A pulsão estrangeira de Van Gogh

A pulsão estrangeira de Van Gogh
Evando Nascimento, autor de "Diários de Vincent: impressões do estrangeiro" (Foto: Aline Massuca/Divulgação)

 

Em Diários de Vincent: impressões do estrangeiro (Circuito, 2021), o escritor, pesquisador e professor universitário Evando Nascimento parte de um extenso material de pesquisa sobre Vincent Van Gogh, sobretudo de sua correspondência, para propor uma releitura do percurso pessoal e artístico do pintor holandês.

Essa mescla entre ficção e biografia “confunde” até mesmo o autor, que alerta: “Só assinalo que a maior parte das vezes não tenho certeza sobre o que retirei dos fatos biográficos e sobre o que inventei. Isso talvez dê uma chance ao leitor para, com efeito, imaginar outro Van Gogh…”

Nesta entrevista, Nascimento fala sobre o artista do século 19 – que se sentia um estrangeiro em sua terra natal -, seu olhar sobre o Brasil, o conceito de tradução, entre outros temas:

No conto “O dia em que Walter Benjamin daria aulas da USP”, de 2011, você imagina a relação de Benjamin com o Brasil. Agora, você está propondo o contato imaginário do pintor holandês com o nosso país. Poderia discorrer sobre isso?

É difícil explicar por que se decide escrever uma história com determinada temática. Digamos que sempre me interessou muito o olhar dos estrangeiros – famosos ou não – sobre o Brasil. No caso de Benjamin e de Van Gogh, a biografia deles permitiria esse deslocamento até os trópicos. No que diz respeito a Benjamin, isso está atestado numa troca de cartas com Erich Auerbach, que cogitou a possibilidade de o autor do livro das Passagens vir dar aulas na USP, o que infelizmente acabou não acontecendo.

No que diz respeito a Van Gogh, descobri essa relação lendo as cartas, que são o melhor documento de sua trajetória, de seus projetos, aspirações e realizações. Em determinado momento da juventude, quando tentava seguir uma carreira religiosa, ele cogitou a possibilidade de vir como missionário para a América do Sul – por que não o Brasil? Mais tarde, morando em Arles, sul da França, convivendo com Gauguin, o nome do Brasil aparece algumas vezes na correspondência, seja de forma isolada, seja como um dos países tropicais onde valeria a pena morar, porque ele acreditava que o futuro da pintura estava nos trópicos.

Assinalo apenas que esse é um dos temas do livro, não o único. O romance é um diário fictício sobre os últimos quatro anos da vida do pintor holandês e tudo o que de maravilhoso ou terrível ocorreu então. Corresponde ao estilo mais brilhante de sua carreira, depois do contato com o impressionismo, inaugurando a fase pela qual se tornou mundialmente conhecido.

Como você vê o papel de Paul Gauguin na obra e na vida de Van Gogh, considerando esse aspecto latino-americano da sua biografia?

Isso daria outro romance! (risos) O contato entre os dois foi curto, mas de intensidade máxima para suas carreiras artísticas. Gauguin não só morou no Peru na infância, mas também retornou às Américas na idade adulta. Quando Van Gogh o encontrou em Paris, ele já tinha passado uma estadia no Panamá e na Martinica. Fala-se muito de Gauguin na Oceania, mas ignora-se essa viagem anterior aos trópicos, em que realizou telas belíssimas, as quais marcaram em definitivo seu gosto e sua prática artística.

Van Gogh conheceu algumas dessas pinturas em Paris, entre as quais, “As Negras”, que admirava intensamente. A partir daí passou a considerar Gauguin um mestre. Mas é necessário enfatizar também o inverso: o impacto da obra de Van Gogh sobre Gauguin não foi pequeno. Mesmo depois do episódio da orelha cortada em Arles, eles continuaram se correspondendo, e mais de uma vez Gauguin expressou uma grande admiração pela arte do amigo. Chegou a dizer que, numa exposição em Paris, a pintura dele era a única que “pensava”. É o que eu chamaria de “pintura pensante”, tal como nomeio, em diversos ensaios, a literatura ou a escrita pensante de Clarice, Rosa, Kafka, Joyce e muitos outros.

Você imagina luminares da cultura europeia expressando interesse pelo Brasil, mas sem nunca terem aqui estado. Que país eles viam? Que país veriam hoje?

Referindo-me especificamente a Benjamin e a Van Gogh, diria que, tal como está em minha ficção, a ideia sobre o Brasil era muito vaga, oscilando entre a idealização e a realidade do colonialismo europeu, que eles não ignoravam. Se estivessem vivos hoje, não haveria idealização alguma, só veriam provavelmente a face da barbárie… Em dois anos, nossa imagem no mundo piorou exponencialmente. Acabou em definitivo a ilusão dos trópicos felizes, dando assim razão ao famoso título de Claude Lévi-Strauss: Tristes trópicos.

Uma das epígrafes do seu livro foi extraída de uma carta que Van Gogh enviou ao pintor inglês Horace Mann Livens, em 1886: “Sobretudo porque em meu caso não sou aventureiro por escolha, mas sim por destino, e não me sinto tão estrangeiro em nenhum outro lugar como em minha família e em meu país”. Essa epígrafe parece extremamente atual, no Brasil especialmente, em que muitos se sentem estrangeiros no país governado pela extrema-direita, em que parte da população revelou seu lado mais preconceituoso e inescrupuloso. Poderia falar um pouco da escolha dessa epígrafe?

A epígrafe dialoga com o subtítulo do romance: “Impressões do estrangeiro”, em toda sua ambiguidade. Quanto à comparação que você propõe, acho que são realidades bem diferentes. Van Gogh não tinha uma visão negativa sobre seu país como temos hoje a respeito do Brasil. Movido por um impulso singular, foi um grande viajante: “por destino”, diz ele na frase citada.

Como deixo claro ao longo do livro, foi um dos primeiros artistas cosmopolitas, numa época em que viajar era bem mais difícil do que hoje. Viveu em grandes cidades como Amsterdã, Haia, Bruxelas, Antuérpia, Paris e Londres, mas também em inúmeras cidadezinhas da Holanda, da Bélgica, da Inglaterra e da França. Falava fluentemente inglês e francês, lia e escrevia nessas línguas, além de ler em alemão. Tudo isso é ignorado pela vulgata do artista, o “mito Van Gogh”, que oscila sempre entre o sentimentalismo, a genialidade e a loucura, como o cinema explorou amplamente.

Minha impressão, lendo as cartas, estudando a obra e escrevendo o romance, é que ele precisou existencialmente viajar para conhecer outras culturas e, mais tarde, para manter contato com o meio artístico. No entanto, numa das cartas à mãe, vivendo no estrangeiro, ele diz que se sente ainda um camponês de Zundert, vilarejo onde nasceu. Creio que ele era as duas coisas ao mesmo tempo: um pintor viajante, muito culto, e um interiorano da Holanda profunda.

Isso fez com que nunca se fixasse em lugar nenhum: aonde quer que fosse seria sempre um estrangeiro, até mesmo em sua terra natal, porque ele já não pertencia mais apenas àquela localidade. Porém ele nunca perdeu o vínculo com seu lugar de origem, até porque suas irmãs e sua mãe continuaram morando no interior dos Países Baixos. No final da vida, chegou a pintar paisagens holandesas de memória, o que mostra sua relação afetiva com as terras do Norte. Já nós brasileiros temos hoje grande dificuldade em amar o país governado pelos extremistas. É um amor torturado.

Mais adiante se lê: “minhas telas são a pura tradução dos mais caros pensamentos e das sensações. Desde a escolha dos materiais a utilizar no trabalho até as últimas pinceladas”.  Como você aplicaria o conceito de tradução na obra de Van Gogh a partir dessa afirmação?

Como já disse, Van Gogh lia e falava em mais de uma língua, o que faz dele um tradutor por excelência, pois só se aprende e se utiliza outra língua por meio de tradução. Além disso, ele escreveu um terço das cartas em francês, para seu próprio irmão que falava holandês como ele! Há uma cena narrada quando morava em Auvers-sur-Oise que mostra bem como prezava sua condição de estrangeiro. Ele conta que, numa visita a seu irmão Theo em Paris, chegou a discutir com a cunhada e com o irmão dela porque queria conversar somente em francês – e os dois também eram holandeses!

Desconheço um artista tão apegado a outras línguas, sobretudo o francês, como Van Gogh, inclusive ele adorava a literatura francesa, que lia compulsivamente. Isso é tão mais impressionante porque só estudou línguas estrangeiras durante um ano, na adolescência, depois saiu da escola. Desenvolveu o conhecimento do inglês e do francês lendo muito e vivendo nos países. O alemão foi mais fácil por ser uma língua aparentada ao holandês.

Há nele o que chamaria de “pulsão estrangeira”: o desejo permanente de ser outro, de viver a experiência do exterior, sem jamais deixar de ser holandês. Acho que nunca lhe passou pela cabeça solicitar a nacionalidade francesa, como muitos estrangeiros até hoje sonham. O lugar dele era o que sinalizo no subtítulo já citado do romance: “Impressões do Estrangeiro”.

Aplicado à obra de Van Gogh, o conceito de tradução explica muito a respeito de seu procedimento artístico: ele traduz as vivências em pintura. Aliás, você esqueceu de mencionar que meu livro tem também um tradutor holandês, pois, afinal, se trata de “diários” traduzidos para o português: Jan Visser, a quem devo quase tudo. Os manuscritos em holandês que deram origem à ficção são segredo de Estado…

Diários de Vincent: impressões do estrangeiro
Evando Nascimento
Editora Circuito
356 páginas – R$ 94

Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de Finnegans wake (por um fio) Para ler Finnegasn Wake de James Joyce, ambos pela editora Iluminuras.


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