A delícia dolorida de Cantagalo

A delícia dolorida de Cantagalo
Fernanda Teixeira, autora de Cantagalo (Thiago Pompeia/Divulgação)
  Tomara que haja um cantinho no paraíso para os autores dos grandes novelões, aquele tipo de livro que obriga a resenhista a rabiscar um organograma a fim de dar conta das conexões entre personagens, tempos, lugares. Mas não é só a amplitude narrativa que deve garantir a bem-aventurança: esta cabe apenas aos escritores que levam o leitor de verdade a virar página após página sem parar para fazer rabisco nenhum. Nesse paraíso, Fernanda Teixeira Ribeiro garantiu sua vaga ao encontrar a forma literária adequada para recontar um momento-chave da formação da sociedade brasileira. Conjugar os dois aspectos de forma orgânica, com política e estética afetando uma à outra produtivamente, é um feito enorme, considerando-se que Cantagalo, esse novelão delicioso, é seu primeiro romance publicado. Cantagalo é uma delícia dolorida, porém. Na fazenda de café que dá título ao livro, desenrolam-se relações injustas e violentas. Estamos no oeste mineiro do início do século 20, e a protagonista, Praxedes Lima, filha do antigo barão, é proprietária do lugar e o centro de gravidade do enredo. É também inteligente, severa, cruel, frágil e até engraçada, uma mistura de qualificativos que mostra como Ribeiro não aposta em esquemas óbvios. Teríamos, na sociedade patriarcal e racista do Brasil pós-abolição, um prato cheio para uma história de vilões e vítimas, mocinhas e aproveitadores. O que vemos, contudo, são personagens que, em seus modos singulares, encontram caminhos possíveis para afirmar seu “querer viver apesar de tudo”

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