Jorge Bodanzky: O cinema do acaso no coração do desmatamento

Jorge Bodanzky: O cinema do acaso no coração do desmatamento

 

Era 1974 quando o então fotógrafo Jorge Bodanzky e o cineasta Orlando Senna percorreram a recém-inaugurada rodovia Transamazônica em uma van, acompanhados por uma equipe de filmagem ligada à televisão alemã ZDF. Em plena ditadura militar, a paisagem — tratada pelos militares como “área de segurança nacional” — tornou-se o pano de fundo de Iracema – Uma transa amazônica, filme que espelha o projeto extrativista imposto à floresta na exploração sexual da jovem Iracema, interpretada por Edna de Cássia, por parte do caminhoneiro Tião Brasil Grande, vivido por Paulo César Pereio.

Proibido pela censura em seu lançamento, Iracema estreou primeiro na televisão alemã – levando ao mundo, pela primeira vez, a imagem de uma queimada em grande escala na mata amazônica – e logo passou a circular no Brasil em cópias clandestinas exibidas em cineclubes. Em entrevista à Cult, Bodanzky destaca o caráter inovador do filme em sua forma, que, influenciada por elementos do cinéma vérité de Jean Rouch, incorporava o uso de não atores, cenas improvisadas e, sobretudo, o acaso em um filme que transita entre a ficção e o documentário.

Para o cineasta, que já havia trabalhado na revista fotográfica Realidade, o emprego de técnicas aprendidas no fotojornalismo e o uso de gravador para a captação de som direto — quando a maioria dos filmes produzidos no Brasil era dublada posteriormente — foram essenciais para dar forma a Iracema: “Eu tinha experiência em fazer reportagens com som direto. Utilizei essa mesma técnica em Iracema, um filme de ficção, dirigindo e operando a câmera 16mm, mais compacta e ágil que a 35mm, utilizada no cinema com mais frequência”.

Após um período de seis anos de luta pela liberação do material no Brasil, o filme — que desagradou os militares ao expor a devastação provocada pela Transamazônica — estreou oficialmente em 1980, no 13º Festival de Brasília, onde conquistou os prêmios de Melhor Filme, Melhor Montagem, Melhor Atriz Coadjuvante (Conceição Senna) e Melhor Atriz, para a jovem paraense Edna de Cássia.

50 anos após as gravações, uma nova cópia restaurada em 4k de Iracema retorna aos cinemas nesta quinta-feira, dia 24. O filme será exibido em salas por todo o Brasil em meio a discussões sobre a preservação ambiental suscitadas pela COP 30, que deve ocorrer em novembro. Hoje, com 82 anos, Bodanzky acumula uma filmografia em grande parte dedicada à Amazônia, com filmes como Terceiro milênio, de 1981, À propos de Tristes tropiques, de 1991, para a televisão francesa, e No meio do rio, entre as árvores, de 2009. Bem humorado, ele declara que o interesse pelo tema surgiu “por acaso”.

“Em 1968, quando trabalhava como repórter freelancer para a Realidade, me enviaram para fazer uma reportagem em Paragominas, uma cidade na rodovia Belém-Brasília. Essa foi a primeira vez que fui à Amazônia. Meus trabalhos foram me chamando para lá. Como eu trabalhava também para correspondentes das televisões estrangeiras, principalmente para a da Alemanha, surgiram várias matérias na região. Aconteceu”, conta.

Foi em uma dessas expedições que Bodanzky, estacionado em um posto de gasolina, reparou na movimentação de caminhoneiros durante o dia e de prostitutas à noite no local. A partir das filmagens que realizou em sua câmera Super 8, que funcionava como um “caderno de notas”, teve a ideia para Iracema.

O diretor, que diz não fazer distinção entre ficção e documentário, afirma que o que gosta de fazer é “trabalhar com a realidade”, fazendo uso de técnicas de documentário menos por opção estética do que pela linguagem que seus projetos lhe impõem. Apesar de ter produzido também longas de ficção, ele se enxerga hoje como documentarista.

Bodanzky lamenta a morte recente tanto de Pereio, como do escritor e crítico Jean-Claude Bernardet – que participou de um de seus últimos trabalhos, Utopia, distopia co-dirigido com Bruno Caldas –, mas diz se empolgar com o futuro do cinema nacional, principalmente pela facilidade que as novas tecnologias oferecem para contar histórias ainda não ouvidas: “Hoje você pode fazer cinema até com o celular, sem depender de um laboratório de revelação, de um investimento caro, de uma finalização complicada. Isso deu muito mais liberdade para os criadores. Algo que tem me interessado bastante é o cinema indígena. Se há algo de novo no cinema brasileiro, é o cinema indígena”.

 

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