Disfarce
Edição do mês
(Ponte Da Boa Vista, Recife, Década De 1880. Fotografia De Moritz Lamberg)
A perna cabeluda saltita nas ruas do Recife.
Flutua pelo rio Capibaribe, flana pelo Marco Zero, encontra um café para repousar o seu único e custoso membro.
De salto em salto, chega a Boa Vista.
Na rua da Glória, avista a Confeitaria.
Num círculo de aposentados, cansados de boas viagens, encontra o seu lugar.
Dobra-se rangendo, ocupa uma cadeira, atrai olhares, mas ali fica.
De papo em papo, de café em café, apazigua-se dos tempos em que sua presença causava furor e confusão.
Agora que pertence ao mundo, resta apenas aceitar a cafonice e a falta de tudo.
Outrora era sangue, tapas e tiros.
Ali mesmo, João Dantas matou João Pessoa.
Anaíde se ria – saia rodada, cabelo curto e ideias moderníssimas.
Foi mesmo ciúme.
Ela, a perna, já a tudo assistira.
Desprovida de corpo, desprovida de membros, desprovida do que quer que pudesse formar conjunto.
***
No um, no dois, no três.
Sorriam!
Dentes expostos grudados em caras exaustas, e, logo ao lado, no canto da foto, ela: sim,
a PEEEERNA CABELUDA, lenda urbana das boas, de carne e osso, saída da boca de tubarão, sobrevivente das ressacas, lembradora de História.
Em frente – a perna cabeluda, vai pro Pina.
Segue saltitante, esmagando peixe, se salgando de mar.
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Raquel Camargo é tradutora, pesquisadora e editora na Editora 34. É doutora em letras pela USP, com estágio doutoral na Sorbonne Université





