Escapar
Olá, você do futuro.
O meu amigo Ferréz, escritor paulista, já há alguns anos vem começando os vídeos que posta no seu canal no YouTube com a pergunta: “Vocês estão escapando?” Em conversa presencial recente que tivemos em uma padaria localizada na privilegiada Zona Oeste de São Paulo, ele, que é da Zona Sul de São Paulo, do Capão Redondo, me disse que a dinâmica da violência estatal nas periferias impõe a elaboração de uma tecnologia de sobrevivência que os clientes presentes naquele momento naquele lugar (fico tentado a dizer o nome da padaria, mas não direi) jamais fariam ideia.
Dias antes, tomando café em outra típica padaria paulistana da privilegiada Zona Oeste com um grande amigo, cujo nome também não revelarei aqui – homem na faixa dos 65 anos, fenótipo mestiço, passável por branco, apesar da pele mais escura do que a minha, extremante culto, formado em psicologia e sociologia, proprietário de um pequeno imóvel localizado na privilegiada Zona Oeste de São Paulo, pessoa de grande influência na cultura brasileira da virada do século 20 para o século 21 –, que, neste ano em que o endividamento voltou a assombrar com carga máxima a população brasileira, encontrou no trabalho como motorista de aplicativo a única saída para conseguir pagar suas contas, seus empréstimos junto aos bancos, sua subsistência, me disse em detalhes de como tem sido a experiência de ter de recorrer a uma solução como a de trabalhar de motorista do Uber para escapar da derrocada na idade em que se encontra
São realidades diferentes as desses meus dois amigos, mas foram suficientes para despertarem em mim a vontade de voltar a refletir aqui sobre o escapar que tem sido objeto de minhas reflexões e da minha escrita seja ficcional, seja acadêmica ou ensaística.
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Já falei algumas vezes aqui, nesta coluna, que separação entre lei e violência é falsa, que – valendo-me das palavras do cientista político carioca Paulo Sérgio Pinheiro, no ensaio “Estado e terror”, presente na coletânea Ética, organizada pelo jornalista Adauto Novaes (Companhia das Letras, 2007) – “o monopólio legal, diante da ilegalidade da violência física que persiste, não extingue o terror do Estado” e que a manutenção da ordem social está no centro de um funcionar violento pelo qual se perpetuam políticas de conservação de instituições públicas comprometidas com a desigualdade social. A esse registro é preciso somar o endividamento, a sensação de angústia que o endividamento eterno produz e que toma conta do ambiente social e das relações nele desencadeadas.
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Como observou o economista brasiliense Mário Theodoro, em A sociedade desigual: racismo e branquitude na formação do Brasil (Zahar/Companhia das Letras, 2022), “A sociedade desigual é antes de tudo uma sociedade autoritária. Uma sociedade que se utiliza das forças de repressão para impor a ordem no estrito limite dos interesses de suas elites e garantindo a preservação e a reprodução da desigualdade. Desse ponto de vista, é uma sociedade violenta. Sendo uma sociedade racista, a violência se direciona privilegiadamente contra a população negra. De resto, quando de algum modo se posicionam de maneira contrária ao sistema, fora das fronteiras permitidas pela sociedade desigual, outros segmentos sociais passam a ser perseguidos e tratados como os negros”.
Nada menos do que brilhante essa lembrança: quando outros segmentos e status sociais se posicionam de maneira contrária ao sistema estabelecido no Brasil, são perseguidos e tratados como negros.
O sistema financeiro brasileiro, e o endividamento, só é possível em um país em que se prevalece uma ética escravista e desumanizadora – que trata a população, independente do fenótipo, como presenças que podem ser esmagadas e drenadas a ponto de permanecerem eternamente cativas à condição de pressionadas, como eram as pessoas escravizadas no século 19.
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Sobre o lado ostensivo do constrangimento que, por exemplo, em um ambiente de Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, em que todos os fenótipos sofrem, mesmo que em graus distintos, os impactos da violência estatal – combustível, ignição e oxigênio da concretização da ética da violência invasora, sobretudo para quem fica de fora do clube privê da elite –, são os versos do poema “Como diluir um pigmento histórico”, que se encontra no livro Aos outros só atiro meu corpo (Editora Urutau, 2019), da poeta carioca Maria Isabel Iorio. Nesses versos, a autora aborda e problematiza nossa trágica normalidade, desvelando o ideal escravista que condiciona o ler errado e o aderir ideologizado errado a uma inércia que busca o incessante desigualar: […] o guarda tava dando/ uma dura/ em dois garotos negros/ e falou pra gente se afastar porque/ a bala podia pegar/ na gente/ como se só a gente/ fosse// (eu viro um bicho com vontade de falar)// eles tão apertando/ a coagulação é/ um trabalho militar/ que mesmo à noite enxerga e procura sempre/ a mesma cor […].
O tentar escapar dessa ambiência em que são muito difíceis comportamentos éticos genuínos e o subsequente não conseguir escapar, gera contrapontos – como o que está poderosamente condensado (transfigurado) no seguinte trecho do rap Mágico de Oz, de Sobrevivendo no inferno (Cosa Nostra, 1997), do grupo de rap paulista Racionais MC’s: Se diz que moleque de rua rouba/ O governo, a polícia no Brasil, quem não rouba?/ Ele só não tem diploma pra roubar/ Ele não se esconde atrás de uma farda suja/ É tudo uma questão de reflexão, irmão/ É uma questão de pensar/ A polícia sempre dá o mal exemplo/ Lava minha rua de sangue, leva o ódio pra dentro/ Pra dentro de cada canto da cidade/ Pra cima dos quatro extremos da simplicidade/ A minha liberdade foi roubada/ Minha dignidade, violentada/ Que nada dos manos se ligar/ Parar de se matar […].
A pergunta que faço é: como aproveitar a força desses contrapontos para interferir positivamente na política e no direito.
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Para pessoas pressionadas, o Estado – por abarcá-las (e embarcá-las) como seres de existência inferior e por confiná-las em um território, uma ambiência estigmatizante, em que a suposta civilidade do direito liberal nem sequer existirá – faz prevalecer um estado de exceção, um medonho estado de natureza distante do que chamamos da dimensão da operação da lei em que – recorro aqui às palavras da filósofa fluminense Denise Ferreira da Silva, no seu Homo modernus (Cobogó, 2022) – “os aparelhos jurídicos considerados necessários pelos teóricos liberais para a proteção da vida e da liberdade não são aplicados”, à parte de toda a ilusão projetada pelo ideário liberal.
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Nesse contexto a Uber surge como uma falsa jangada, falso resgate (e falsa preparação); é uma canoa sempre furada, e sempre vazando, que impede o afogamento imediato e, por demandar constante retirada da água que se infiltra, projeta a sensação de que garantirá algum salvamento futuro enquanto houver energia física, e sorte, para conservar sua flutuação.
O medo de ousar um programa governamental que componha a esperança de um futuro além vai custar muito caro ao nosso país. Nossa ordem, nossa estabilidade crônica, baseada na ética escravista dos bancos, das plataformas etc. (veja o que escrevi no texto anterior), é parte de um prosseguir apocalíptico que corresponde à linguagem disso que venho chamando de ética da violência invasora. As campanhas eleitorais do pleito de 2026 já demonstram isso: tudo está sob as patas nada sensatas e nada justas do mercado. E só nos resta tentar escapar, já que lutar contra um Estado que é cada vez mais palco de corrupção e negociatas escancaradas e patrocínio da violentíssima ambição da elite senhora dos bancos e das terras (dos meios de comunicação e das armas) vem se tornando uma vereda impossível.
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Atingida pelo amortecimento dessa esperança liberal, está boa parte da classe média mais favorecida da Zona Oeste de São Paulo, que frequenta as suas incomparáveis padocas da região, que, mesmo supostamente mais bem instruída, frequentemente não consegue alcançar com nitidez o lado autodestrutivo de funcionamento do nosso modo político, jurídico e, sobretudo, econômico de existir como sociedade afetada por traumatismos nunca tratados, traumatismos que não propiciam outra saída que não a de continuar oprimindo e, assim, errando e errando e errando. Está, essa classe (que admite a reeleição de um governador estadual cuja única competência relevante é ser competente em parecer competente), ainda que seja um bloco não homogêneo, presa à convicção de ser autenticamente superior aos outros grupos, presa à ilusão de poder participar da determinação do destino desses outros grupos. Para ela, em seu sonho de poder ascender e se distinguir, a desigualdade e a discriminação são justas, são éticas, devem ser normalizadas. Os períodos eleitorais, embora haja exceções históricas, ranhuras esporádicas, sempre confirmam isso.
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A violência normalizada da qual as pessoas que moram no Capão Redondo, onde vive o escritor Ferréz, precisam escapar diariamente (e que sustenta a ética da violência invasora trabalhada em outros textos desta coluna), como fator de estabilidade conveniente à elite, exime essa elite de externar sua ambição e também sua necessidade de permanecer protegida e acima de todo o resto da população. Nessa solução, ela, a elite, é poupada do escrutínio de suas paixões, como é o caso da paixão pela desigualdade socioeconômica – como se sabe, uma ética autêntica é uma ética que consegue impedir o império de certas paixões, como a paixão do masculinismo, como a paixão do racismo, onde o essencial é o desprezo pela outra pessoa, um desprezo que justifica o ódio.
É, a propósito, de Ferréz a orelha do livro Parcelado: Dinâmicas de consumo na periferia (Fósforo, 2026), do geógrafo e professor paulista Kauê Lopes dos Santos, em que o autor entrevista moradoras e moradores dos bairros paulistanos Jardim Helena, Brasilândia e Jardim Ângela “para entender como o acesso ao crédito formal transformou o cotidiano da população de baixa renda, e de maioria negra, da maior metrópole do país” – nesta obra, há uma declaração de muita força feita por uma moradora que afirma: “A gente não trabalha mais só para viver, a gente trabalha para não afundar”. O autor, analisando os relatos tomados (veja-se o que foi dito no texto anterior desta coluna sobre escrita de si, literatura de testemunho e escrevivência), demonstra que “o crédito não é apenas um facilitador, mas um modo de gerir a escassez”, provando que “as populações das periferias se veem diante de um endividamento crônico, que se tornou uma regra alienadora de futuros”.
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Como bem disse o sociólogo e filósofo italiano Maurizio Lazzarato, no seu O governo do homem endividado (Editora n-1, 2017): “A forma da dívida contemporânea parece com a ‘absolvição aparente’ (passa-se de uma dívida para outra, contrai-se uma dívida e ela é reembolsada, e assim por diante!) e com a ‘protelação ilimitada’, onde se está endividado de maneira contínua e a dívida não é jamais (e não deve ser jamais) honrada, pois o crédito não é concedido para ser reembolsado, mas para estar em variação contínua”.
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O que tenho em comum com meus dois amigos com quem me encontrei para conversar e tomar café recentemente é que refutamos a ética neoliberal – é desse tipo de pragmatismo que minha reflexão se trata –, que refutamos o pensamento de que todo o mal está fora de nós e que a competição que elimina física e moralmente os inimigos-competidores é um critério de gerenciamento da escassez mais do que aceitável: desejável, mesmo que o futuro seja o terror.
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Estamos, de novo, em um dos momentos cíclicos mais relevante e críticos de nosso falhar civilizatório: o período eleitoral. É ingenuidade dizer que esperanças não são erigidas, novos horizontes não são desejados; é cinismo dizer que este precioso momento de estressar coletivo não é importante (não compreendo quem defende a anulação do voto). Nesse contexto, venho mantendo um diálogo bastante engajado com um grupo de intelectuais e ativistas que se reuniu e se uniu sob o slogan de Um outro congresso é possível – penso que não é possível descartar a política e aceitar que ela seja escravização – e venho aprendendo muito com o entusiasmo do grupo.
Diálogos que busquem mudar as estruturas socioeconômicas e políticas são formas de escapar, mas não só isso; penso que são maneiras de transformar canoas furadas (que sustentam e rebocam as caravelas invasoras dos bancos, e dos donos de tudo) em jangadas e, depois, em preparação (preparação que leve a uma ética que não seja apenas resignação). Algo que gosto de chamar, acima de tudo, de recalcitrar.
* Continua.




