É apocalipse, é todo dia, mas é lindo

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É apocalipse, é todo dia, mas é lindo
O escritor Ney Anderson, autor de Apocalipse todo dia (Ray Evllyn)
  É necessário certo preparo para mergulhar no Recife de Ney Anderson, nos contos de Apocalipse todo dia, publicado recentemente pela editora Patuá. Porque como diz o autor em uma das histórias, sempre muito breves, nada representa mais a capital pernambucana do que o homem esfarrapado. Estudei em São Paulo, no Colégio Dante Alighieri; habituei-me, então, a dar de cara diariamente com uma das epígrafes encontradas em Apocalipse todo dia: “Deixai toda esperança, vós que entrais!”, verso do gênio italiano. Expor a um menino, chegando para assistir a aulas, a célebre inscrição da porta do inferno, que aparece no “Canto III” da Divina comédia, não era lá grande incentivo. Talvez por isso minhas relações com a escola nunca tenham sido muito dóceis. Sobrou mesmo apenas o prazer da leitura. Anderson nos traz a cidade grande, violenta, distópica, o mundo que Chico Science descreveu na canção “A cidade”: “Num dia de sol Recife acordou com a mesma fedentina do dia anterior”, outra das epígrafes. Aliás, a cena cultural da capital do Nordeste circula pelo mundo exposto nas páginas da coletânea. O manguebeat, Gilberto Freyre e a lenda do folclore presente em Casa-grande & senzala, o papa-figo, lobisomem da cidade, ou o homem do saco, que raptava crianças e devorava o fígado delas. O ginásio Geraldão. A música está nas ruas, a voz brega de Reginaldo Rossi surge em alto-falantes nas calçadas: “Nesse corpo meigo e tão pequeno/ Há uma espécie de veneno/ Bem gostoso de provar” – junto com o calor sufocante, a p

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