Ana
Mulher, negra, 21 anos, filha de uma professora da rede pública que a criou sozinha, nascida em Divinópolis. Foi assim, empilhando marcadores, que boa parte das manchetes apresentou Ana Elisa Santos Silva ao país depois de 4 de outubro. Com 524.219 votos, ela se tornou a mulher mais votada de Minas Gerais para a Câmara dos Deputados e a deputada federal mais jovem já eleita no Brasil. Chega ao Congresso na primeira idade em que a Constituição permite.
Em 2002, quando Benedita da Silva assumiu o governo do Rio de Janeiro, em texto publicado no jornal Correio Braziliense, Sueli Carneiro observou a insistência das manchetes na raça, no gênero e na origem da governadora. Esta era, por si só, a prova do ineditismo do fato. Vinte e quatro anos depois, a observação contínua similar. Se fosse banal, ninguém precisaria sublinhar.
Há uma cena na eleição da deputada que reforça ainda mais este marcador. Num vídeo que circulou nas redes na última semana, a jornalista Flávia Oliveira chora ao assistir à fala de Ana. Flávia, que ao longo de sua carreira noticiou tantas vezes o genocídio da população negra. Quem atravessou eleição após eleição vendo as bancadas se renovarem aquém da necessária equivalência em relação a presença negra e feminina sabe o que significa encontrar a jovem entre os deputados mais votados do país.
Com bem pontuado por Ana, ela é o sonho mais sonhado de sua ancestralidade. É também a possibilidade de futuro para tantas meninas negras que hoje a assistem pela tela do celular e começam a imaginar que aquele lugar também pode lhes pertencer.
Sua eleição contraria um projeto de país que estimula a morte cotidiana da juventude negra. Um país que se habituou a encontrar jovens negros nas estatísticas de homicídios e encarceramento, mas ainda se espanta quando uma jovem negra aparece entre os nomes mais votados para o Congresso Nacional.
O racismo é cruel e também não perdoa o sucesso. A competência costuma ser reconhecida como atributo natural dos brancos, enquanto pessoas negras que alcançam espaços de poder precisam justificar continuamente sua presença. Com Ana, a régua é a mesma: jovem demais, influenciadora, fenômeno de internet. Como se a capacidade de mobilizar milhões de pessoas fosse uma credencial política legítima para uns e motivo de desconfiança para outros. Não me lembro de tamanho empenho em desqualificar homens brancos que também construíram suas carreiras políticas nas redes sociais.
Em 5 de setembro, quando ainda era candidata, ela recebeu um e-mail de alguém que se apresentava como integrante de um grupo supremacista branco. Para demonstrar saber onde encontrá-la, o remetente mencinou dados pessoais dela e de sua família e descrevia ameaças de estupro e morte. O autor afirmava “não tolerar mulheres negras que pretendem representar o povo”.
Depois da eleição, com sua participação na campanha presidencial, as ameaças se intensificaram. Endereço, telefone e documentos pessoais foram expostos. A jovem, que havia acabado de conquistar mais de meio milhão de votos, passou a precisar de proteção para voltar para casa. Um mês depois da primeira denúncia, a Polícia Civil de Minas Gerais ainda investigava a autoria das ameaças.
A trajetória de Ana ajuda a compreender a realidade do nosso tempo. Foi nas redes sociais, respondendo a parlamentares da direita e disputando o debate político, que ela conquistou uma audiência de milhões de pessoas e transformou essa presença em votos. Nas redes, Ana também pontuou, “Para as ruas nós já vamos, mas precisamos ir para as redes”, disse. E ela tem razão. O problema é que a mesma internet que permitiu uma jovem negra de Divinópolis alcançar eleitores de todo o estado e projeção nacional, também oferece aos seus agressores meios para ameaçá-la, expor sua família e tentar expulsá-la do debate público.
Uma pesquisa do Instituto Marielle Franco analisou 77 casos de violência política de gênero e raça no ambiente digital, registrados entre 2021 e 2025. Segundo os dados do levantamento, 87% das vítimas eram mulheres negras e 71% das ameaças envolviam morte ou estupro. Outro levantamento, realizado pela Justiça Global e pela Terra de Direitos, identificou 714 episódios de violência política entre novembro de 2022 e outubro de 2024. A pesquisa Perfil da Mulher na Política, da organização Elas no Poder, mostrou que 46% das mulheres que relataram ataques digitais eram negras.
São números que ajudam a dimensionar o que significa, para uma mulher negra, disputar eleições, exercer um mandato ou simplesmente manifestar uma opinião política publicamente. A ameaça não pretende apenas intimidar uma pessoa, pretende também comunicar às demais o preço que poderão pagar caso decidam ocupar o mesmo espaço.
O Brasil tem instrumentos legais para enfrentar essa violência. A Lei nº 14.192, de 2021, estabeleceu normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher. Mas a distância entre a existência de uma lei e a proteção de quem sofre ameaças continua enorme. Em agosto de 2025, quatro anos depois da aprovação da legislação, estudos divulgados na própria Câmara apontavam que ainda não havia condenações com base na nova tipificação.
Às vésperas das eleições, organizações como o Instituto Marielle Franco e o Mulheres Negras Decidem entregaram ao Tribunal Superior Eleitoral uma nota cobrando proteção às vítimas e responsabilização dos agressores. A equipe de Ana também precisou lembrar o que deveria ser uma obrigação do Estado: “A internet não é território de impunidade.”
Não se trata de pedir que Ana seja poupada das críticas. Qualquer parlamentar pode e deve receber apontamentos sobre sua atuação. Ela foi eleita para um cargo público e, portanto, terá suas posições questionadas e deverá prestar contas à sociedade como bem pontuado pela deputada. O que não pode ser aceito é que a discordância política seja usada para justificar o racismo, a misoginia e ameaças à sua integridade física. Há diferença entre contestar as ideias de uma deputada e tentar impedi-la de exerça o direito de existir na política.
Ana Elisa ainda nem tomou posse e já conhece o preço que o racismo cobra de mulheres negras que chegam ao poder. Sua eleição deveria provocar uma discussão sobre o significado de sua presença no Congresso Nacional. Em vez disso, parte de sua energia e de sua equipe precisa ser dedicada a garantir que ela possa voltar para casa em segurança.
A eleição de Ana é uma conquista que ultrapassa sua trajetória individual. Mas o que significa ampliar a presença de mulheres negras nos espaços de poder se o Estado não consegue garantir que elas exerçam seus mandatos sem ameaças à própria vida? A responsabilidade pela proteção dessas mulheres não pode continuar sendo transferida às vítimas, enquanto os agressores permanecem impunes e as plataformas lucram com a circulação do ódio.
Natália Carneiro é jornalista; diretora executiva da Casa Sueli Carneiro. Compõe a direção executiva de Geledés – Instituto da Mulher Negra. Atua a mais de 15 anos com comunicação institucional em diálogos com os movimento social negro brasileiro e instituições de defesa dos direitos humanos




