Bê-a-bá foucaultiano
Edição do mês
A
ARQUEOLOGIA / GENEALOGIA
Enquanto a arqueologia perguntava como determinados saberes foram constituídos, a genealogia perguntava por que tais saberes puderam aparecer. No primeiro caso, tratava-se de analisar as “formações discursivas”; no segundo, de compreender as relações entre saber e poder.
ARQUIVO
Utilizado em A arqueologia do saber (1969), o termo designa a coleção de todos os traços materiais de uma dada cultura ou de um dado período histórico. Ao examinar esses traços, pode-se deduzir o “a priori histórico” ou a “epistema” desse período.
B
BIOPODER
Para o filósofo, trata-se de uma tecnologia que surgiu no fim do século 18 para administrar as populações. Incorporando elementos do “poder disciplinar”, o biopoder diz respeito ao controle de nascimentos, mortes, reprodução e enfermidades de uma dada população.
C
CORPO
Foucault é particularmente preocupado com as relações entre corpo e poder político. Descreve vários modos de disciplinar o corpo para torná-lo economicamente útil e politicamente dócil. A prisão seria o modelo exemplar desse processo, constituindo-se na matriz das outras instituições disciplinares: a escola, o quartel e o hospital.
CUIDADO DE SI
Cuidado de si se refere ao modo como as práticas ascéticas desenvolvidas a partir do período helenístico dizem respeito às individualidades, às exigências de que cada um, por meio de determinadas práticas, possa formular para si mesmo as regras de sua existência.
D
DISPOSITIVO
O termo dispositivo aparece no primeiro volume da História da sexualidade (1976) para designar a rede na qual se cruzam saberes, poderes e instituições, que regulam e normalizam a nossa sexualidade, interferindo de maneira direta e explícita nos processos de subjetivação.
E
EPISTEME
Apresentado em As palavras e as coisas (1966), refere-se ao solo que torna possível o aparecimento de determinados saberes em determinada época, distinguindo três momentos históricos: a episteme renascentista, a clássica (séculos 17 e 18) e a moderna (a partir do século 19).
H
HETEROTOPIA
Em oposição à utopia – espaço do virtual, do não real –, a heterotopia significa um espaço apartado das instituições social e institucional cotidianas, que se constituem como alternativas às formas de dominação.
L
LIBERDADE
Em contraposição ao conceito existencialista de liberdade abstrata e de um sujeito “livre”, Foucault defende que a liberdade é uma prática, e não um objetivo a ser alcançado. O conhecimento, diz, começa com regras e restrições, e não com a liberdade.
LIBIDINIZAÇÃO DO SEXO
A libido como a força que invade o corpo transformando-o em “carne” implica um processo total e absoluto de libidinização do sexo. Foucault toma a interpretação agostiniana do pecado original, segundo a qual havia sexo no Paraíso, mas sem libido, e que a punição de Adão seria a perda do controle sobre os movimentos do seu corpo, acabando por se tornar a punição exemplar para todos nós, seres humanos, cuja liberdade será limitada por essa luta contra a força da libido.
N
NORMAL E PATOLÓGICO
Seguindo os estudos de Georges Canguilhem, Foucault vai mostrar que essa divisão, quando dirigida para o campo das condutas e dos comportamentos, atende ao modo como cada cultura vai construir suas noções de exclusão.
P
PANÓPTICO
O filósofo anglo-saxão Jeremy Bentham projetou, no fim do século 18, o modelo das instituições disciplinares a partir da prisão, pelo qual as celas se distribuiriam em torno de uma torre de observação central, de tal modo que cada detento deveria se sentir sempre completamente vigiado e controlado. Para Foucault, é a metáfora do poder e da vigilância na sociedade.
PODER PASTORAL
O poder pastoral, baseado na relação religiosa entre o pastor e o rebanho, se torna o modelo no qual se baseia o aparecimento do Estado moderno. Nessa perspectiva, o Estado moderno se constitui a partir da ideia de que é necessário governar as condutas, os comportamentos, de tal modo que a população possa se sentir segura em seu território.
R
RACISMO DE ESTADO
O racismo de Estado significa que as formas de exclusão ditadas pelos ideais biológicos e eugênicos do século 19 se tornam uma política de Estado, baseada na pureza e na hierarquia das raças, cujo resultado foi o aparecimento dos regimes nazista e fascista. Nessa perspectiva, o campo de concentração seria o modelo por excelência dessa política, cujos experimentos iniciais teriam sido empreendidos no processo de colonização, em especial na África.
S
SEXUALIDADE
A relação entre sexualidade, verdade e sujeito é um dos temas centrais de seu pensamento. Enquanto “sexo” designa as práticas sexuais propriamente ditas, “sexualidade” remete a uma noção ou conceito que organiza nossas práticas sexuais. Para Foucault, a sexualidade, tal como a entendemos, é resultado da fusão entre a religião e as ciências biológicas e médico-psiquiátricas. O que para uma era “pecado”, para as outras é “anormalidade”.
Ernani Chaves é professor titular de filosofia da UFPA e pesquisador do CNPq. Mestre em filosofia pela PUC-SP, doutor em filosofia pela USP e pós-doutor pela Universidade Técnica de Berlim (Alemanha)




