedica a queimar Felipe Neto subestima os filtros antipetistas e antiesquerda que as pessoas de fora da tribo ativam automaticamente quanto o tema é política ou governo, o que lhes impede de dar atenção ao que vem da esquerda ou que é expresso em esquerdês típico. Não deviam. 

O fato é que temos um cara que apoia ideias liberal-democratas e “normaliza” narrativas progressistas de forma que passem pelos filtros antipetistas e cheguem a públicos fora do alcance da esquerda. O que é mais produtivo fazer diante disso? Ver nele um aliado de uma frente ampla pela restauração de um regime político democrático e republicanamente virtuoso ou abrir fogo contra ele por não ser um representante da esquerda da sua imaginação? Pois eu acho que deveriam era levantar as mãos para os céus e agradecer que Felipe Neto, Anitta e Whindersson estejam do lado progressista da Força, que, neste momento, é o oposto de onde o bolsonarismo está. 

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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