Dossiê | Sonhos aprisionados

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Dossiê | Sonhos aprisionados
(Ilustração: Marcia Tiburi)

 

Os artigos do dossiê Sonhos aprisionados são o primeiro material de análise publicado a respeito da pesquisa Sonhos confinados em tempos de pandemia, que recebeu, entre abril e outubro de 2020, mais de 1.500 sonhos relatados por meio das redes sociais, vindos de várias regiões do país e alguns do exterior. O estudo é coordenado pelos psicanalistas e professores doutores Rose Gurski e Cláudia Maria Perrone (Nuppec/UFRGS), Miriam Debieux Rosa (Psopol/USP), Christian Dunker (latesfip/USP) e Gilson Iannini (Departamento de Psicologia/UFMG), com a participação de Carla Rodrigues (UFRJ) e de vários colaboradores, entre eles equipes compostas por bolsistas de iniciação científica, mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos, somando cerca de 80 pesquisadores. A publicação do primeiro livro sobre a pesquisa, com o título Sonhos confinados, está prevista para este primeiro semestre de 2021, pela editora Autêntica.   

Segundo Rose Gurski, “os núcleos e laboratórios envolvidos vêm buscando a construção de modos de levar a escuta psicanalítica, tradicionalmente marcada pela experiência em clínica privada, para outros espaços das cidades, aproximando a universidade das demandas da sociedade”.

A pesquisa se originou de um estudo conjunto da UFRS e da USP em 2019 que tinha a finalidade de construir o conceito de oniropolítica. Em março de 2020, com a chegada da Covid-19 e do isolamento social, o trabalho se juntou à pesquisa Sonhos confinados (UFMG e UFRJ). Dessa articulação, resultou Sonhos confinados em tempos de pandemia.

“Nosso interesse pelos sonhos, em 2019, foi provocado pelo clima de polarização crescente na sociedade e pelo empobrecimento do livre pensar”, diz Gurski. “Buscamos, por meio de nosso trabalho com o sonho e o despertar, a criação de  uma oniropolítica, que seria uma possibilidade de abrir brechas no discurso totalitário, religioso e hermético da atualidade. Importa dizer que se trata de pensar a função coletiva do sonho e do sonhar.” Uma inspiração importante para o estudo foi o livro Sonhos no Terceiro Reich, da jornalista alemã Charlotte Beradt, como exposto em dois artigos do dossiê. “O livro de Beradt nos mostrou que a luta social e política é travada não apenas na arena pública, mas também no espaço mais íntimo de cada sujeito, no inconsciente”, diz Gurski. 

Leia, abaixo, o texto de apresentação de Gilson Iannini, organizador deste dossiê.


Abruptamente, e sem que soubéssemos exatamente por quê, começamos a sonhar mais e de forma mais intensa. Ou estaríamos nos lembrando mais de nossos sonhos? Não era real, não era real! Era real demais! Acordei assustada, demorei a dormir… Não costumo me lembrar de meus sonhos, estou estranhando minha própria maneira de sonhar. De uma hora para a outra, estávamos falando de nossos sonhos nas redes sociais, e pipocavam pesquisas e matérias sobre sonhos. Como se o sonho tivesse, de repente, acordado. Estávamos todos dormindo?

Na ressaca do Carnaval de 2020, a pandemia que parecia tão distante, tão improvável, tão impalpável, de repente invadia nossa intimidade. Incrédulos e desnorteados, fomos apresentados a uma realidade que parecia ficcional: quarentena, isolamento, máscaras, álcool em gel, ruas vazias, grupos de risco… Nada disso poderia ter sido antecipado algumas poucas semanas antes. Como uma faca afiada, a chegada da pandemia da Covid-19 dividiu o século. Trata-se de um acontecimento, um acontecimento traumático, tanto para os indivíduos como para a coletividade. Finalmente, estamos no século 21, e no desconhecido que ele nos lança. 

Tudo isso poderia ter sido apenas um sonho ruim, desses que, depois de algumas horas, acabamos esquecendo, caso não houvesse ninguém ali para registrar, para testemunhar, para escutar. Mas o que é um psicanalista senão alguém treinado na arte da escuta? 

Foi assim que surgiram, espontaneamente, diferentes iniciativas de grupos de psicanalistas para coletar, registrar e escutar esses sonhos em tempos de pandemia. De Norte a Sul, estávamos atentos ao que se passava. Tudo somado, nos chegaram em poucos meses cerca de 1.500 sonhos, incluindo relatos, lembranças e associações, além de outros dados demográficos. Várias equipes se puseram também a escutar, individualmente, aqueles que se sentiam mais angustiados ou que, simplesmente, queriam ser escutados. Essas diferentes pesquisas foram reunidas  sob a rubrica Sonhos confinados em tempos de pandemia, que, como primeiro resultado, constituiu um acervo, um arquivo que testemunha um momento traumático – subjetiva e socialmente – de nossa experiência histórica. Um riquíssimo acervo a ser explorado nos próximos anos. 

Este dossiê é um primeiro retrato, um instantâneo dessa pesquisa. Uma espécie de ontologia do tempo presente, do ponto de vista psicanalítico. 

O sonho, dizia Sigmund Freud, é a via régia para o inconsciente. E o que os sonhos em tempos de pandemia nos mostram? “Aqui, na noite de 24 de julho de 1895, o mistério dos sonhos foi revelado ao dr. Sigmund Freud.” Essa é a frase escrita na placa memorial instalada em Grinzing, na Áustria, que remete ao sonho inaugural da psicanálise: o “sonho da injeção de Irma”. Com a publicação de A interpretação dos sonhos, em 1900, os processos oníricos receberam um novo estatuto. Por trás de imagens absurdas, associações incongruentes e situações, personagens e lugares aparentemente sem sentido, Freud descobriu a lógica do pensamento inconsciente. Com isso, retirou o desejo das brumas do inefável, do incognoscível, e o devolveu à trama das experiências contingentes da vida de um sujeito. 

Grosso modo, a consciência vigora ou pretende vigorar em nossa vida de vigília. Contudo, embora seja um processo extremamente complexo, que não entendemos ainda, a consciência é apenas uma camada, uma parte limitada de nossa experiência, mesmo na vigília. Muito do que percebemos durante o dia não é processado ou elaborado pela consciência. O que não quer dizer que esses processos psíquicos não deixem rastros, em memórias, digamos assim, não conscientes. Esse é um sentido lato de inconsciente, mas que tem um papel importante nos sonhos. Em nossos sonhos, esse material, que Freud chamava de “restos diurnos”, é processado, elaborado. O inconsciente, no sentido estritamente psicanalítico do termo, processa, encena e associa, em suma, trabalha. Conecta esses restos diurnos com nossos desejos recalcados e, portanto, com nossa história singular. 

Mas o estatuto do inconsciente é de uma instância intrapsíquica, isolada do contexto sócio-histórico que a produz? Embora seja assim que certa doxa perceba a psicanálise, essa apreensão distancia-se da experiência freudiana. A concepção de sujeito para a psicanálise nunca se confundiu com a noção de indivíduo com uma interioridade fechada em si mesma. O sujeito da psicanálise se situa na fronteira entre a psicologia individual e a social. Isso quer dizer que o inconsciente — aquele trabalhador que não julga, não pensa e não descansa — trabalha conteúdos, impressões, intuições e percepções que nossa consciência não processa, não admite e não reconhece. Os sonhos funcionam como uma espécie de radar capaz de apreender com mais agudeza aquilo que parece recalcado ou não dito em nossa experiência social compartilhada. Seguindo hipótese do psicanalista Christian Dunker, os sonhos ressoam e testemunham como a falta de sentido experimentada na vida social ordinária é tratada pela falta de sentido dos sonhos, cumprindo uma função protetora, ainda que às vezes desagradável, e de elaboração de algo que escapa às nossas representações.

No dossiê a seguir, examinamos algumas facetas do imenso arquivo onírico de Sonhos confinados em tempos de pandemia, cuja relevância salta aos olhos. Aliás, a própria tendência à “normalização” da atividade onírica (a certa altura, passamos a sonhar mais ou menos como antes), observada alguns meses depois do início da pandemia, confirma como o aspecto traumático desse acontecimento culminou com uma exigência suplementar de trabalho psíquico de que os sonhos confinados são testemunha.

GILSON IANNINI é professor do Departamento de Psicologia da UFMG e editor da coleção Obras incompletas de Sigmund Freud (Autêntica).


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