Visita

Visita

 

Li recentemente a excelente entrevista que a pensadora Marilena Chauí deu para a Folha de São Paulo. Na entrevista, além de elaborar tantos temas maravilhosamente e de forma lúcida, ela emula o celular com a palma de sua mão diante dos olhos e diz algo como não querer estar presa a isso.

Pois eu, desde a pandemia do coronavírus, fiquei cada vez mais atrelada a essa palma da mão que também pode se chamar de abismo. Li menos, vi menos filmes, ouvi menos música, saí menos de casa. É como se estivesse em um estágio pandêmico eterno. Alguma coisa quebrou em mim no meio do caminho.

Então, como uma pessoa que mal sai de casa, virei uma pessoa que recebe visitas. Semana passada a escritora Jeovanna Vieira me deu a alegria de sua presença. Conversamos mais de quatro horas como se nos conhecêssemos desde a infância. Era a primeira vez que nos víamos. Ela trouxe um pão de alho e bolo de cenoura. Eu devolvi o gesto com minhas angústias existenciais.

Existe um espaço sideral inteiro de diferença entre conversar com alguém pelo celular, com a ajuda de emojis que fazem as vezes de sentimentos, e conversar com alguém olho no olho.

Acho que como hominídea eu perdi essa necessidade básica do olho no olho, o cheiro do outro, o timbre da voz, as frases que se complementam e se entrecortam, a gargalhada compartilhada. A preciosidade de esgares e silêncios que costuram uma conversa com outra pessoa ao vivo, frente a frente.

No outro dia da visita da Jeovanna, acordei diferente, fui até Guarulhos de Uber. Li a cidade de São Paulo como se fosse um filme correndo pelo vidro traseiro. Ouvi o piseiro de que o motorista apreciava. Me desloquei. Lembro do Dória falando que um rival ficava de pijamas em casa enquanto ele acordava às cinco da manhã para trabalhar. Lembro de me sentir culpada por me identificar com o rival do ex-prefeito de São Paulo que, por sua vez, se fantasiava de gari.

Definitivamente sou do grupo dos pijamas. Noventa e nove por cento das minhas interações são via celular. Só interajo fisicamente com minhas filhas, meu companheiro e nossa gata que me provoca uma inveja imensa.

Há muito tempo ando mais felina do que hominídea e não sei explicar bem o porquê. Tenho medo das pessoas que andam cada vez mais certas de suas convicções com suas bandeiras hasteadas e a liberdade de linchar algum desafeto desconhecido nas redes. Tenho saudades de quando eu era uma andarilha no0 Rio de Janeiro e chegava na minha quitinete com a cabeça borbulhando de frases, imagens e sons. Meu trajeto quarto-banheiro-escritório-cozinha virou minha rota de fuga. Quando me vejo no espelho da sala quase não me reconheço mais.

Ontem recebemos quatro amigos e eu estava de pijama. Disse que me sentia à vontade de estar assim porque eles já eram de casa. E conversamos na mesa de jantar bebendo vinho e comendo húmus, como se estivéssemos em volta de uma fogueira no tempo das cavernas.

Cada pessoa é um universo complexo e colorido, e quando há um afeto forte que as une acontece uma mágica na interação. Deixamos de ser nós mesmos, pegamos carona na perspectiva do outro, rimos e nos abraçamos. Passamos um pedaço de pão, enchemos o copo do outro de vinho. É como tomar um banho de mar: você sai diferente e lamenta que em algum momento eles tenham que ir embora, que você tenha que dar as costas para o mar. Eu me senti mais forte, com o pensamento mais claro e mais segura de mim.

Acompanho de longe a vida e os trabalhos dos meus amigos e conhecidos, mas nunca de corpo presente. Isso é tão errado que me envergonho. Preciso trocar a pantufa pelo tênis. Mesmo em um bairro bolsonarista há uma planta bonita no meio do caminho. Veja aqui, um Manacá da Serra florido. Um menininho japonês uniformizado, passo marcial, de mãos dadas a sua mãe. Um resistente armarinho. Eu não sei, eu não sei o que ficou no meio do caminho.

O médico chama de depressão. O psicanalista elucubra algo sobre um delírio de terra arrasada que me acompanha desde a infância. Eu queria decifrar esse enigma. Sou viciada em decifrar enigmas. Às vezes passo décadas debruçada em um. Aqui em casa quem desfaz os nós sou eu. Sendo que agora eu virei meu próprio nó. Por onde começar? Pelo pé? Pela voz? Tenho algumas pistas.

Visitas me fazem muito bem. Quando eu sou a visita, melhor ainda. Teatro e amigos. Ver novelas antigas. Me perder nas espirais de beleza dos rostos das minhas filhas. Escrever. Ouvir um disco inteiro. O último do Nick Cave é esplêndido, por exemplo. Ler. O livro novo da Letrux, “Brincadeiras à parte”,  é uma maravilha. Eu tenho tentado.

Mas tem esse abismo que se pode ver na palma da sua própria mão. E a contragosto eu tapo meus olhos com minhas duas palmas. Depois, uso as minhas mãos porque preciso equilibrar doze ovos contra o meu corpo sem quebrá-los. Preciso resolver meu enigma. Estou em modo estátua enquanto o tempo corre no vidro do Uber. Enquanto um garotinho japonês volta da escola. Um bebê chora no pano de fundo da minha paisagem sonora limitada. Há um choro de bebê a plenos pulmões preso em minha garganta? Suspeito que sim. Pois que eu chore, troque o pijama, abra a porta e desligue o celular. Recolho a palma da mão que me impede de ver o mundo e as gentes.

 

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