Emily Dickinson: Imagem, Ritmo, Pensamento

Emily Dickinson: Imagem, Ritmo, Pensamento
Em Emily Dickinson, a síntese da imagem, do ritmo e do pensamento chega à apoteose (Foto: Reprodução)

 

Emily Dickinson está entre os poetas mais traduzidos da língua inglesa, depois de Shakespeare. Na França, por exemplo, é possível encontrar à venda, nas grandes livrarias, pelo menos três coletâneas assinadas por diferentes tradutores, além da poesia completa traduzida. Na Espanha, além das coletâneas, há três edições diferentes de sua poesia completa em circulação. Em língua portuguesa, ainda não temos nenhuma edição da poesia completa (como a que estamos fazendo, com previsão de lançamento em 2019), mas uma quantidade enorme e variada de traduções, publicadas separadamente ou em livro. Entre os ilustres tradutores da poesia de Emily Dickinson encontram­‑se Manuel Bandeira, Mário Faustino, e Augusto de Campos, que lhe dedicou um livreto. Em Portugal, foi traduzida por ninguém menos que Jorge de Sena e por Ana Luísa Amaral, que, em 2014, publicou uma excelente antologia de duzentos poemas.

A que se deve esse interesse tão variado e insistente em traduzir e retraduzir Emily Dickinson? Em outros termos, o que faz de Emily Dickinson uma autora sempre atual? Poder­‑se ia elencar várias explicações a essa pergunta, que vão da beleza sintética à riqueza temática (natureza, amor, metafísica etc.), passando por questões ligadas à modernidade e à escrita feminina (e, mais recentemente, homoafetiva). Não se deve descartar também que sua vida singular e enigmática a torna interessantíssima: viveu sempre na pequena cidade de Amherst (Massachusetts), não se casou, e jamais quis publicar os 1800 poemas que escreveu, e que gostava de mostrar a amigos e parentes apenas. Era o antimodelo do que se chama “vida literária”, e se interessava mais por seu jardim, e pelos pães que fazia, do que pela poesia. Várias biografias tentam dar conta de coisas que ela fez ou não fez, das relações amorosas que teve ou não teve (inclusive com a cunhada Susan). Muitas coisas jamais serão decifradas. Ainda assim, sua poesia continua sendo ardorosamente discutida e, principalmente lida.

Minha hipótese para tanto e renovado interesse é que os poemas de Emily Dickinson sintetizam os três elementos fundamentais da poesia, que tomo emprestados a Ezra Pound: imagem, ritmo e pensamento (fanopeia, melopeia, logopeia). A imagem apresenta­‑se, na poesia, de forma direta (um pássaro cantando, uma abelha se aproximando de uma flor) ou de forma indireta (linguagem figurativa); ela dá densidade e vida ao poema, circunscreve uma paisagem, define uma campo de visão, de espaço. A imagem “solda” o abstrato ao concreto. Se a imagem é espaço, o ritmo é tempo: insere as imagens num fluxo vivo, num andamento musical, sonoro. Juntamente com a imagem, o ritmo sustenta a materialidade do poema e de sua leitura, confere ao poema uma tonalidade afetiva, uma ambiência. Entre a imagem e o ritmo sustenta­‑se o bloco de sensações, de afectos e perceptos, se seguirmos Deleuze.

Os versos e estrofes de Emily Dickinson se sustentam sobre o common meter, no qual se alternam versos jâmbicos de oito e seis sílabas (algumas vezes de sete e seis). O uso extensivo do common meter diferencia Emily Dickinson de quase todos os seus contemporâneos (como Walt Whitman e Elizabeth Barret Browning), e aproxima muitas vezes sua poesia dos hinos religiosos e das canções populares (daí minha preferência pelas redondilhas, na tradução). Por outro lado, Dickinson alterna versos brancos com rimas, que, na maioria dos poemas (em cerca de 90% deles), ocorre no antepenúltimo e último versos. Seu jogo com as rimas é também complexo, inclusive lançando mão de sonoridades típicas do inglês falado na Nova Inglaterra (o que, também, a quase maioria dos tradutores ignora ou prefere esquecer).

Por fim, o pensamento. É preciso lembrar que Emily Dickinson foi uma aluna dedicada (estudou até o segundo ano do college), leu com afinco obras de filosofia, de ciências (particularmente de botânica), de história e geografia. Seu nexo filosófico mais claro é com o que se chama de American Transcendentalism: enraizados no idealismo alemão (Kant, Schleiermacher), e no Romantismo, mas também em tendências místicas, Emerson, Longfellow e Thoreau criaram um pensamento genuíno, capaz de conciliar a estética e a mística a uma forma de “ecologia” avant la lettre. Emerson e Thoreau estavam entre as leituras preferidas de Emily, e não é à toa que, em sua poesia, o pensamento gira em torno de uma reflexão sobre a natureza, sobre a eternidade, e sobre o próprio pensamento.

Enfim, em Emily Dickinson, imagem, ritmo e pensamento se conciliam, e se encontram com outra característica essencial da poesia, que Ezra Pound considerava a mais importante: a capacidade de síntese. De fato, os poemas de Emily Dickinson são, em sua maioria, muito breves, alguns chegando a dois versos apenas. Mas sua síntese é tão perfeita, que os poemas se parecem com pequenas esferas prismáticas, que pedem horas de reflexão. Na história da poesia, alguns poetas chegaram à perfeição, no domínio dessas três características: Shakespeare e Camões são insuperáveis no domínio do ritmo; Gôngora e Rimbaud sabiam tecer imagerias complexas em seus poemas, e sustentá-los apenas sobre uma imagens; Hölderlin, Rilke e Pessoa criaram uma poesia que é, ao mesmo tempo, uma filosofia, tal a força do encadeamento das ideias. Mas em Emily Dickinson, a síntese da imagem, do ritmo e do pensamento chega à apoteose.

As traduções que apresentamos aqui, tentam fazer jus a essa que é a característica inegável de sua poesia, e para a qual poucos tradutores atentam (exceção feita a Augusto de Campos e a Ana Luisa Amaral, que encontraram soluções instigantes, exatamente porque são bastante pessoais). Não se trata aqui de “transcriar” os poemas, mas de assumir que é preciso reescrevê­‑los. Para traduzir, é preciso, antes de mais nada, saber escrever, em condições análogas. Não é a letra que se deve respeitar. A tradução só é traição quando, sob o pretexto de “respeito ao original”, ela desconsidera a relação entre imagem, ritmo e pensamento. Assumo, pois, a persona de Emily Dickinson, e assino com ela, meu nome. Pois escrever é assinar: uma sign­‑natura, como quer Derrida.


[One Sister have I in our house]

Tenho uma Irmã em casa,
E outra, além da cerca.
Só uma tem certidão,
Mas as duas são minhas.

Uma é da mesma estrada –
E usa os meus roupões –
A outra fez um ninho
Pros nossos corações.

É ave de outro canto –
É outro o seu refrão –
Toca para si mesma,
Abelha de verão.

Brincamos na montanha –
Como se fosse a Infância –
Pego na mão dela –
Isso encurta a distância.

E ainda o seu zumbido,
Nesses anos todos,
Engana a Borboleta;
Ainda no seu Olho
Vive a Violeta –
Molda meios e maios –

Derramei o orvalho –
Mas salvei a manhã –
Escolhi a estrela cadente
No infinito da noite –
Susan – eternamente!

[A sepal – petal – and a thorn]

Sépala – pétala – espinho –
Manhã de verão – caminho –
Frasco de Orvalho – uma e outra Abelhas –
A Brisa brinca nas folhas –
E Eu sou uma Rosa!

[For each extatic instant]

Pra cada momento extático
Pagamos com angústia
Pesando desejo e temor
Até o êxtase.

Cada hora de amor
É um milagre – mas –
Juntamos cada centavo –
E pagamos com mil lágrimas.

[A slash of Blue]

Um tantinho de Azul –
Um pouco de Gris –
De escarlate – um triz –
Compõem um Céu Vespertino.

De púrpura – uma gota –
Uns Fiapos de Rubi –
Uma Onda de Ouro –
Do Dia – o matiz –
Basta pro Céu Matutino.

[All the letters I could write]

Posso te escrever mil cartas
Mas nenhuma como esta –
Sílabas de Veludo –
Orações de Pelúcia,
Abismos de Rubi – ingênuo,
Oculto, Lábio, pra Você –
Faz de conta um Beija­‑Flor –
Chupou­‑me – o doce.

[Each life converges to some Centre]

Toda Vida busca Centro –
Em parte expressa – ou quieta –
Há na Natureza Humana
Uma Meta –

Pouco aferrada – que seja –
Tão pura –
Que a presunção de Credibilidade
desfigura –

Tomar com cautela – Céu Frágil –
Alcançá­‑la
Seria ver a renda do Arco­‑íris
E tocá­‑la –

Mas perseverando – à Distância –
Ao léu –
Com a diligência lenta dos Santos –
No Céu –

Longe da Ventura da Vida –
De repente
A Eternidade desafia –
novamente –

[I asked no other thing]

Não pedi mais nada –
E nada mais – me foi negado –
Ofereci o Ser – em troca –
Ao Mercador – o Abastado –

Brasil? – o dedo no Botão –
Fingindo que não me via –
“Madame – leva outra coisa
Hoje – este aqui – seria?”

[It was too late for Man]

Tarde demais – para o Homem –
Mas cedo ainda – para Deus –
A Criação – não ajuda –
Mas a Reza – é conosco –

Quão aprazível o Céu –
Quando à Terra – dá­‑se adeus –
Agradável – então – o Rosto
Do Velho Vizinho – Deus.

[As if the Sea should part]

Se o Mar se partisse e
Mostrasse outro Mar e esse –
Outro – e após, um Terceiro –
Que fosse mera hipótese,
Um Mar de Mares – e Praias –
Nunca dantes visitadas –
Bordas de Mares sem fim –
A Eternidade – é assim –

[To wait an Hour – is long]

Uma Hora de espera – é tensa –
se o Amor já nasce distante –
a Eternidade – é um instante –
se o Amor é a recompensa –

[Forbidden Fruit a flavor has]

O sabor do Fruto Proibido
O ordeiro Pomar alicia –
Dentro da Vagem do Dever
A Ervilha é uma delícia –

[“Faith” is a fine invention]

A “Fé” é fina invenção
Se o Fidalgo toma ciência –
Mais prudente é o Microscópio
Em casos de Emergência!

TRADUÇÃO Adalberto Müller


> Assine a CULT digital e leia na íntegra todos os textos da edição 208

Deixe o seu comentário

Artigos Relacionados

TV Cult