A dramaturgia fora de lugar
André Gouveia na peça Os fuzis da sra. Carrar, encenada pelo Teatro dos Universitários de São Paulo em 1968 (Victor Knoll/Acervo Flávio Império)
A obra e a atitude crítica de Roberto Schwarz estão atravessadas por uma teatralidade muito própria e incomum. Já se viu nele a influência do trabalho de Bertolt Brecht, dramaturgo alemão que imaginou um teatro para “demolir ideologias” com base num “efeito de estranhamento” – uma “estrangeirização” do olhar em relação aos comportamentos sociais. O estranhamento de Brecht é uma proposta de trânsito entre palco e plateia. Ele estimula a pergunta historicizante, as dúvidas do espectador sobre as causas do ocorrido, e convoca o público a imaginar possibilidades alternativas de acontecimento e de imagem. Se de fato existe essa orientação dialética, visível também no gosto pela ironia e na escrita “mundana”, são vários os “Brechts” na obra de Roberto, ele próprio um dramaturgo brilhante e profundamente interessado na existência social no Brasil.
Tive contato com essa dimensão do crítico quando, numa palestra, após a leitura de sua tradução da peça Santa Joana dos Matadouros pela Companhia do Latão, Roberto escolheu discutir as razões pelas quais a obra de “Brecht perdeu a atualidade” em face de um capitalismo que não esconde mais os interesses econômicos com a máscara humanista e pratica o cinismo mais cru, a ponto de acuar a esquerda no campo do idealismo democrático. O palestrante-dramaturgo convidava o público a estranhar sua fala, a pensar alternativas em relação a uma “cena da luta de classes” que precisa se reinventar.
Ainda que eu não concorde com a redução do efeito de estranhamento a
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