O Coelho Branco e o delírio cronologista

O Coelho Branco e o delírio cronologista
Ilustração de John Tenniel para a obra ‘Alice no país das maravilhas’ (Arte Andreia Freire)
  Em uma época de hiperprodutividade e hiperconsumo não é incomum encontrar pessoas que vivem com pressa. A pressa, afirmada na expressão “correria”, é uma espécie de desordem do tempo. Hoje, quem perguntar ou for perguntado acerca de como vai a vida, responderá com frequência usando essa expressão coloquial. O tempo, por sua vez, é uma dimensão da experiência. Que tantas pessoas afirmem estar “na correria” não implica apenas a condição de um atraso eminente, mas uma verdadeira transformação dessa dimensão. Ora, não dizemos simplesmente que estamos apressados, mas que estamos “na correria” e esse “estar” modifica por completo nossa relação com a vida. Podemos dizer que se trata de um simples discurso. Mas que tenhamos sido dominados por ele não apenas nos fornece uma explicação à sensação do atraso, antes legitima um modo de viver. Esse modo de viver implica uma direção. Estamos indo para algum lugar. Não sabemos bem que lugar é esse que exige de nós tanta velocidade. Agimos de um determinado modo sempre mediados por essa verdade, por essa espécie de regra de direcionamento. Nela está implicada a condição de um tempo contra o qual corremos, contra o qual movemos os nossos corpos. Temos uma expressão popular que nos fornece a lógica desse processo em uma outra chave: “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Ou seja, em relação a esse bicho não há saída. A exigência é de movimento sem que saibamos para onde vamos, o único rumo certo é o da fuga de algum monstro. E, no entanto, é imp

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