As atribulações do moderno “pater familias”

As atribulações do moderno “pater familias”

Welington Andrade

Cena de “Pós-Man”, dirigido por Einat Falbel

“A ambígua dialética humana (…) se manifesta em primeiro lugar pelas estruturas sociais e culturais cujo aparecimento provoca e nas quais aprisiona a si mesmo”.

Maurice Merleau-Ponty

Discreto em sua emanação cênica, mas absolutamente intenso na discussão que propõe, o monólogo Pós-Man, escrito e interpretado pelo ator Tony Giusti, com direção de Einat Falbel, é daquelas criações muito consistentes que passam um tanto quanto despercebidas em meio ao caudaloso e frenético repertório de espetáculos teatrais que a cidade de São Paulo oferece. O texto estava parcialmente escrito quando Tony leu um artigo do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, cuja vasta obra trata das principais transformações socioculturais e políticas que o homem vem testemunhando em nosso tempo. O dramaturgo e ator espantou-se com a coincidência de abordagens entre a peça que escrevia e as ideias do sociólogo e resolveu comprar e ler vários livros de Bauman, o que acabou constituindo um estímulo definitivo para que seu monólogo fosse finalizado e submetido à apreciação de amigos. Que o incentivaram, então, a montá-lo.

Pós-Man trata da vida de um homem de classe média comum, casado, pai de um casal de filhos adolescentes, auditor da Secretaria de Finanças do Governo Municipal, que em uma tarde, na padaria próxima a sua casa, conhece Paulo, igualmente casado, com quem passa a ter um tórrido e esporádico relacionamento homossexual. Descrita desta maneira, a trama da peça parece apontar para aquelas narrativas – hoje já clássicas – que exploram a tortuosa, mas heroica descoberta do amor homoerótico. Ledo engano. Essa situação básica é usada, antes, como combustível para que o monólogo proponha algumas penetrantes reflexões acerca da condição do homem contemporâneo, às voltas não somente com o desempenho de papeis sexuais cada vez menos rígidos como também com o enfrentamento de angústias e de incertezas que possam libertá-lo do estado de alienação.

Pontual e conciso (fazendo uso de um pouco mais de 7 mil palavras), o texto de Pós-Man tem inúmeras qualidades expressivas que convidam o espetáculo a transitar por uma teatralidade tão comedida quanto estimulante. Aliás, a publicação do texto – escrito sob a forma de um monólogo, mas que pode ser lido também como um conto de clara vocação dramática – seria muito bem-vinda. A partir do jogo de sedução algo lacunar (“Sabe que você é um homem…”) que o estranho (algum tempo depois ficamos sabendo que ele se chama Paulo) estabelece com o protagonista na padaria, uma série de imagens eróticas, rapidamente convertidas em instrumentos de perscrutação existencial, vêm à tona. (Não à toa, em conversa com o colunista, Tony Giusti falou do entusiasmo pela leitura, há muito tempo, da obra de Lúcio Cardoso – cuja mistura sui generis de catolicismo, introspecção e sensualidade – para o crítico Alfredo Bosi, Lúcio é “um inventor de totalidades existenciais” – também serve de pano de fundo para Pós-Man).

O tom monocórdio que domina a encenação pode, de certa maneira, afastar os espectadores mais afeitos à celeridade presente em muitas peças contemporâneas. Muito provavelmente, Pós-Man não possa mesmo ser encarado como um espetáculo, e sim como um recital cuja natureza é explorar uma teatralidade sutil, incrustada em uma boa narrativa e em um conjunto de boas ideias.

Há quatro núcleos fabulares básicos na trama, ligados respectivamente à família, à sexualidade, à religiosidade e à psicologia. A separação do protagonista de sua mulher, Mariana, a desfaçatez com que a filha passa a tratar o pai a partir daí e a comunicação meramente fática com o filho estão a serviço da representação do universo familiar, em crise, como todo espectador em maior ou menor grau é capaz de atestar diariamente olhando ao seu próprio redor. O anódino casamento com Mariana, as aventuras adúlteras do chefe de família temperadas por um machismo tão típico e a experiência sexual ambivalente com Paulo – projetada também na descoberta da ambígua sexualidade do filho – integram a base propriamente sexual da narrativa. (Como discute o dossiê publicado na edição de agosto da revista Cult – “Teoria queer: o gênero sexual em discussão” –, des-heterossexualizar a cidadania é ainda uma frente de batalha na condição pós-moderna). Os tormentos religiosos por que passa o pai de família, primeiramente convocando Deus a acreditar nele e depois convidando-o cosmicamente a uma nova aliança encarnam a natureza cristã, mística, misteriosa da fábula. (Reforçada, mais do que nas demais passagens, pelo trabalho corporal do intérprete). Por fim, uma imagem bastante potente se sobressai na trama, aglutinando as linhas de força existentes nos núcleos anteriormente identificados. A soturna evocação de uma antiga memória familiar que confronta pai e filho em uma luta de vida e morte, de ocultamento e revelação, de persistência e aniquilação é o ponto alto dessa fábula pós-moderna que se deixa contaminar aqui por um material arquetípico de densidade única. Como se o Pós-Man dos dias de hoje nada mais fosse do que um ser Pré-Histórico, às voltas com a selvageria imemorial que pode se voltar, inclusive, contra um membro do próprio clã.

Por evocar essa rede complexa de símbolos e de imagens, Pós-Man é um espetáculo inteligente, sem soar “intelectualista”, naturalmente. E por fazer com que o discurso proferido pelo protagonista chegue até o espectador por meio de uma corporeidade em pianíssimo, reservada, circunspecta (a preparação corporal do intérprete, concebida pela diretora Einat Falbel, foi inspirada na obra do pintor austríaco Egon Schiele levando em conta também algumas discussões sobre o artista norte-americano Edward Hopper), Pós-Man é um espetáculo sensível. O que o espectador pode desejar mais dele, então? Espetaculosidade e intensa vibração emocional? Somente os desavisados cobrarão tais efeitos de uma proposta concebida pelo signo do minimalismo como esta. Vale registrar a também sutil expressividade do cenário (a cargo de ator e diretora), do figurino (criado pela diretora em parceria com Caio Salay), da trilha sonora (concebida por Lucas Vasconcelos) e do designer de luz (sob a responsabilidade de Yuri Cumer).

Para além de suas qualidades estéticas, Pós-Man presta uma contribuição sociocultural relevante para a capital paulistana, ao ter inaugurado um novo, acolhedor e simpático espaço teatral, o Top Teatro, sede oficial do Nosso Grupo de Teatro, fundado há doze anos pelo ator, diretor e dramaturgo Tony Giusti. Planejado com boa infraestrutura técnica e artística para receber o público de forma confortável, o espaço conta com 50 lugares (mais 10 ou 20 cadeiras extras) e dois palcos pequenos (7m X 8m), aproximadamente), que podem ser usados também de forma simultânea, sendo a plateia móvel.

Despretensioso em suas dimensões, o Top Teatro deseja abrigar bons projetos culturais. Cioso de suas virtualidades, Pós-Man é um deles, um monólogo que alia a modéstia de uma anêmona à aspereza de um ouriço-do-mar.

Pós-Man
Quando: até dia 15/8, quintas e sextas-feiras, às 20h. De 23/8 a 28/9, sábados, às 21h, e domingos, às 19h.
Onde: TOP Teatro – Rua Rui Barbosa, 201 – Bela Vista – SP. Tel.: 2309-4102.
Quanto: R$ 30,00
Info: (11) 2309 4102

welingtonandrade@revistacult.com.br

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Fevereiro

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