Dois poemas
Edição do mês
‘Silêncio’ (1911), de Odilon Redon (The Metropolitan Museum of Art)
Enquanto leio Herberto Helder,
… o mundo nos atravessa com
notícias trágicas
e uma agenda
arbitrária e fúnebre.
Do fundo desta noite
de horrores
colho o inevitável;
nessas horas espúrias
povoadas de serpentes,
contabilizo as cifras
de um tempo
em que tudo parece
caducar,
menos a barbárie.
E enquanto
as certezas naufragam,
leio Herberto Helder,
percorro a verdade voraz de sua poesia
que, em toda sua nudez
e clarividência,
apunhala-me com
a denúncia:
não há subterfúgios
para se chegar ileso
ao amanhã,
não há recuos
neste Planeta
abarrotado de indigências.
Silêncio
Não há perguntas. Selvagem
o silêncio cresce, difícil.
Orides Fontela
Impalpável e pesado,
não escapamos aos seus
gumes de aço:
em suas raízes
inumerável é a floração de tragédias.
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Ronaldo Cagiano é autor de Dezembro indigesto Secretaria do Estado de Cultura do DF, 2002, vencedor do Prêmio Brasília de Produção Literária; Dicionário de pequenas solidões (Língua Geral, 2006); Eles não moram mais aqui (Patuá, 2018); Arsenal de vertigens (Letra Selvagem, 2024), entre outros livros





