Um continente reimaginado a partir da crise
Edição do mês
Reinterpretação da obra América Invertida (1943), de Joaquín Torres-García
¿Pero qué es la historia de América toda sino una crónica de lo real maravilloso?” Com essa pergunta, o escritor cubano Alejo Carpentier conclui o famoso ensaio de 1948 no qual pinta a realidade americana (sobretudo a latino-americana e caribenha) como notavelmente estranha e surpreendente. Um exame do que, na obra de Carpentier, poderia ser apontado como uma “realidade maravilhosa” revelará um forte fascínio com a imagem de uma flora profusa e imponente, entre ameaçadora e edênica, herdeira de uma imaginação de longa história sobre a região, que vai das crônicas coloniais aos relatos de escritores e naturalistas do período romântico.
Quase 70 anos depois, a escritora argentina Samanta Schweblin, no romance curto Distância de resgate (de 2014, publicado no Brasil pela Fósforo em 2024), redirecionaria a atenção do leitor aos efeitos da contaminação pelo herbicida glifosato nas amplas plantações de soja da pampa argentina, que tem sido apontada como responsável pelo crescimento de casos de câncer, malformação em fetos e outros efeitos sérios sobre a saúde local, tanto de humanos quanto de não humanos. Jamais mencionado no romance, o glifosato, na presença fantasmal que marca esse clássico recente do eco-horror, sugere que o sobrenatural é supérfluo numa realidade que, contaminada, já é ela mesma monstruosa.
O arco que conecta o maravilhoso de Carpentier ao monstruoso de Schweblin, e que ressoa uma ampla gama de perspectivas e vozes em espanhol, bem como em quéchua, ayamara, nahuatl e tantas outras línguas, contém
Assine a Revista Cult e
tenha acesso a conteúdos exclusivos
Assinar »




