Amor ao próximo

Amor ao próximo

Sobre a oferta de ódio genérico e o amor à democracia

“Inúmeras vezes fiquei espantado por ver homens que se orgulham de professar a religião cristã, ou seja, o amor, a alegria, a paz, a continência e a lealdade para com todos, combaterem-se com tal ferocidade e manifestarem cotidianamente uns para com os outros um ódio tão exacerbado que se torna mais fácil reconhecer a sua fé por estes do que por aqueles sentimentos.”

Baruch de Espinosa. Tratado Teológico-Político.

 

O ódio como dispositivo de poder na era virtual

A nossa é a era da partilha virtual.

A democracia já está dada nesses rituais de partilha de todo tipo de informação, seja na forma de texto, fotografias, notícias, memes que transitam para todos os lados do ciberespaço e os demais espaços da vida.

Quem acompanha minimamente as redes sociais, a televisão ou simplesmente anda nas ruas, percebe que o ódio se tornou uma espécie de sentimento banal que também é compartilhado como se fosse uma informação. E, de fato, o ódio foi veiculado como uma informação que deve ser repetida. O ódio, junto com a avareza, a inveja, a impaciência, o rancor e outros afetos negativos, transita assim nós sob uma estranha autorização nos mais diversos contextos, como se fosse algo comum. Isso quer dizer que o ódio não está sozinho. O ódio nunca vem sozinho, o ódio não é só ódio. O ódio é um sistema, um dispositivo de poder.

É muito difícil medir sentimentos, emoções, afetos em geral. Só os conhecemos por suas expressões. Assim, seguimos observando e criticando, ou concordando e agindo em nome desses afetos todos que estamos chamando genericamente de ódio. É preciso saber que afetos não são naturais, que eles podem ser programados e projetados. Que podemos ser conduzidos a sentir isso ou aquilo.

A publicidade não é, no contexto dos meios de comunicação, apenas a arte da propaganda que visa vender produtos, mas todo um sistema que captura, pesquisa e analisa como as pessoas se comportam do ponto de vista das emoções justamente para poder manipular essas emoções.O ódio não é deixado de lado nesse contexto.

A conquista da cidadania – e a prática de sua arte – depende de não se deixar levar pelas emoções programadas.

Aquele que desconfiar que o que vem sentindo não lhe pertence, que está sendo manipulado, pode se colocar uma pergunta urgente nesse momento: como nos tornamos seres capazes de lançar ódio – e todos os demais sentimentos complexos do seu dispositivo – contra os outros?

Devemos realmente nos colocar essas perguntas de um modo bem simples: sentimos realmente esse ódio todo que vemos por aí? Esse ódio que sentimos, nos pertence? Por que aderimos ao ódio?

Somos capazes de entender que compramos esse ódio genérico como quem compra uma substância no sistema publicitário dos meios de comunicação?

Depois podemos nos perguntar, tendo em vista as ameaças que a democracia vem sofrendo, em que sentido o ódio contribui para o fim da democracia? Há ódio no gesto político, midiático e jurídico que nos conduz ao golpe? Odiar esse gesto de ódio não é uma saída que transforma o ódio em amor?

Não seria isso o que estamos vendo no cenário atual? Não há uma reviravolta do ódio contra o ódio que nos parece um banho de afetos alegres, de amor político em cena nas ruas e nas redes?

O cidadão caricaturizado

Somos capazes de entender o ódio barato vendido pelos meios de comunicação e comprado por cidadãos que se deixam caricaturizar por meio dele? Ora, nos preparemos para compreender a longa pergunta que segue: o que é o sujeito que grita nas ruas com a camiseta da CBF contra a corrupção, o que é aquele que bate panelas nas janelas dos bairros de classe média alta onde mulheres trabalhadoras vem buscar o mínimo para sobreviver sob condições humilhantes, o que é a moça que ataca fisicamente um bispo conservador, o que é o terrorista de internet que xinga outros cidadãos virtuais de petralhas, comunistas, mas se esconde quando confrontado pela pessoa real, o que é aquele que mente na tela da televisão na hora do jornal nacional que deveria manter a dignidade da notícia como verdade, o que é aquele é aquele que pede pelo direito de não ter direitos, senão o cidadão que, na forma de uma caricatura, perdeu sua dignidade e com ela destruiu a própria cidadania?

É preciso preocupar-se com o ódio certamente, mas muito mais com sua manipulação e seu efeito. Tudo o que a manipulação precisa é manter-se oculta no seu procedimento e fazer parecer que o ódio é natural.

Que o ódio é natural como o amor.

Mas o amor também não é natural. O amor se constitui historicamente, por meio de discursos e práticas das quais fazemos parte e que nos constituem.

A democracia é o amor ao próximo

O que a política tem a ver com isso? Ora, ainda que tenhamos ouvido a vida inteira que o poder corrompe, devemos saber que essa também é uma frase manipulada. Não seria o momento de colocar a questão da falta de poder que corrompe, do poder que corrompe porque fica nas mãos de uns e porque não é democraticamente compartilhado?

Quem nos levou a crer que a política é algo abjeto? Quem nos levou a pensar que a política é um desprazer? Como fomos conduzidos a crer nisso? Certamente alguém que sabe que o poder é um prazer e que a política que dele depende é um prazer.

Por isso, hoje, em que pese todo o esforço dos controladores e manipuladores meios de comunicação, o povo está nas ruas contra o golpe orquestrado desde o início do governo que, democraticamente, venceu as últimas eleições. Por que o povo descobriu o prazer do poder e, como povo, de um poder partilhado que já não é um poder no sentido tradicional.

O povo está nas ruas contra o golpe porque descobriu que a política é um prazer. Que o prazer é tão grande quanto o amor e depende dele. Que sem amor ao próximo a democracia é impossível. Que a democracia pode ser compreendida como o sistema do amor ao próximo que não nega os demais afetos, mas que, amorosamente reúne os afetos, pensa neles, descobre sua potência, inclusive a do ódio. Que a democracia não se sustenta se não amarmos a democracia. Amar a democracia é não negar a existência do outro. É amar o próximo como sujeito de direitos.

A democracia é boa para todos, é o único sistema em que todos, até mesmo os cidadãos caricaturizados por seus gesto bizarros e infelizmente, tantas vezes, monstruosos, de ódio ao outro e à própria democracia, só podem fazê-lo porque ainda estamos nela, mas corremos o risco de perdê-la se as forças inimigas da democracia, todas elas sem sendo de respeito, sem dialética, sem diálogo, vencerem.

O cidadão que pede o fim da democracia, diz o que diz porque vive em um sistema democrático que permite a sua fala. O extremo da ditadura é o fim de toda expressão. O limite do respeito é o sinal de amor concreto ao próximo sem o qual voltamos, por ignorância, à guerra de todos contra todos.

Nessa linha, investir no respeito como postura e nas medidas que o garantem me parece uma solução na urgência do momento.

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Setembro

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