Foucault no Brasil: Itinerário de viagem

Edição do mês
Foucault no Brasil: Itinerário de viagem
Foucault com José Carlos Castro, Edna Castro, Benedito Nunes e Maria Sylvia Nunes, na praia do Marahú, na ilha do Mosqueiro, em Belém

 

 

1965

“Tenho a impressão de que estou num departamento francês de ultramar.” A frase, atribuída a Michel Foucault, resume uma das impressões que o filósofo francês levaria consigo de sua primeira passagem pelo Brasil. Em 1965, quando esteve na Universidade de São Paulo, a presença de intelectuais franceses era comum. Desde sua criação, em 1934, a USP recebia com frequência “missões francesas”, que trouxeram ao país nomes como Claude Lévi-Strauss e Roger Bastide.

Entre o público que compareceu aos encontros na rua Maria Antônia, em outubro daquele ano, estavam professores e jovens intelectuais como Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti, Paulo Arantes, entre outros. “Um público imenso que reunia todos os departamentos de humanidades da universidade”, relembra a filósofa e professora Marilena Chaui, então aluna de pós-graduação da universidade. “Ele veio a convite de Gérard Lebrun”, explica Chaui, “e nos apresentou uma versão ainda inédita de As palavras e as coisas, que provocou as reações mais interessantes entre os presentes.”

A primeira vinda de Foucault ao Brasil não deixou de ser registrada por Daniel Defert em sua cronologia, que compõe o primeiro volume de Dits et écrits. Nela, Defert também nota o momento político em que essa vinda se deu – apenas um ano e meio após o golpe de Estado que instituiu a ditadura militar no país: “A série de conferências prevista é interrompida pelas demonstrações de força que, semana após semana, consolidaram a instalação dos marechais no poder”. Em razão dos eventos políticos que se seguiram às eleições governamentais de 1965, que levaram ao Ato Institucional nº 2, sua partida foi adiantada, e suas impressões sobre o Brasil acabaram resumidas na observação que daria título ao livro Um departamento francês de ultramar, de Paulo Arantes.

Contudo, ele retornaria ao país mais quatro vezes – entre 1973 e 1976 – em condições muito diversas, para ministrar seminários, conferências, ou – nas palavras de Ernani Chaves, professor titular da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará – “como um simples turista que gostaria de conhecer a Amazônia”.

1973

Após uma série de tratativas frustradas por desencontros para organizar novas vindas do filósofo à USP, Foucault retornou ao Brasil apenas no final de maio de 1973 para realizar a conferência “A verdade e as formas jurídicas”, na PUC-Rio. O convite havia sido feito inicialmente por Amélia Lacombe, então diretora do Departamento de Letras da faculdade, mas foi levado adiante por Affonso Romano de Sant’Anna.

Em entrevista, Lacombe esclarece que “os livros de Foucault chegaram com plena força a todos os programas de pós-graduação. Ele havia se tornado, portanto, um ídolo. Todo mundo queria Foucault, e eu o convidei como diretora do Departamento de Letras”.

Em 1973, após o sucesso editorial de As palavras e as coisas, Foucault havia se tornado um dos mais reconhecidos filósofos da época, o que causou um grande alvoroço na imprensa carioca, que produziu uma extensa cobertura sobre suas atividades.

Em 18 de maio de 1973, o Jornal do Brasil publicou uma nota em que se lê que “o filósofo Michel Foucault, um dos autores estruturalistas mais badalados do momento, autor de Les mots et les choses e Histoire de la folie, acaba de aceitar convite do Departamento de Letras e Artes da PUC para uma série de conferências em maio”.

Já o combativo semanário da imprensa alternativa Opinião expressou críticas à figura e ao sistema de pensamento do francês, dizendo que “Foucault parece alérgico a qualquer marxismo. Quando se perguntava a ele o que achava de Marx, sacudia os ombros e a expressão que usava pode ser traduzida por ‘pouco estou ligando’ ”. O texto, assinado por Wilson Gomes Coutinho, também condenava o preço de 150 cruzeiros pelos ingressos das palestras: uma quantia “no mínimo exorbitante para um francês como ele, que dá aulas no Collège de France, onde não há pagamento”. E a reportagem segue: “No segundo dia, [Foucault] foi acossado por estudantes na porta de entrada que, aos gritos de ‘no money’, pediam para entrar. Alguém, provável representante da instituição, gritava mais alto para Foucault ‘no place’. O incidente foi embaraçoso porque Foucault não compreendeu direito o que sucedia, mas desmarcou todos os seus compromissos oficiais para conversar com os estudantes. De noite, ao saber que suas conferências estavam sendo cobradas por aquele preço, corou até a raiz de sua calvície”.

Outra anedota interessante envolvendo o francês em sua passagem pelo Rio foi noticiada pelo Diário de Notícias, em uma matéria intitulada “Foucault perde calças e também bom humor”. Após encerrar seu ciclo de conferências, ele reservou uma manhã “para um relax na praia de Ipanema”. No entanto, retornou ao hotel de mau humor “apenas de calção, camisa, paletó sobre os ombros e sapatos na mão” por ter suas calças roubadas durante um banho de mar.

Data dessa vinda ao Rio o primeiro encontro entre Foucault e o jovem psicanalista Joel Birman, que compareceu às palestras oferecidas na PUC, bem como a um almoço organizado pelo professor Roberto Machado com a presença do francês. “Ele não tinha a pose de mestre. Ao contrário, era despojado, simples e caloroso”, lembra Birman.

Em 25 de maio de 1973, Foucault partiu do Rio “com o intuito de conhecer o Brasil por terra”, como noticia o Jornal do Brasil. Segundo Chaves, “de lá, ele foi a Belo Horizonte, onde realizou conferências, visitou o famoso Hospital Colônia de Barbacena”, e seguiu para Manaus e Belém, “cidade da qual guardaria uma forte nostalgia”, registra Defert.

1974

No ano seguinte, entre outubro e novembro de 1974, sua vinda se deu por meio de um convite do Instituto de Medicina Social da atual UERJ, onde realizou conferências. “Sob todos os pontos de vista, as coisas estão mais difíceis do que no ano passado, a recessão preocupa muito; as pessoas da medicina social me dizem que não se pode compreender nada se não se vê como é a vida desses 26 milhões de pessoas [do Nordeste]”, conta Foucault em uma carta reproduzida por Defert. Sua próxima vinda ao país ocorreria em outubro de 1975, para uma série de palestras na USP.

1975

Pouco antes de sua visita mais simbólica ao Brasil, Foucault estivera na Espanha, com uma comissão de intelectuais e figuras públicas, como o ator Yves Montand e o cineasta Costa-Gavras, para protestar contra a condenação à morte de 11 presos políticos por parte do regime franquista. Em 29 de setembro, a polícia espanhola deportou para a França o grupo de Foucault, além de prender 25 jornalistas que acompanhavam a coletiva de imprensa convocada por eles em Madri. Alguns dias depois, Foucault desembarcou no Brasil, que, assim como a Espanha, vivia seu próprio ciclo de autoritarismo, que se tornaria ainda mais evidente com o assassinato do jornalista Vladimir Herzog.

O exílio de professores e as cassações haviam transformado a paisagem que o francês conhecera em 1965. “Naquele momento já vivíamos o terror de Estado”, conta Marilena Chaui, então secretária do Departamento de Filosofia da USP e encarregada de organizar a vinda de Foucault. Ela relata que, após a chegada dele, os dois foram chamados pelo DOPS para prestar esclarecimentos sobre a presença do estrangeiro no país. “Foi uma coisa muito rápida”, explica ela. “Quiseram nos intimidar nos detendo por mais de meia hora numa sala fechada. Depois, um militar veio e nos dispensou.” Nesse contexto, o clima geral de repressão e os eventos políticos acabaram abreviando mais uma vez as atividades acadêmicas de Foucault. Agora, porém, o silêncio público que o intelectual mantinha sobre a ditadura desde sua primeira visita seria rompido por uma declaração a uma assembleia estudantil.

“Muitas dezenas de estudantes e professores da USP foram recentemente presos. Talvez sejam torturados – se é que já não estão sendo neste momento. Suas vidas estão ameaçadas. Uma universidade que não é plenamente livre não passa de uma empresa de servilidade. Não dá para lecionar sob o tacão das botas; não dá para falar diante dos muros da prisão; não dá para estudar quando as armas ameaçam”, declarou Foucault à multidão de alunos que lotou o pavilhão da Faculdade de Arquitetura da USP, no dia 22 de outubro.

“No dia anterior ao pronunciamento”, lembra o professor José Castilho Marques Neto, “Marilena Chaui me encontrou e disse que Foucault queria saber o que estava acontecendo no panorama específico daquele momento, e gostaria de saber como poderia contribuir para o protesto que estava sendo organizado”. Marques Neto conta então que coube a ele encontrar o filósofo na manhã seguinte, na praça Roosevelt, antes da assembleia, junto ao professor Gérard Lebrun. “Ele queria saber a minha opinião, ou seja, a opinião dos estudantes a respeito do Brasil; o que era estudar naquele momento numa universidade como a USP; o que era estar sob ditadura; e quais eram os meus sentimentos.”

“Em dado momento, Foucault disse que estava satisfeito e que iria fazer uma declaração renunciando ao seu posto. Então pegamos o primeiro táxi que passou em direção à USP. Seguimos em silêncio até que, subindo a Consolação, veio a realidade: ‘Estou no banco de trás de um Fusca com um dos maiores filósofos da humanidade’. Até que a conversa recomeçou”, narra ele.

Chaui lembra que, alguns dias depois, Foucault tomou parte da multidão de 8 mil pessoas que compareceu ao culto ecumênico em homenagem a Herzog, celebrado pelo então arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, na catedral da Sé, no dia 31 daquele mês. Percebendo a vigilância das forças de repressão do país e a atuação da embaixada francesa, que garantia sua segurança, Foucault deixou o país mais uma vez e seguiu para Nova York, onde se expressou em uma carta reproduzida por Defert: “Nova York é insuportável depois do Brasil”, No ano seguinte, “meio de pirraça”, diz Ernani Chaves, houve mais uma visita ao país.

1976

Em sua última visita ao Brasil – explica Chaves –, “ele não podia mais ser convidado por universidades brasileiras. Então sua vinda foi patrocinada pela Aliança Francesa. Ele então escolheu outro roteiro, pelo Nordeste e Norte do país”. Respondendo a um convite feito pelo professor Benedito Nunes, da Universidade Federal do Pará, ele desembarcou em Salvador e seguiu para Belém, onde, entre 5 e 7 de novembro de 1976, ministrou palestras sobre História da sexualidade.

De sua estada em Belém, ficaram registradas em fotos suas visitas à praia do Marahú e à ilha do Mosqueiro, com Benedito Nunes, Maria Sylvia Nunes, José Carlos Castro e Edna Castro. Segundo Chaves, ele frequentou ainda o Bar do Parque, na praça da República, no centro da cidade, “um lugar dos travestis, dos boêmios, dos artistas e dos poetas” da cidade. Das palestras – que, como forma de escapar da vigilância de agentes da ditadura, eram ministradas em francês para um pequeno grupo de professores e alunos da universidade –, Chaves se lembra principalmente de “três palavras mágicas”: “sexualité, pouvoir e vérité”. Então aluno de graduação, com 19 anos, Chaves declara: “Sem que eu soubesse, o meu destino acadêmico, e de certa forma pessoal, estava sendo traçado”.

Monitor acadêmico das disciplinas ministradas por Nunes, Chaves ficou encarregado de coletar as assinaturas do grupo na lista de presença do evento. “Uma semana depois”, conta ele, “a reitoria da universidade recebeu uma intimação do Serviço Nacional de Informações solicitando a lista. Naquela época, o reitor da universidade era, digamos assim, o representante da ditadura dentro da instituição. O professor Benedito não só não entregou a lista, como a queimou.”

Um episódio nebuloso ainda marcaria a última vinda de Foucault ao Brasil durante o jantar de encerramento de suas atividades na universidade, quando as fitas que continham as gravações de suas aulas foram roubadas do carro de outra monitora da universidade. “Não se sabe até hoje o que de fato aconteceu. Se foi um ladrão ou se foram agentes do SNI”, explica Chaves. De Belém, Foucault seguiu de ônibus para Recife, onde “teve que dar um depoimento à Polícia Federal” e deixou o país pela última vez. Em carta reproduzida por Defert, ele registrou: “De repente surgiu a miséria sul-americana, muito diferente daquela que se vê nas cidades. Percebe-se que ela se estende por milhares de quilômetros”.

Mais tarde, Foucault diria que “provavelmente terá sido apenas no Brasil e na Tunísia que encontrei, entre os estudantes, tanta seriedade e tanta paixão, paixões tão sérias e, o que me encanta mais do que tudo, a avidez absoluta de saber.” Já Chaves guarda na memória a imagem de um Foucault “zen”, que usava camisas de “gola rolê” e dava suas aulas com as pernas cruzadas sobre a mesa. Um Foucault que lhe mostrou “que existiam filósofos vivos” e, “além de vivos, gays” – “toda aquela admiração foi se fazendo em mim. Não apenas do ponto de vista acadêmico, mas também como pessoa”, conclui.

Deixe o seu comentário

TV Cult