Ácida e sulfúrica

Ácida e sulfúrica
(Foto: Renato Parada)
  Elvira Vigna é daquele tipo de escritora que, como Lydia Davis ou André Sant’Anna, tem um estilo tão marcante que faz com que o leitor passe a ver o mundo com a sintaxe e a perspectiva do livro que acabou de ler. Ao terminar Como se estivéssemos em palimpsesto de putas (Companhia das Letras), os olhos do leitor estarão chorando com o colírio venenoso despejado a conta-gotas pela escritora carioca de 69 anos, pródiga em frases e parágrafos curtos, afiados como estiletes. Conforme demonstrou em livros anteriores como O que deu para fazer em matéria de história de amor, Por escrito ou Nada a dizer, Vigna se debruça sobre relações entre homens e mulheres sem um pingo de sentimentalismo. Seu método, na linguagem, procura enfocar a migalha do relacionamento em vez de se preocupar com o sabor ou o mofo do pão de cada dia amoroso. O troco, o miúdo e o mesquinho ganham sua forma com uma pontuação em pizzicato: pontos e vírgulas que esmiúçam períodos reunindo a narrativa em síncopes e soquinhos, trancos e barrancos. Não é agradável. Mas Elvira Vigna não quer ser agradável. Ela quer é enfiar um cisco no seu olho. Talvez sua linguagem nunca tenha se aproximado tanto de seu tema quanto nesse Palimpsesto. “Aquilo que se raspa para escrever de novo”, o palimpsesto designa um tipo de papiro ou pergaminho usado na Idade Média que permitia ser reutilizado após lavado ou raspado com pedra-pomes. Muitos textos clássicos foram perdidos por causa desse método; mas tecnologias avançadas conseguem hoje recuperar os que estavam escrit

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