As Pequenas Mortes de Wesley Peres

As Pequenas Mortes de Wesley Peres

Ninguém se põe a ler um livro sem perguntar “o que o livro me diz?” Qualquer leitor se autocompreende como destinatário da escrita que se põe a ler. É impossível ser diferente. Alguém continua lendo quando pensa: esse livro fala comigo. É que o leitor não é um voyer, como o telespectador de cinema. O leitor é alguém que quer diálogo, que ser participar, que quer pensar junto. Todo leitor quer uma experiência de pensamento e sensibilidade que, podemos dizer, é sempre “filosófica”.

Estava lendo o livro As Pequenas Mortes de Wesley Peres (Rocco, 2013) e pensando “o que esse livro me diz?” não necessariamente para mim (MT, Pessoa Física), mas para seu leitor (aí começa o papel do crítico, ele não é mais um leitor apenas, mas um leitor que pensa no genérico leitor de um livro). Todo livro é um lugar ao qual se chega ou não, a leitura é um caminho entre caminhos possíveis.

Neste caso, este livro não tem um lugar único e pode ser lido por diversos caminhos. Todos os caminhos nos são oferecidos pelo personagem Felipe Werle, um músico experimental que dá aulas na universidade. O mais evidente dos caminhos é o da fixação na morte por câncer, tema da angústia crônica e da meditação que constitui parte essencial do livro. Esta angústia de morte é efeito de um fato vivido pelos moradores de Goiânia em 1987 e que se torna o núcleo da narrativa. Nossa memória curta já deve ter apagado um dos maiores acidentes radioativos do mundo, aquele acontecido com a cápsula de Césio 137 que rodou na mão de diversas pessoas e que contaminou milhares de goianos em setembro de 1987. Leide das Neves, filha do dono do ferro velho que trouxe a cápsula para casa, tinha 6 anos e morreu contaminada por ter colocado partículas de Césio na boca. Ela é um dos personagens que povoam a memória apavorada do narrador.

Ponto alto do livro é o nexo estabelecido entre a angústia individual apresentada na figura de Felipe Werle e a história coletiva que, nós, brasileiros, tendemos a esquecer.  O livro “As Pequenas Mortes”, neste momento, manifesta um traço social e político que já justificaria sua leitura.

Um caminho de leitura menos evidente, mas igualmente interessante, diz respeito à formação da subjetividade do jovem no tempo da catástrofe. Poderíamos dizer de Felipe Werle que ele é um neurótico ou um paranóico, o que não estaria errado, mas isso seria pouco. Felipe Werle é muito mais a alegoria da subjetividade contemporânea em conflito com o trabalho (em sua dimensão alienada: a universidade; em sua dimensão inventiva:  a criação musical), e com a crença. Deus é outro dos tópicos importantes do livro cheio de reflexões teológicas: que Leide fosse uma criança e que tenha sido vítima de um horror tão grande, renova o drama humano quanto à existência de um Deus bom… Felipe Werle está em confronto com aquele a quem ele chama de “Grande Canalha” no clima do flagelo inexplicável que se abateu sobre Goiânia. A questão é altamente filosófica: o que significa viver na era da catástrofe. O que é “sobreviver” a uma catástrofe nuclear? Na meditação de Felipe Werle, quem morre em Goiânia morre de câncer e por efeito do Césio 137, como seu irmão que morreu, a propósito, de câncer. Assim é que um dos caminhos que se bifurcam dentro do livro vem a ser o do ódio ao mundo como ódio ao destino.

Ainda há outro caminho para se chegar em As Pequenas Mortes. É a subjetividade masculina. Felipe Werle é um homem fixado em mulheres, em seus corpos tratados, por ele, como coisas. Ana é a maior de suas fixações. Contra ela ele investirá seu ódio e seu desejo numa mistura complicada. Ele não pode esquecê-la, a ela que o deixou por meio de uma carta, porque é seu dependente. Nesse sentido, Felipe Werle é o mais pobre dos homens, aquele que ainda queria ser “tudo” para uma mulher e queria que ela fosse “tudo” para ele. Ana é até, nas palavras do personagem “um dos nomes da minha doença”.  A posição dessa masculinidade ressentida e ao mesmo tempo – e justamente porque –  devotada a uma mulher, denuncia, sem querer – pois não creio que Wesley Peres tenha feito isso intencionalmente – a miséria da masculinidade em um mundo em que as pessoas já não estão tão preocupadas com suas identidades de gênero senão por pura fragilidade.  A necessidade de autoafirmação do “homem” que se torna muito “macho” por reduzir o outro (no caso Ana) à “boceta” é autoexposição de uma imensa fragilidade.

Além desses caminhos de leitura, há a “carne” do texto de Wesley Peres, escrito para quem se entende com um narrador com intensidade mental desafiadora, muito pensamento e muita reflexão. Grande livro (embora tenha apenas 117 páginas).

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