As rimas homofóbicas das direitas
O recente ataque terrorista de fanático religioso na Parada do Orgulho LGBTQ de Berlim disparou-me traumas mais ou menos inconscientes. Também os crescentes casos de homicídios motivados por homolesbotransfobia no Brasil que me chegam pelas mídias sociais e os discursos de líderes religiosos e influenciadores das direitas contra romances e livros didáticos que abordam questões de sexualidade e gênero nas escolas, e os ataques aos artistas visuais e das artes cênicas que representam a sexo-dissidência. Além disto, há os suicídios movidos por existências tornadas miseráveis por causa da homofobia internalizada em igrejas neopentecostais ou seitas masculinistas como Legendários e o MBL.
Ante esse horror político, ocorreu-me de reler “Seis balas num buroco só”, de João Silvério Trevisan, para articular suas reflexões pioneiras no Brasil (ao lado das do antropólogo Luiz Mott e do historiador James Green) com uma hipótese que levanto logo adiante, amparada em meus estudos sobre a desinformação digital contra minorias racializadas e sexuais.
Romancista, ensaísta, cineasta e um dos fundadores do Somos, primeiro grupo de militância homossexual organizado do Brasil, João Silvério Trevisan ocupa um lugar singular na cultura brasileira. Autor de romances fundamentais, de ensaios decisivos e da incontornável história da homossexualidade no Brasil, Devassos no Paraíso, construiu uma obra que mistura ficção, memória, política e reflexão crítica sem jamais abrir mão da coragem de desafiar o coro dos contentes. Em 1998 publicou o livro ao qual me refiro no início deste texto e que ganhou recente reedição pela Companhia das Letras. Muitas de suas inquietações permanecem extraordinariamente atuais.
Há, nele, uma intuição que dialoga profundamente com que hipótese que apresentarei na sequência: inspirando-se em Carl Gustav Jung, Trevisan mobiliza a ideia de “inflação fálica” para compreender como, em períodos de insegurança e reorganização social, determinadas formas de masculinidade se hipertrofiam e convertem mulheres, gays, lésbicas e pessoas trans em alvos privilegiados da violência e da restauração autoritária.
Ainda que recorra a outros autores e chegue às minhas próprias conclusões, parece-me impossível não reconhecer nessa obra de Trevisan uma antecipação sensível de problemas que hoje reaparecem sob novas formas, em meio ao capitalismo de plataformas, às guerras culturais e à economia política da desinformação. Por isso, as flores em vida hoje são para ele!
O discurso de ódio e as violências contras as pessoas sexo-diversas (particularmente contra as pessoas transgêneros) em vigor desde 2016 em quase todos os países radicalizados pela comunicação política digital de uma extrema direita ou uma direita extrema religiosas, bem como os esforços de segmentos neoliberais racistas e anti-imigrantes não-brancos, dão me a dimensão dessa rima histórica.
As mutações do capitalismo ao longo de sua história produzem efeitos políticos e culturais que, embora nunca idênticos, guardam entre si inquietantes semelhanças. Mudam-se as caras dos agentes das classes hegemônicas e suas tecnologias de sujeição, e, com estas mudanças, variam-se também os objetos do medo e da ansiedade movidos por elas. Contudo, há algo que reaparece claramente, ainda que sob algum disfarce, nessas crises capitalistas: a homolesbotransfobia.
Não me parece nada casual que três grandes reorganizações do capitalismo tenham sido acompanhadas por intensos pânicos morais em torno das sexualidades divergentes das normas heteronormativas.
A crise do capitalismo liberal que desembocou na Grande Depressão (1929) coincidiu com a ascensão dos fascismos europeus. Na Alemanha, a relativa liberdade conquistada por homossexuais durante a República de Weimar foi abruptamente interrompida pela eleição de Hitler e a ascensão dos nazistas. Após isto, o Instituto de Ciências Sexuais de Magnus Hirschfeld foi destruído; livros foram queimados e arquivos desapareceram. Homossexuais passaram a ser presos e enviados para campos de concentração ou utilizados em arrepiantes experimentos “científicos” de “cura” de suas orientação sexual. Os nazistas fizeram um empreendimento não apenas de “purificação racial”(com o extermínio em massa de judeus europeus e dos ciganos), mas também de “correção sexual”, criminalizando práticas sexuais fora daquelas prescritas pela heteronormatividade.
Na Espanha franquista, as flanges fascistas que venceram a guerra civil também passaram a perseguir os “vagos y maleantes”.
Décadas depois, outra transformação do capitalismo, marcada pela financeirização, pela globalização e pela ascensão do neoliberalismo, encontrou na epidemia de AIDS uma oportunidade para reativar antigos estigmas principalmente contra homens gays e travestis. A direita religiosa neoliberal representada principalmente pelo presidente dos EUA, Ronald Reagan, e a primeira ministra do Reino Unido, Margareth Tatcher, tratou a epidemia do HIV como “uma peste gay” enviada por Deus. Negou o direito humano à saúde aos doentes em função de uma suposta “decadência moral destes”. Mais uma vez na história, portanto, em nova mutação do capitalismo e em nova crise econômica gerada por este, pessoas sexo-diversa deixaram de see tratados como cidadãos e cidadãs e forma convertidos em problema público.
Neste momento, estamos sob uma nova e outra mutação capitalista: o capitalismo industrial deu lugar ao financeiro; e, este, por sua vez, engendra e se desdobra num “capitalismo de plataformas”, sustentado pela extração compulsória de nossos dados (a partir da ininterrupta captura de nossa atenção!) e sua conversão em commodities que são circulam e são comercializadas à nossa revelia a partir dos algoritmos que dirigem essas plataformas. Há em curso não apenas uma mudança na economia global, mas um experimento inédito de sujeição dos usuários dessas plataformas e subsequente transformação de suas percepções, levando-as ao estresse de já não saber o que é verdade ou o que é mentira; o que informação do que é desinformação.
Neste contexto atual de nova mutação capitalista, a sexualidade reaparece no centro da batalha política das extrema direita e da direita extrema pela hegemonia.
No Brasil, acompanhei esse processo não apenas como pesquisador, mas como alvo. Muito antes da eleição de Jair Bolsonaro, conservadores e reacionários das direitas compreenderam que fabricar pânicos morais em torno da diversidade sexual lhes rendia enormes lucros políticos e/ou financeiros. O inexistente “kit gay”, a invenção da “ideologia de gênero”, as mentiras sobre escolas, professores, crianças e banheiros constituíram uma pedagogia do medo cuidadosamente construída fora do Brasil por Steve Bannon – um dos para-filósofos do neofascismo global, ao lado de Elon Musk, Jeff Bezos, Peter Thiel e Mark Zuckerberg- e e aplicada também nas eleições estadunidenses de 2016, que deram a primeira vitória ao mentiroso compulsivo e supremacista Donald Trump.
Hoje sabemos que fenômenos semelhantes ocorreram também na Hungria (com Viktor Orbán), na Polônia (com Karol Newrocki), na Itália (com Giorgia Meloni) e em diversos outros países. Cada contexto possui sua própria história, naturalmente. Mas é difícil ignorar a recorrência do mesmo repertório discursivo: “defesa da família, proteção da infância, combate à chamada ‘ideologia de gênero’, denúncia de uma conspiração das elites culturais e a conversão das pessoas LGBTQIA+ em símbolo de uma suposta desordem civilizatória”.
Na Israel sob o domínio do primeiro ministro de extrema direita racista, a comunidade sexo-diversa está entre a condenação por parte de judeus ortodoxos e a cooptação pelo “pink washing”, que busca limpar o assassinato de palestinos com uma suposta abertura à comunidade LGBTQ. Gays palestinos são odiados pelo Hamas e seu fundamentalismo religioso, encontram abrigo em Israel, mas não estão livres do apartheid dentro do estado.
A extrema direita agora organizada numa internacional neofascista disputa a hegemonia por meio da guerra cultural contra imigrantes racializados, mas principalmente contra a comunidade sexo diversa, espremida numa economia de violência e cooptação ao mesmo tempo.
O sociólogo e político italiano Antonio Gramsci – encarcerado elo fascista Benito Mussolini em 1926 – ajuda-nos a compreender por quê.
Quando elaborou o conceito de hegemonia, em seus Cadernos do cárcere, Gramsci mostrou que nenhuma classe dirige uma sociedade apenas por meio da força. A coerção é indispensável, mas insuficiente. Governar exige, segundo ele, produção de consentimento; implica em fazer com que uma determinada visão de mundo pareça natural, evidente e moralmente correta.
As guerras culturais não são, portanto, nem novidade da contemporaneidade nem tampouco secundárias às guerras quentes. São o dispositivo que fabrica o senso comum.
Em Sobre a questão gay, livro magistral do francês do sociólogo Didier Eribon, e cujo título é uma referência explícita ao ensaio do filósofo Jean-Paul Sartre “sobre a questão judaica”, Eribon observa que a história das pessoas sexo-diversas não progride em linha reta, mas sob movimentos de expansão e retração, de reconhecimento e perseguição; de “Sístole e diástole”, escreve ele.
Aqui permito-me debater e complexificar essa metáfora:
E se essas contrações não disserem respeito apenas à história das sexualidades? E se acompanharem, ainda que parcialmente, as grandes crises e reorganizações do capitalismo?
A violência intermitente contra pessoas LGBTQIA+ deixaria de ser compreendida apenas como preconceito individual, atraso cultural ou fanatismo religioso; e passaria a ser entendida como parte de uma disputa pela reconstrução da hegemonia em momentos de mutação e crise capitalista.
Toda ordem social em transformação precisa “explicar” e “justificar” a insegurança que produz e apontar os “culpados” do pânico moral que desvia a atenção dos outros horrores que gera, como a concentração da riqueza e da renda nas mãos de empresas e corporações privadas e/ou do crime organizado, e a conseguinte desigualdade social que vem desumanizando o antigo proletariado do capitalismo industrial em zumbis urbanos pedintes ou coletores dos alimentos descartados em toneladas nos lixos das grandes cidades. Este é o fim do proletariado, não o ansiado pelo socialismo, mas o produzido pelo capitalismo financeiro, de vigilância, de captura de atenção e de plataformas digitais onde já impera a Inteligência Artificial.
A fabricação dos consensos de ódio como esses em torno de lésbicas, gays e pessoas trans impede os odiosos de verem que estão sendo espoliados enquanto odeiam os inocentes criminalizados pelos verdadeiros culpados da insegurança e da precariedade material.
Enquanto os postos de trabalho desaparecem, serviços profissionais são assumidos por IA e a riqueza do mundo se concentra nas mãos bilionários e mafiosos, os algoritmos das big techs reorganizam silenciosamente a esfera pública, estreitam a percepção do mundo por meio de bolhas digitais e canalizam a ignorância e a ansiedade das maiorias contra a professores, artistas, feministas, pesquisadores, ecologistas e ativistas LGBTQIA+.
O problema real é limado da percepção coletiva e substituído por um conflito imaginário que interpela preconceitos e falsas certezas, sobretudo os produzidos pelo fundamentalismo religioso.
A este dispositivo de sujeição contemporânea usado pelas extrema direta e direta extrema eu venho chamando de “Falsolatria”. Trata-se não só do culto à mentira, mas um regime social em que a fabricação e divulgação industrial de falsidades nas mídias sociais se convertem simultaneamente em modelo de negócios, tecnologia política e mecanismo de produção de subjetividades.
As mentiras sobre gênero difundidas por políticos e influenciadores das direitas não são apenas um efeito colateral da comunicação digital. Elas são um de seus produtos mais rentáveis política e financeiramente: geraram cliques, compartilhamentos, indignação, fidelização política tribal e monetização.
A mentira organizada digitalmente (principalmente a que envolve sexualidade e gênero) deixou de ser apenas um recurso das direitas em todo mudo para se converter em infraestrutura de sua hegemonia em muitos países, notadamente nos EUA, mas também na Rússia de Putin.
Talvez seja essa uma das principais rimas de nosso tempo com os tempos do fascismo histórico e do neoliberalismo religioso. Não uma repetição dos anos 1930 nem o retorno dos anos 1980, mas uma rima homofóbica com esses períodos. Uma nova mutação e crise do capitalismo produzindo, mais uma vez, uma disputa feroz sobre quem pertence à comunidade política e quem poderá ser transformado em ameaça.
Se Gramsci tinha razão ao afirmar que toda hegemonia depende da conquista do senso comum, talvez devamos reconhecer que uma parte decisiva dessa disputa ocorre hoje em torno dos afetos e das sexualidades.
Aos varões das esquerdas homofóbica e misógina que se somam ao coro das direitas contra o que chamam de “identitarismo”, gostaria de esclarecer que a defesa das pessoas LGBTQIA+ nunca foi apenas a defesa de uma minoria, mas a defesa da democracia como forma de governo e organização social que assegura a diversidade humana e o pluralismo político.
Walter Benjamin está certíssimo: o passado não retorna, mas se reapresenta na forma de uma rima histórica inegável. Ignorá-la – alertou-nos Trevisan desde 1998! – pode ser a forma mais rápida de permitir que as direitas encontrem, mais uma vez, novas palavras para perpetrar antigas violências sobre grupos historicamente difamados.
*Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual brasileiro. Autor de oito livros, entre eles, os recentes “Falsolatria” (Editora Nós e Edições Sesc São Paulo, 2024) e “O anonimato dos afetos escondidos” (Tusquest Editores, 2025). É candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo.




