Os jogos consigo mesmo

Edição do mês
Os jogos consigo mesmo
MARTINE FRANCK
  Quando, em 1984, Michel Foucault redefine o projeto de sua História da sexualidade, ele escreve aquele que é um de seus textos mais citados e que expressam, de modo geral, o cerne de seu programa filosófico: a questão de saber até onde seria possível pensar diferentemente do que se pensa. É a partir dessa questão que ele não só reflete sobre o redirecionamento das investigações que empreendia naquele momento, como também define, por meio dela, o exercício filosófico como trabalho crítico do pensamento sobre si mesmo. A um olhar pouco atento, essa questão parece depender apenas da especulação clássica sobre as possibilidades, para o pensamento, daquilo que ele pode efetivamente conhecer tomando a si como fundamento de tal indagação. Mas o que Foucault chamava então de trabalho crítico nada mais era do que a tarefa com a qual a filosofia deveria se confrontar, a saber, como a história do nosso pensamento fez de nós o que somos, mais precisamente o problema de uma ontologia histórica de nós mesmos. Defender que a atividade filosófica se oriente por uma interrogação acerca da nossa própria história não significa conduzir uma análise voltada a reconhecer, na pretensa continuidade desta, as diferentes figuras alienadas de nós mesmos. Longe de qualquer “narcisismo transcendental”, o exercício filosófico deve poder fazer a crítica da maneira como fomos constituídos e como nos constituímos enquanto sujeitos históricos. Para Foucault, sabemos, essa crítica foi conduzida a partir de três conjuntos de relações sob as quais,

Assine a Revista Cult e
tenha acesso a conteúdos exclusivos
Assinar »

TV Cult