Olhar higienista e classista da mídia turva discussão séria sobre drogas

Olhar higienista e classista da mídia turva discussão séria sobre drogas
Prefeito João Dória Jr (Arte Revista CULT | Foto @Jdoriajr)

 

A precariedade das redações dos veículos de comunicação hegemônicos tem facilitado a ação dos lobbies de informação de determinados órgãos de poder. Além disso, valores ideológicos compartilhados entre estas esferas de poder e os veículos de comunicação facilitam que as informações e versões dos fatos sistematizados de setores do poder não só se transformem  em pautas, mas sejam reproduzidos pelos veículos.

Isto aconteceu com a divulgação da decisão da prefeitura de São Paulo de acabar com o programa De Braços Abertos.  Este programa foi instituído pela gestão anterior, de Fernando Haddad (PT) e atendia os usuários de drogas (em especial de crack) em uma região no centro da cidade conhecida como cracolândia, fornecendo bolsas-trabalho e moradia e atendimento e acompanhamento. O De Braços Abertos  foi reconhecido internacionalmente como uma experiência exitosa dentro da perspectiva da redução de danos.

E é justamente a incompreensão desta perspectiva que motivou as críticas ao programa. Benedito Mariano, ex-coordenador do programa e atualmente ouvidor da Polícia de São Paulo, afirmou durante a campanha eleitoral de 2016, quando a proposta foi bombardeada por vários candidatos, que “a maioria das pessoas que são contra o programa são por ignorância, no sentido de que não conhecem o programa, e outros por uma visão muito conservadora, de preconceito com essa população vulnerável e que acham que não deve haver alternativa nenhuma, a não ser aquela que o estado sempre deu que é a repressão”. Ele acrescenta ainda que “se repressão resolvesse, nós não teríamos o fluxo ou a cracolândia, pois em quase três décadas, a repressão foi a política do estado com essa população”.

A ignorância de que fala Mariano se revela nos dados divergentes apresentados como resultado do programa. Em uma pesquisa realizada em 2016 com os participantes do programa, 88% afirmaram ter reduzido o uso de crack; 83% estão em tratamento de saúde; 53% recuperaram o contato familiar; 64% aderiram às frentes de trabalho; e 83% não possuíam documentação e tiraram após entrar no programa. E o custo do programa é considerado relativamente baixo: cada beneficiário custa aproximadamente 2.800 reais por mês (para comparar, o custo de um interno na Fundação Casa chega a 7 mil reais).

Porém, as matérias dos veículos de comunicação hegemônicos reproduziram os argumentos da atual gestão para acabar com o programa. O portal Estadão inicia uma matéria da seguinte forma:

“A Prefeitura de São Paulo vai acabar com a bolsa para usuários de drogas, que recebiam R$ 500 por mês em troca de serviços de varrição de ruas, reciclagem e jardinagem. A bolsa era vinculada ao programa de Braços Abertos, instituído pela gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT) para tratar dependentes químicos da região da cracolândia”.

Veja o reducionismo existente nesta abertura de matéria: o Programa todo foi reduzido a uma “bolsa para usuários de drogas”, reproduzindo a lógica da argumentação de campanha do atual prefeito de São Paulo. Em nenhum momento do texto em questão são apresentados os resultados do programa anterior, registrando apenas a avaliação da atual gestão de que o programa apresentou resultados inferiores ao esperado, como baixa frequência dos beneficiários, capacitação profissional reduzida e poucas colocações no mercado forma.

Exatamente a mesma matéria é publicada na revista Veja, de forma reduzida. A existência de somente falas oficiais é forte indício de se tratar de uma reprodução de release de assessoria de imprensa.

No caso da Folha de S.Paulo, o título da matéria é capcioso: “Dória encerra bolsa varrição criada por Haddad na cracolândia”, num nítido objetivo de fazer analogia aos programas de transferência de renda criados pela gestão do PT (o Bolsa Família) e, também, reduzindo o programa ao mero pagamento da bolsa. Nos parágrafos subsequentes ao lide, a matéria da Folha acrescenta, ainda, informações de que o programa está na perspectiva da redução de danos, que os usuários têm direito a moradia, entre outras coisas. E também informa que o fato do programa não exigir a abstinência das drogas (por estar na perspectiva da “redução de danos”) é alvo de críticas.

Apesar de apontar o centro da divergência, o restante da matéria da Folha de S.Paulo claramente não dá voz à perspectiva da redução de danos. Os argumentos elencados por Benedito Mariano, por exemplo, não constam. O centro da matéria é a inserção no mercado profissional (ou seja, exatamente a mesma coisa que a visão da prefeitura atual). O texto usa uma fala da entidade que gerencia o Braços Abertos justamente para legitimar este pretenso “fracasso”:

De acordo com a Adesaf (Associação de Desenvolvimento Econômico e Social às Famílias), gestora do contrato com a prefeitura para a política de trabalho do Braços Abertos, dos 63 beneficiários que foram convocados para participar do programa Trabalho Novo, apenas 11 foram escolhidos para processos de seleção. Dos quatro contratados, nenhum passou no período de experiência. ‘A maioria não tem o padrão exigido’, diz Fernanda Gouveia, diretora da Adesaf”.

As convergências ideológicas dos veículos de comunicação e a prefeitura de São Paulo quanto a este problema são óbvias:

  1. Um desejo de acabar o mais depressa possível com aquela situação e, por isto, má vontade com programas que pensem em processos mais longos, que não resolvem de imediato e apontam que haverá um tempo de convivência com pessoas “indesejáveis” como usuários de drogas na região central (e perto da redação da Folha de S.Paulo).
  2. Enxergar não só o fim da prática do uso de drogas por parte destas pessoas mas a sua inclusão no mercado formal de trabalho e, ainda mais, responsabilizá-los pela eventual não absorção. Interessante que ao afirmar que o programa fracassou porque as pessoas não entraram no mercado, em nenhum momento é lembrado que o país passa por uma crise e também por altas taxas de desemprego.
  3. E tais convergências entre os jornais e a prefeitura não ocorrem apenas por afinidades político-ideológicas. São também afinidades classistas. A cracolândia incomoda porque está no centro e, portanto, à vista de muitas pessoas de classe média (perfil dos jornalistas e do público dos veículos aqui analisados). Por trás de toda a “argumentação” está o desejo inconsciente de mandar o indesejável (pessoas e seus comportamentos) para longe. E talvez também este seja o motivo de em nenhuma das reportagens os beneficiários do programa tenham sido ouvidos.

O olhar higienista que trata o problema das drogas de forma seletiva – quando ocorre em escala nas regiões centrais e é praticado por pessoas muito pobres – unifica discursos de segmentos conservadores e da mídia hegemônica. E uma questão séria como este acaba sendo discutido de uma forma superficial e leviana.

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