Augusto de Campos+90: Memória Memorabilia

Augusto de Campos+90: Memória Memorabilia
Operário da poesia, Augusto de Campos chega aos 90 como último remanescente da coragem de sua geração (Foto: Luiza Sigulem/Revista Brasileiros)

 

Onde a Angústia roendo um não de pedra
Digere sem saber o braço esquerdo
Me situo lavrando este deserto
De areia areia arena céu e areia
(“O rei menos o reino”, do primeiro livro, homônimo, de Augusto de Campos, 1951)

 

ESCRITÓRIO IRMÃOS CAMPOS, final dos anos 1930: Augusto Luís Browne de Campos, ainda criança, queria ser engenheiro. De certa forma, tornou-se um. 

SÃO PAULO, final dos anos 1940: Junto com seu irmão dois anos mais velho, Haroldo de Campos, e do amigo em comum, Décio Pignatari, Augusto de Campos habitou, na juventude, o melhor dos cenários da cultura para se embriagar de um conhecimento iniciático, hermético, com toques de Joyce, Pound, Fenollosa, Arnaut Daniel, Eliot, Mallarmé, Rimbaud, Blake… muitos. Era a São Paulo do pós-guerra, pujante, otimista, com saldo credor invejável, que via nascer o MAM, o Masp, a Vera Cruz. Via as exposições de arte moderna multiplicarem-se. Livrarias especializadas em raridades, lojas de discos que expunham Webern, Stockhausen e Boulez em suas vitrines. O Clube de Poesia, retrógrado, não dava mais conta dos hormônios da criação, que fervilhavam. RUPTURA.

NOIGANDRES, 1952: “Yes, Doctor, what do they mean by noigandres? NOIgandres… Augusto, Haroldo e Décio decretaram o fim do ciclo do verso. Explodiram o verbo no branco da página, concretaram a trova retrógrada. Reconfiguraram a história. Balançaram a Bossa, Tropicalizaram os Tropicalistas, problematizaram a preguiça do pensamento crítico, lutaram guerras intelectuais e estéticas. Haroldo foi recontar a gênese do Big Bang filológico em suas galáxias neobarrocas; Décio tornou-se um puzzle semiótico. Desde o Poetamenos (1953), Augusto seguiu a exata linha reta, sintético e visual, preciso e tecnológico, musical e cinético: VERBIVOCOVISUAL. Poesia se vê, poema se lê, ouve-se, EXTUDA-SE mudo.

Conheci Augusto em 2005 e não me é uma tarefa fácil falar sobre ele, menos pela complexidade de sua herança tradutória, crítica e poética, que pela afetividade das memórias que guardo de um tempo em que me voluntariei a trabalhar na Casa das Rosas, que havia sido recém-aberta com o epônimo Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. Lá, permaneci por anos, mas nos primeiros dois estive às voltas com a necessidade de aprender um novo ofício e me embeber de uma cultura que me parecia impermeável. Queria ser poeta, fui poeta, mas a poesia me aposentou na compulsória, por invalidez. Precisava conhecer os poetas, lê-los e conhecê-los. 

Augusto nos visitava em eventos importantes, ocasiões em que homenageávamos a poesia concreta. Visitava-nos como amigo e como zelador da memória do irmão e do legado que construíram.

Muito jovem, ingênuo, pensando ser poeta, me enchi de coragem. Telefonei ao Augusto e pedi para visitá-lo com pretexto de que autografasse meu exemplar de Poesia (1949-1979), o famoso Viva Vaia. Queria lhe entregar uma cópia de meu recém-lançado primeiro livro de versos. Antes não o tivesse lhe entregado. Espero que não tenha lido. Mas Augusto, operário da poesia, como tantas vezes o ouvi se definir, era afeito às visitas que lhe faziam os jovens irrequietos, idealistas e entusiastas. Recebeu-me numa tarde de início de ano, em 2006. Dona Lygia, esposa de sua vida inteira – lygia finge rs ser digital – não tardou a oferecer sucos e biscoitinhos, como aqueles pequenos hábitos que fazem a gente se sentir em casa. Eu não sabia o que dizer, mas não podia cair no buraco do silêncio constrangedor de quem não sabe o que dizer.

Foi Augusto, em gestos leves, voz calma e sorriso no rosto, quem rompeu o silêncio. Folheou meu livro, agradeceu. Autografou meu exemplar de sua obra reunida e, qual ilusionista que transmuta humores, sacou da manga e me regalou uma cópia da primeira publicação de suas traduções para e.e.cummings. Edição singela, rara, devidamente assinada, também. É daqueles artefatos que ficam arquivados na melhor e mais segura estante de casa.

Por algumas horas me contou tudo, deu aulas gratuitas de teoria do poema, estética musical, artes visuais, cultura geral, história da tecnologia, contou causos. Eu queria ser um gravador com capacidade para estocar doze horas de conversa. Pareciam doze horas, mas foram duas, no máximo três. E tudo que eu sabia, depois, é que nada sabia e que o caminho seria árduo. Grato, Augusto. 

Voltei à Casa das Rosas sob forte chuva que caía na tarde de verão e desabava em cachoeiras pelas lombas de Perdizes. Meu celular morreu, minha inocência também. Poesia não se faz com ideias, dizia Mallarmé e repetia-me Augusto.

Uma década e meia depois, aplaudo os 90 anos de Augusto de Campos, que segue ativo, altivo e ditando a direção dos petardos. É o último remanescente da coragem de sua geração, da afronta e do rigor. Segue sendo o alicerce da engenharia logomelofanopaica. Segue implodindo o marasmo intelectual dos “doutos” que ainda vomitam caducidade, city, cité.

DONNY CORREIA é crítico, ensaísta e autor de sete livros, sendo o mais recente Na treva da província: poemas escolhidos de Emiliano Perneta (Kotter, 2021).


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