Cannes 2026, dia 3: “Histoires parallèles” e “Soudain”
Histoires parallèles, do iraniano Asghar Farhadi, é um exemplo elucidativo sobre o quanto um filme pode dar errado quando um diretor trabalha com um material que escapa à sua zona de segurança estética. É um filme tão hesitante, desnecessariamente irrequieto e sem unidade que o cineasta deveria ter percebido de antemão que não conseguiria dar um formato acabado à sua história – que, por si só, já não era exatamente um material dos mais fáceis e que precisaria de um severo polimento antes de ir parar na tela grande.
Começa mostrando uma escritora, Sylvie, que procura nos vizinhos do apartamento de frente ao dela inspiração para escrever seu novo romance. Ela até utiliza alguns dos fatos que vê de camarote, usando binóculos da sala de sua casa, mas a movimentação do lar do outro lado da rua é, em geral, apenas um ponto de partida para ela dar asas à imaginação, inventando personagens e tramas que não necessariamente tenham relação com a realidade do apartamento vizinho.
Sylvie é uma mulher que vive enfurnada em casa e começa a perder conexão com o mundo real, e isso se faz notar em sua literatura, que parece defasada e com personagens que agem de maneira por demais irrealista e romantizada. Ela também tem problemas para cuidar de si mesma e da própria casa, e uma sobrinha a faz aceitar receber no apartamento um rapaz desempregado, que a ajudará em seu dia a dia em troca de um canto para dormir.
O tal rapaz fica sabendo do fascínio de Sylvie pelos vizinhos, e ele próprio se mete a investigar até que ponto a imaginação da escritora faz sentido, entrando em contato com a moça que inspira a protagonista do livro. A partir daí, uma série de situações desencadeadas pela ciência dessa mulher de que estava sendo espionada gera um novelo de novas situações rocambolescas, que poderiam fazer parte do livro irrealista e ultrapassado da escritora.
Farhadi se especializou em filmes que envolvem grandes impasses morais, e, com o tempo, esses dilemas se tornaram a própria alma de sua obra. Sem eles, o diretor parece sempre caminhar na corda bamba, desorientado – e, na falta de ter em que se escorar, acaba se segurando no sentimentalismo das situações, tratando-as de maneira pouco cautelosa. Em suas mãos, o melodrama tem sérias propensões a se tornar um dramalhão.
Histoires parallèles em vários momentos recai em um tipo de melosidade que o afasta de onde o roteiro provavelmente indicava que ele deveria se manter: no campo do lirismo e da tensão. Era nesse terreno que transitava o tempo todo o filme que teria inspirado o roteiro, o formidável Não amarás (1988), de Krzysztof Kieślowski. Mas Farhadi não é um diretor de destacada sensibilidade poética; sua força está sobretudo na aspereza do mundo real, que é o que o impede de recair nos sentimentos mais baratos em seus filmes mais celebrados.
Sim: mesmo esses seus grandes filmes sobre decisões éticas são, também, obras de sentimentalismo barato, mas o tom naturalista muitas vezes escamoteia essas características, e suas obras passam por equilibradas em tom e emotividade (talvez por isso ele tenha ganhado dois Oscars). Mas, quando precisa sair do registro mais cotidiano, seu cinema sai de controle, e suas obras se tornam desformatadas e, não raro, um bocado ridículas.
Isabelle Huppert é sempre capaz de operar milagres, mas desta vez nem ela conseguiu fazer muita coisa no ingrato papel da escritora. Ela, na verdade, não é a protagonista – o real enredo gira em torno da vizinha da frente, vivida com sabedoria por Virginie Efira, e o jovem delinquente que ela abriga em casa, interpretado com algum charme, mas sem grande precisão dramática, por Adam Bessa. Um breve instante de arejamento e frescor aparece quando Catherine Deneuve entra em cena, em uma ponta no papel da editora de Sylvie, que não consegue levar a sério a baboseira que ela lhe apresenta como projeto de livro. Talvez por saber que ela tem razão, a personagem é a única com quem o público tem real afinidade em algum momento. Os demais, em seu drama de literatura de segunda linha, não passam de figuras irrelevantes e esquecíveis.
Virginie Efira, aliás, também protagoniza o outro longa na disputa, apresentado nesta sexta. Mas Soudain, do japonês Ryusuke Hamaguchi, não poderia ser mais diferente da obra de Farhadi.
Aliás, o filme é diferente de praticamente qualquer outro, e é preciso tirar o chapéu para um cineasta quando ele se propõe a apostar tão alto em uma ideia para torná-la um filme comercial. Ainda que Soudain tenha tanta coisa discutível – quando não reprovável –, é uma alegria que exista um diretor aberto a tal nível de audácia estética.
O filme se passa em uma clínica de idosos, comandada pela solitária Marie-Lou (Efira). Ali, os internos são submetidos a uma filosofia de cuidados chamada Humanitude, cujo princípio de ação se dá em uma relação mais humana entre paciente e cuidador. Mas a burocracia e as dificuldades de levantar dinheiro para bancar esse tratamento levam Marie-Lou à beira de uma estafa, e é procurando desanuviar que ela vai assistir a uma peça teatral que versa sobre sanidade e loucura.
Tocada pelo espetáculo, ela inicia uma longa conversa com a diretora, Mari, uma japonesa que sofre com um câncer em estágio avançado, mas que ainda tem energia para viver e ajudar pessoas que precisam de força para seguir adiante. A interlocução entre Marie-Lou e Mari entra noite adentro, e aí o filme inicia um caminho até então imprevisto, com foco na relação entre essas duas mulheres que não se conheciam, mas que pareciam estar à espera de se encontrar; mais que uma reunião entre duas pessoas com afinidades, trata-se de um encontro de almas que se complementam.
Durante a longuíssima conversa entre as duas, por quase 50% do tempo Marie-Lou se esforça para explicar as benesses do método Humanitude, e a outra metade é praticamente um monólogo da japonesa a respeito do quanto o capitalismo por vezes se mascara e nos faz agir dentro de suas regras, mesmo quando achamos que talvez o estejamos ludibriando.
Descrito assim, parece insuportável, mas o fato é que, enquanto as duas se falam, emana entre elas uma troca de energia muito especial, que só um diretor de grande envergadura poderia alcançar. A priori, parece até ser de natureza sexual, e o espectador se prepara para o momento em que uma das duas vai dar o bote. Mas isso deixa de importar com o tempo. Porém, surge a dúvida: o palavrório todo sobre a Humanitude e o capitalismo é um artifício do roteiro usado para fazer o flerte acontecer? Ou seria o flerte em potencial um artifício para o cineasta expor ao espectador suas convicções pessoais sobre tratamento de idosos e economia política? As coisas nunca ficam muito claras, e, como não há uma defesa de uma atitude perante a vida, mas sim a de um programa com regras definidas para o tratamento de idosos (ao que parece, o tal método existe mesmo na vida real), fica sempre a impressão de que o que Hamaguchi faz ali se caracteriza antes como propaganda de um método de cuidado de idosos discutível, que por algum motivo o fascinou.
Seja como for, no que tange à relação entre as duas mulheres, o que o filme consegue não é em nada desprezível – ao contrário: é um dos poucos longas em que o interesse e a admiração de uma pessoa por outra não se bastam em uma conotação expressamente sexual, ampliando-se sobretudo para o nível da admiração intelectual e do sentimento de afeto. O encantamento repentino que se sente por alguém, que faz com que a pessoa pareça levitar e se desinteresse por qualquer outra coisa que não seja quem acabou de conhecer, é amor, sim, mas não necessariamente carnal, nos diz o filme. Pode ser também amizade. Ou seja lá que nome se queira dar.
O filme se torna tão satisfatório e bem dominado quando essas duas mulheres estão em interação que o espectador se esquece de qualquer outro problema, e, se tudo terminasse ali, talvez Soudain fosse tido majoritariamente como uma obra-prima. Mas Hamaguchi não se controla e prolonga o filme em mais uma hora – e lá volta ele de novo com cenas no centro de cuidado de idosos, novamente em sua defesa do tal tratamento Humanitude: a magnífica conquista que havia realizado na exploração da relação entre Marie-Lou e Mari é quase posta a perder. Ainda assim, o filme tem muita força e certamente há de ter admiradores exaltados – é provável que muitas pessoas tenham suas vidas mudadas após vê-lo. A despeito de seus defeitos, Soudain é um filme de fato admirável.





