Correspondência entre ausentes

Correspondência entre ausentes (Arte Andreia Freire)
Uma viagem ao Festival Internacional de Poesia de Granada, na Nicarágua   São Paulo, 12 de março de 2017 Querido Hiroshima, Há dias tento fazer vingar esta carta, mas desde que voltei parece difícil sentar e escrever algo coerente. Uma viagem em que se aposta a vida e a poesia pode nos colocar fora do eixo de rotação, e como você bem sabe nunca há advertências sobre este tipo de risco. A verdade é que só após a retomada das aulas e o sonho aquático é que pude afunilar vivências e lembranças numa tentativa de texto. Já dizia Zbigniew Herbert, “vivemos na cama estreita da nossa carne”, “vivemos só a inesperada reviravolta” dela, “sem interrupções”. O texto, enfim, uma tentativa, uma sutura para o rasgo desta cama estreita. É quase meia-noite por aqui, finalmente há silêncio. A lua chegou à máxima potência do seu esplendor de plenitude. Nas redondezas que alcançam meus olhos, uma só janela mantém sua luz acesa. Eu, ela e a lua em vigília. Fico imaginando Simón Díaz compondo Tonada de luna llena ou, num salto ainda mais improvável, Leopardi escrevendo Canto di un pastore errante dell’Asia: “dimmi: ove tende/ questo vagar mio breve,/ il tuo corso immortale?” Eu, minúscula, sem mérito nem louvor, só preciso escrever esta carta e, ainda assim, parece custar-me a vida. Vou me perdendo e fugindo do que devo fazer, os pensamentos não respeitam hierarquia alguma. Impera a anarquia das associações livres: devo contar sobre o festival de poesia em Granada, na Nicarágua, e me lembro dos versos de Wislawa S

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