Quando a soberba (des)organiza as relações internacionais

Quando a soberba (des)organiza as relações internacionais

Desde o início de 2025, os olhos e ouvidos do mundo seguem orientados para os Estados Unidos e para Donald Trump. Produziu-se, ao longo desses meses, estupefação generalizada diante de cada novo ato do presidente estadunidense. Há um Lúcifer a desafiar a ordem internacional. Feito Vênus, a estrela da manhã, ele age para eclipsar todos os demais atores da cena internacional, prometendo assegurar para os EUA a condição de potência única mundial que outrora por algum tempo ocupou. Make America Great Again (MAGA) é seu propósito, e a soberba ganha, aqui, o sentido literal de onipotência. “Subirei acima das alturas das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Isaías 14:14).

Na Praça de São Pedro, no Vaticano, em março de 2024, o então Papa Francisco lembrava que a soberba – a grande rainha dos vícios, como entendiam os gregos, arruína as relações humanas e envenena o sentimento de fraternidade entre os homens. Mas também entre as nações. Em muitos já fartos exemplos, Donald Trump vem arquitetando a derrocada de um sistema de regras internacionais.

Projeta-se sobre a ordem internacional, como dito pelo Chanceler Mauro Vieira em evento na Fundação Getúlio Vargas – RJ, em fevereiro deste ano, o espectro da lei do mais forte, com “exemplos até assombrosos disso, como a recém-aventada proposta de desterrar toda a população de Gaza ao arrepio dos mais basilares princípios do direito internacional, arduamente consolidados nos últimos 80 anos”. Princípios, aliás, erigidos com o propósito de produzir um sistema de regras aos moldes dos interesses dos Estados Unidos, exatamente no período que se seguiu à vitória dos EUA e aliados na II Guerra Mundial.

Desde sua posse, Trump demonstra estar pronto a recorrer ao limite do poder estadunidense para impor toda a sorte de humilhação a outros países, inclusive a tradicionais e fiéis parceiros de Washington, e o faz sem pudor. Dir-se-ia que, sem temer demonstrar arrogância, presunção e vaidade, renova o sentido do excepcionalismo moral dos EUA – a nação escolhida e o povo eleito pela providência, desta feita não exatamente para levar seus valores liberais-democráticos para o resto do mundo como forma de salvação para os ímpios, mas, muito pelo contrário, para alegadamente defender o interesse nacional e, assim, impor uma condição já extemporânea de hegemonia estadunidense sobre o mundo. É a soberba desorganizando o sistema internacional.

Recorde-se que Donald Trump não inaugura, neste seu segundo mandato, a história da soberba como vício organizador das relações internacionais. O mesmo Trump havia determinado, em 2018, a mudança da Embaixada dos EUA em Israel para Jerusalém – território internacionalmente reconhecido como neutro. Joe Biden manteve a representação diplomática norte-americana na Cidade Santa. A soberba, poder-se-ia dizer, está no DNA.

De todo modo, muito antes disso, a história já esteve “repleta de líderes, como Luís XIV e Napoleão Bonaparte, que sucumbiram à arrogância, à autopercepção de superioridade e à crença de serem intocáveis”, como indicou o Prof. Wellington Sena, em seu livro “A Soberba no Poder”. A política, como campo de disputa por poder e influência, cria o cenário ideal para que a soberba floresça; e Adolf Hitler, ao se julgar infalível, “ignorou as evidências e os conselhos de generais experientes, conduzindo a Alemanha à ruína na Segunda Guerra Mundial. Sua crença cega na própria invencibilidade levou a decisões irracionais, como a invasão da Rússia em 1941, que marcou o início de sua derrota”, observa.

Essas são referências individuais mais recentes, ainda que o sentimento de superioridade e autoexaltação que traduzem a soberba como regulador da ordem internacional estejam na gênese de processos históricos bastante conhecidos, como, por exemplo, a escravidão e o tráfico de seres humanos a partir do século XV e o colonialismo europeu.

Nesse contexto, bulas papais do séc. XV sacramentaram a soberba dos povos europeus ao proclamarem a distinção entre seres superiores e inferiores e ao inaugurarem a ocupação estrangeira de terras americanas e africanas, assim como a escravização de indígenas e africanos, ambas devidamente legitimadas pela ordem internacional então regulada pela Igreja. Em 1452 e 1455, o Papa Nicolau V edita, respectivamente, a Dum Diversas e a Romanus Pontifex, concedendo diretos a Portugal para capturar territórios e escravizar populações na África Ocidental, além de autorizar conquistas e o tráfico de homens e mulheres escravizados que se estenderiam por séculos. O primeiro desses documentos assim dispunha:

(…) outorgamos por estes documentos presentes, com a nossa Autoridade Apostólica, permissão plena e livre para invadir, buscar, capturar e subjugar sarracenos e pagãos e outros infiéis e inimigos de Cristo onde quer que se encontrem, assim como os seus reinos, ducados, condados, principados, e outros bens […] e para reduzir as suas pessoas à escravidão perpétua.

Tanto essas quanto bulas papais subsequentes, entre as quais a Aeterni Regis (1481) e a Omter Caetera (1493), acabaram por forjar o legado teológico da exploração do continente africano, do expansionismo europeu e do colonialismo, que, na África, se estendeu até meados do século XX.

Ainda nos textos religiosos, a maldição lançada por Noé sobre seu neto, Canaã, filho de Cam, consagrou o racismo a um preceito bíblico, como explica o Prof. Hiran Roedel:

“No que concerne à legitimação ideológica da escravidão (…) A explicação deve ser buscada na bíblia. (…) O que amplia a legitimação ideológica para a ação conquistadora e escravagista gerada pelas grandes navegações é a origem mítica dos europeus, de acordo com a tradição judaico-cristã: filhos de Jafé. Ao retomarmos o significado deste nome, encontraremos que, além dos descendentes de Cam terem sido amaldiçoados, os filhos de Jafé representavam luz e a este era reservado o direito de submeter os pagãos fruto da maldição. Era, portanto, o destino sagrado dos europeus a difusão de seus valores, como também a subjugação dos descendentes de Cam.”

O tema não se esgota nos textos religiosos e avança para o período do Iluminismo Europeu, nos séculos XVIII e XIX, quando filósofos como Voltaire, Kant e Hegel forneceram a base intelectual para as práticas de colonização do continente europeu, ao proclamarem, a partir dos conceitos de razão, progresso e civilização, por exemplo, a superioridade europeia e dos povos brancos habitantes da Europa. Civilizar a África a partir dos padrões europeus passou a ser a justificativa ou mesmo o propósito para ocupar o território africano e subjugar as populações do continente. David Hume escreveu, em 1748, estar “em condições de suspeitar serem os negros naturalmente inferiores ao branco”. Mais, sociedades ágrafas, de tradição oral, foram entendidas por Hegel como sem história e, por isso, carentes de conversão à historicidade em seu padrão europeu superior. A autoexaltação ou soberba do pensamento europeu hierarquizou racialmente os povos africanos e conferiu uma espécie de mandato moral para o colonialismo na África que perdurou até meados do século XX.

A história do imperialismo do século XIX e mesmo práticas atuais de grandes potências são manifestações de arrogância, pautadas nas mais diversas ingerências externas diretas e indiretas e em várias regiões do globo.

Como registra a história, a soberba anula possibilidades de diálogo – o espaço onde floresce a diplomacia.

Esse é o ambiente que se vislumbra no cenário internacional com as promessas do Presidente Trump de anexação de territórios, ruptura dos fluxos comerciais ampliados pela globalização e, não menos importante, a negação de valores elevados à condição de princípios orientadores das relações internacionais, como os direitos humanos. Nada mais de diversidade, inclusão ou respeito a minorias. Multilateralismo, nem pensar. Ao contrário, os Estados Unidos bancam a aposta no isolamento e na impunidade moral, com o apoio, é bem verdade, do governo de Israel, cuja soberba tem produzido efeitos nefastos à contenção do antisemitismo. Mas talvez seja possível já reconhecer outros apoios. De todo modo, é nítida e perigosa a arrogância de quem se considera o próprio império, na medida em que o mundo reconhece hoje nas palavras e atos de Trump os principais fatores de instabilidade no plano internacional e de ameaça à paz mundial.

Diante de uma visível fragilidade dos pilares de um mundo baseado em regras, atores fora dos EUA especulam quais poderão vir a ser os mecanismos que neutralizarão seus efeitos destrutivos. Qual o antídoto possível ainda dentro de um sistema internacional organizado pelas práticas diplomáticas?

Retomando as palavras de Isaías: “E contudo levado serás ao inferno, ao mais profundo do abismo” (Isaías, 14:15) Ou, ainda, o livro de Provérbios: “O orgulho precede a destruição, e a arrogância precede a queda” (16:18).

A arrogância ou vaidade excessiva, já pressagiava o profeta, podem levar à ruína, o que, no campo das relações internacionais, vem também sendo explorado como o fim do projeto de hegemonia dos EUA. Imagina-se um cenário em que outros países e blocos, como a China, os BRICS e o Sul Global, venham a encontrar motivação adicional para fortalecer alianças construídas ao longo deste século XXI. Haverá uma “aceleração do fim da liderança americana. (…) Os EUA sairão desses 4 anos menos poderosos do que estão hoje”, disse o Prof. Antonio Jorge Rocha. Ou, como comentou a também Profa. Sonia Fleury, “A postura imperial de Trump parece ser mais uma tentativa desesperada de parar um processo de decadência em curso do que uma análise consequente das possibilidades do MAGA.”

Como em Macbeth e na Divina Comédia, o cenário internacional expõe as fragilidades de personagens cuja ambição desmedida e arrogância arquitetam sua própria derrocada.

“A soberba traduz-se no profundo desprezo pela diplomacia”, recorda o Prof. Guilherme Casarões. Neste caso, é a soberba que autoriza a afronta de Trump à liturgia da diplomacia e ao decoro mais básico das relações internacionais. Ou, como diria o jurista Antonio Carlos de Almeida Castro, Kakay, “Há um certo orgulho de ser culto e uma soberba de ser banal.” A política externa de Trump quer lançar as relações internacionais como concebidas após a II GM ao descrédito e à banalidade. O desprezo à diplomacia é o prenúncio para a guerra. Onde falha a diplomacia, haverá de impor-se a força militar.

Para o Prof. José Luiz Fiori, “nos quatro anos da administração Trump, os Estados Unidos (…) se propõem a atuar dentro do sistema mundial a partir exclusivamente dos seus interesses nacionais, utilizando-se da sua força bruta financeira, tecnológica e militar para impor sua vontade onde considere que seja necessário”, recorrendo à guerra somente em “última instância”.

Em qualquer dessas hipóteses, o vaticínio augura tempos nebulosos para as relações internacionais.

Irene Vida Gala é diplomata. Suas opiniões não refletem a posição do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

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