Mar García Puig: “Consegui escapar das explicações fáceis por meio das histórias reais de loucura”
Mar García Puig, autora de "A história dos vertebrados" (Crédito: Rita Puig-Serra)
Foi em sua primeira visita ao Brasil que a escritora, editora, tradutora e ex-deputada catalã Mar García Puig desembarcou em São Paulo para uma semana de encontros com leitores. Convidada pela editora Bazar do Tempo e pelo Instituto Ramon Llull, instituição responsável pela promoção internacional da língua e da cultura catalãs, Puig participou da Feira do Livro do Pacaembu e de outros eventos na cidade para apresentar A história dos vertebrados, recém-lançado no Brasil.
A autora recebeu a Cult no início de junho, em um café de hotel no bairro de Higienópolis. Formada em Filologia Inglesa pela Universidade de Barcelona, García Puig viu sua vida mudar radicalmente em 20 de dezembro de 2015. No mesmo dia em que deu à luz os gêmeos Sara e David, foi eleita deputada pela coalizão En Comú Podem, ligada ao Podemos. Mas, ao contrário da euforia vivida pelo pai das crianças, foi tomada por uma grave crise de ansiedade e por pensamentos obsessivos hipocondríacos – ou pela “loucura”, como define.
Com mais de duas décadas de experiência no universo editorial, a autora recorreu à literatura para compreender o que lhe acontecia. Na busca por respostas, encontrou relatos de mulheres que, ao longo de séculos, viveram experiências semelhantes. “Comecei a encontrar histórias de mulheres desde a Antiguidade – mulheres que, desde sempre, tinham passado por situações muito parecidas”, afirma.
Dessa investigação nasceu A história dos vertebrados. Publicado originalmente em 2023, o livro venceu o Prêmio Cidade de Barcelona de Ensaio e combina autobiografia, crítica social, história da medicina e reflexão literária para investigar as relações entre maternidade, sofrimento psíquico e feminilidade.
Ao reconstruir trajetórias de mulheres silenciadas, internadas, medicalizadas ou separadas dos filhos, García Puig questiona tanto a romantização da loucura quanto sua redução a um simples desequilíbrio químico. “A loucura é muito complexa e implica muito sofrimento”, afirma. Entre as histórias que mais a marcaram está a de Emma Riches, uma jovem mãe inglesa internada repetidas vezes no hospital psiquiátrico de Bethlem, em Londres, após o nascimento de seus filhos.
Foi ao se deparar com uma fotografia de Emma, datada de 1857 – vestindo uma roupa de contenção e exibindo uma enigmática “terceira mão” sobre a saia – que ela leu pela primeira vez a expressão “loucura puerperal” (Puerperal Madness), diagnóstico associado às crises psíquicas que acometiam algumas mulheres após o parto. A imagem tornou-se uma obsessão para a autora. Ao ler os prontuários médicos de Emma, a autora encontrou não apenas o retrato de uma mulher esmagada pelos diagnósticos de sua época, mas também uma experiência de sofrimento que dialogava profundamente com a sua. “Senti muita compaixão e muita afinidade pelas suas palavras”, conta.
Além de A história dos vertebrados, a ex-deputada – que não pretende retornar à vida política – publicou, em 2025, Això tan tenebrós (Esta coisa escura), ensaio sobre literatura, mulheres e o poder das metáforas. Ela também revelou à Cult que pretende escrever um novo livro sobre a mortalidade nos manicômios espanhóis durante a Guerra Civil (1936-1939), uma tragédia pouco conhecida que, segundo ela, revela como as sociedades historicamente trataram seus “loucos” como vidas descartáveis.
Na entrevista, García Puig fala sobre a origem de A história dos vertebrados, a recepção do livro na Espanha, sua experiência na política institucional e as relações entre maternidade, sofrimento psíquico e feminilidade, além de explicar por que acredita que a literatura pode iluminar territórios aos quais a psiquiatria nem sempre consegue chegar.
No livro, você parte da sua própria experiência para recuperar séculos de mulheres silenciadas, internadas, separadas dos filhos. Como foi esse processo de pesquisa? Você começou pela sua própria crise?
A literatura da loucura é um tema que sempre me interessou. Então tive essa experiência pessoal – quando tive meus filhos e passei por essa crise – e enlouqueci. Como sempre trabalhei com livros, comecei a investigar o que estava acontecendo comigo por meio deles, e foi aí que comecei a entender todo esse vínculo entre loucura, maternidade e feminilidade. Comecei a encontrar histórias de mulheres desde a Antiguidade – mulheres que, desde sempre, tinham passado por situações muito parecidas, explicadas de outras maneiras, com outros relatos, outros delírios, mas que, na realidade, se assemelhavam muito ao que eu estava sentindo.
Há algum caso com o qual você se identificou mais?
Para mim, o caso que mais marcou o livro foi o de Emma Riches. Porque foi a primeira vez que a encontrei no Google – e foi a primeira vez que li, ali embaixo, onde normalmente não se presta muita atenção, a expressão Puerperal Madness (“loucura puerperal”). Foi a primeira vez que li aquilo, e isso me levou a investigar do que se tratava. A história dela me pareceu fascinante e, sobretudo, senti muita compaixão por ela. Li seus prontuários médicos. Ela foi internada, teve quatro filhos e, cada vez que dava à luz, era enviada ao hospital psiquiátrico de Bethlem – conhecido como Bedlam –, o maior e mais infame de Londres. Nos prontuários, os médicos transcreviam suas falas entre aspas. E eu senti muita compaixão e muita afinidade por aquelas palavras. Para mim, esse foi o caso que mais me impactou – o de Emma, que é como se eu já conhecesse.
Um dos momentos mais fortes do livro é quando você liga para sua irmã, do lado de fora do hospital, incapaz de entrar, e confessa: “não tenho forças para encarar meus filhos. Que os amo tanto quanto os temo”. E então você escreve: “Horrorizada, percebo que essa frase, que parece ter saído do inferno, vem da minha boca. Sinto que me sufoco. Queria me cuspir inteira para não ter nenhuma relação com o que acabo de dizer”. Como foi, para você, expor em público sentimentos tão íntimos?
Eu não pensei muito nisso. Como dou aulas de literatura e de escrita criativa – sobretudo de escrita em primeira pessoa –, muitas vezes minhas alunas me perguntam: como você fez para se expor assim, para expor as pessoas à sua volta? E eu sempre lhes digo que, para mim, a literatura vence. Essa frase, por exemplo, é uma frase pela qual muitas pessoas condenariam uma mãe. Ter medo dos próprios filhos parece algo antinatural. Mas eu estava escrevendo literatura – e isso implicava me expor. E eu quis fazer isso.
Estive com algumas escritoras em um jantar aqui [em São Paulo], e elas queriam ver alguma imagem minha da época em que eu estava no Congresso. Busquei meu nome no Google – e você sabe que aparecem palavras-chave relacionadas – e uma delas era “surtos psicóticos”. Eu ri, porque pensei: sou uma inconsequente. Escrevo essas coisas que, no fundo, me expõem de uma forma que nunca chego a dimensionar, porque sou leitora antes de tudo, e a literatura foi muito importante para mim.
Li autoras que se desnudaram completamente – sou uma grande leitora de Annie Ernaux, por exemplo. É uma autora que fez isso com uma crueza impressionante. Gosto muito também de uma autora italiana que escrevia sobre a loucura e que já faleceu, Alda Merini, que escreveu sobre sua experiência no manicômio.
Como foi a recepção do seu livro na Espanha – e principalmente entre seus colegas de partido?
Publiquei o livro justamente quando deixei a política, e tinha muito medo. Mas, curiosamente, a recepção foi muito boa. Boa, inclusive, no meio político, porque acho que muita gente se identificou. Muito boa, sobretudo, entre leitores e leitoras. Ainda recebo mensagens de leitoras me agradecendo.
O mais curioso é que o livro foi muito bem recebido entre psiquiatras e psicólogos – profissionais que me convidam para palestras e conferências. E o livro é crítico à psiquiatria. Mas um determinado setor da psiquiatria e da psicologia entendeu que a literatura pode explicar coisas às quais a psiquiatria não consegue chegar.
Em geral, houve alguns casos nas redes sociais de pessoas que me chamavam de louca e pediam que tirassem meus filhos de mim, mas foram episódios muito minoritários.
Como encontrou uma linguagem para falar sobre a depressão e a ansiedade relacionadas à gravidez que não recaísse nem na romantização nem em uma visão estigmatizada do sofrimento?
Há uma série de slogans que circulam por aí: “Não é loucura, é capitalismo” ou “a loucura não existe”, que me parecem simplistas. Acho que a loucura tem muito a ver com o mundo em que vivemos, com o capitalismo, com o patriarcado. Mas também há momentos de sofrimento extremo que não se curam apenas com medicação – sem que eu esteja negando a importância da medicação, claro.
A história da psiquiatria sempre foi muito dicotômica: de um lado, a psiquiatria que enxerga tudo como desequilíbrio químico; de outro, a antipsiquiatria, que diz que a loucura não existe; e o romantismo, que transforma os loucos em gênios – algo muito masculino, muito herdado de Lord Byron.
Acho que a loucura é muito complexa e implica muito sofrimento. Parte desse sofrimento está exatamente em não compreender essa complexidade. Um comprimido, quase certamente – nunca falo em termos absolutos –, não será suficiente, porque há muitas coisas que intervêm. E acho que consegui escapar dessas explicações fáceis por meio das histórias reais de loucura, que demonstram que não existe uma única resposta.
Você acha que hoje há algum avanço na redução do estigma em torno da loucura?
Sim, acho que sim – ao menos no contexto europeu, que é o que conheço melhor. Houve uma época, nos anos 1970, com Basaglia – um psiquiatra que cito no livro –, em que se defendia uma abordagem mais humanizada. Ele era psiquiatra, utilizava medicação, mas entendia a loucura como algo humano. Depois houve um retrocesso: a loucura passou a ser vista como algo biológico, químico, que se trata apenas com medicamentos.
A psiquiatria dominante hoje fala muito do que os ingleses chamam de chemical imbalance – falta serotonina, por exemplo. Mas, ao mesmo tempo, existe uma atenção crescente aos fatores sociais. O feminismo trabalhou muito nessa direção: por que, segundo as estatísticas, 80% da medicação psiquiátrica na Espanha é prescrita para mulheres? Isso não tem uma explicação química – tem uma explicação social. Sofremos mais violência, mais precariedade.
Falo também no livro sobre a lobotomia transorbital, praticada em larga escala nos Estados Unidos. A maior parte das pessoas submetidas a esse procedimento era negra. Isso também não tem uma explicação biológica – tem uma explicação social.
Acho que há muita gente lutando por isso. Em alguns aspectos retrocedemos, mas, felizmente, também existe muita resistência. E a literatura – que cada vez mais fala sobre a loucura e sobre a loucura das mulheres – está contribuindo para romper esses mitos biológicos.
E na Espanha, como é essa questão?
Houve também uma reforma psiquiátrica inspirada nas ideias de Basaglia, que promoveu o fechamento dos manicômios e a criação de centros de atenção comunitária. Na Espanha, tentou-se seguir esse caminho, mas os recursos são insuficientes e os manicômios continuam existindo. Ultimamente, os eletrochoques voltaram a ser utilizados. O principal hospital psiquiátrico da Catalunha retomou esse tipo de procedimento.
A legislação espanhola ainda permite o que chamam, eufemisticamente, de contenção mecânica – ou seja, amarrar pacientes – e também a medicação involuntária. Os países nórdicos são uma referência nesse campo: na Suécia e na Noruega, essas práticas são proibidas. Na Espanha, não avançamos. O hospital psiquiátrico ainda enlouquece mais do que cura.
Na Espanha, as únicas pessoas que podem ser privadas de liberdade são os criminosos, nas prisões, e os loucos, nos hospitais psiquiátricos – além daqueles que não se enquadram na norma.
Como foi sua experiência como deputada, tendo vivido tanta ansiedade e participado de debates acirrados?
Foi dura. Mas sempre digo algo que me parece importante: foi dura como tantas outras experiências são duras para as mulheres. A política é dura, mas também é um espaço muito privilegiado.
Quis contar isso porque, se a política – que é algo tão visível – é tão dura com as mulheres, no restante do mundo, naquilo que permanece invisível, é ainda mais difícil. A política pune muito a emoção e os sentimentos, embora ela própria seja movida por sentimentos.
Todos os atributos tradicionalmente associados às mulheres – histérica, emocional – recaíram sobre mim. E isso me pesava, porque eu sentia que estava decepcionando muitas mulheres que precisavam de representação. Mas me parece importante deixar claro que, por mais duro que tenha sido, existem realidades muito mais difíceis vividas por mulheres invisibilizadas.
Muitas me escrevem dizendo: “Eu não posso contar”. Eu, pelo menos, pude. Elas não podem, porque seriam demitidas ou teriam os filhos retirados delas.
Houve alguém do partido que tentou fazê-la desistir?
Não diretamente. Mas havia comentários do tipo: “Não fique tão nervosa”, “Não leve para o lado pessoal” – algo que costumam dizer muito às mulheres, como se nem tudo fosse pessoal. O pessoal é político. “Você tem que se acalmar, não podem vê-la assim, você tem que sorrir.” Esse tipo de coisa. Mas nada que chegasse ao ponto de me expulsar.
Como foi sua relação com seu companheiro durante esse período?
Acho que ele não me entendia. Foi difícil. Mas essa é uma das maravilhas da literatura: quando estava prestes a escrever o livro, eu pensava que seria mais dura com o personagem Tomás. Mas, quando me coloquei no lugar dele, cheguei a compreendê-lo um pouco. Porque, no fundo, se eu não estava preparada para tudo aquilo, ele também não estava.
E a literatura permite isso: empatizar com pessoas que você culpou durante muito tempo por alguma coisa, enxergar sua dimensão humana e frágil. Ele era homem, mas também era frágil e vivia um momento de grande vulnerabilidade. Acho que o livro captura isso. Há uma certa compaixão pelo personagem dele também.
Você se sentiu muito sozinha nesse período ou teve apoio?
Eu tinha muito apoio, mas me sentia muito sozinha. E, por isso, no livro – eu não sou religiosa, mas venho de um país muito católico, como o Brasil –, a imagem da Virgem Maria aparece bastante. Na Espanha, ela está por toda parte, e é uma figura que me fascina porque é profundamente solitária.
Jesus está sempre cercado de pessoas. Maria, ao contrário, aparece quase sempre sozinha: nas madonas, está apenas com o filho; na Pietà, sustenta o filho morto. Sempre nos ensinaram a viver a maternidade de forma muito solitária.
Eu tinha minha mãe, minha sogra, minha irmã, o pai dos meus filhos, amigas – e, ainda assim, sentia que a tarefa de ser mãe era muito solitária. Acho que isso é algo profundamente social.
O debate sobre saúde mental ganhou mais visibilidade depois da pandemia, mas você acha que essa visibilidade acompanhou o sofrimento específico das mulheres?
Em parte, sim. Mas continuamos tendo os mesmos números. Eu gostaria que alguém me explicasse por que, no mundo inteiro, as mulheres consomem muito mais medicamentos psiquiátricos do que os homens.
Há um dado que, para mim, resume grande parte dessa questão: um relatório recente da ONU afirma que o lugar mais perigoso para uma mulher é a própria casa – não a rua, nem a guerra. O lugar que deveria ser nosso refúgio é onde mais mulheres morrem.
E o mesmo vale para as pessoas trans. Muitas vezes não existe um espaço seguro dentro de casa, e elas precisam buscar outros lugares para existir. Podemos dar visibilidade ao sofrimento, mas também precisamos nomear suas causas: o patriarcado continua sendo um dos principais fatores de adoecimento mental das mulheres.
Eu não acredito que a loucura possa ser erradicada. Não existe um mundo perfeito sem loucura. O medo da morte, as injustiças e a própria condição humana nos levam ao abismo. Mas não é estranho que consigamos não enlouquecer em um mundo onde nossos corpos são permanentemente fiscalizados?
Cresci nos anos 1990, sob o culto à magreza extrema. Agora existe o fenômeno do Ozempic. O corpo feminino é sempre um campo de disputa. Não estamos seguras dentro de casa e tampouco nos sentimos seguras dentro do próprio corpo.
As relações de casal continuam muito desiguais na maior parte dos casos – e isso é uma questão estatística. O trabalho de cuidado – não apenas com crianças, mas também com idosos – recai majoritariamente sobre as mulheres. Estou cuidando agora da minha mãe, que está muito doente, e sinto que poderia enlouquecer a qualquer momento, porque convivo diariamente com a morte.
Há muitos fatores envolvidos. Até mesmo a falta de recursos econômicos pode levar as mulheres à loucura. Por isso, acho que essa visibilidade precisa ser acompanhada de transformações mais profundas. Não basta mostrar.
Quais foram as principais conquistas do seu mandato?
Entrei na política em um momento muito fértil para o feminismo, durante o ciclo das grandes greves feministas, que foram profundamente transformadoras na Espanha.
Aprovamos leis muito importantes. Uma delas foi a equiparação das licenças-maternidade e paternidade, que passaram a ser iguais e intransferíveis. Hoje, na Espanha, tanto mulheres quanto homens têm direito a 16 semanas de licença. E o mais importante é que os homens não podem transferir suas semanas para as mulheres. Eles precisam ficar sozinhos em casa com o bebê. Porque, se a licença fosse transferível, provavelmente eles aceitariam transferi-la, e as mulheres também aceitariam, já que fomos educadas dessa maneira.
Também aprovamos uma lei sobre violência sexual que não tratava apenas das penas para agressores, mas também de educação e prevenção.
Houve ainda uma lei para garantir o acesso efetivo ao aborto. O aborto já era legal na Espanha, mas a objeção de consciência tornava seu acesso muito difícil em diversos hospitais públicos. A nova legislação assegura que, mesmo quando há objeção por parte dos médicos, o procedimento deve ser garantido.
Aprovamos também uma lei que pôs fim às esterilizações forçadas. Na Espanha, ainda era legal que mulheres com deficiência fossem esterilizadas por decisão judicial, o que considero uma barbaridade.
E aprovamos uma importante lei para as pessoas trans, que deixa de tratá-las como doentes e permite a alteração do registro civil sem a necessidade de avaliação psiquiátrica.
Foi um momento muito fértil, mas que já passou. Acho que estamos vivendo, em várias partes do mundo, aquilo que se convencionou chamar de backlash – um movimento de reação e retrocesso. A extrema direita está crescendo muito e ameaça várias das conquistas obtidas nas últimas décadas.
Como você lê o momento político atual da Espanha?
Tivemos um governo progressista que promoveu avanços importantes, como na regularização de imigrantes. Mas os partidos de extrema direita vêm ganhando cada vez mais espaço.
Também há o problema da corrupção, que afeta os dois grandes campos políticos, tanto a direita quanto a esquerda. Pedro Sánchez, pessoalmente, não está envolvido, mas pessoas próximas a ele e integrantes de seu partido estão, e isso tende a ter consequências importantes.
Existe pressão por eleições antecipadas. Além disso, o sistema judicial espanhol é bastante conservador. Por isso, alguns casos envolvem corrupção efetiva, enquanto outros se situam numa zona mais ambígua.
Você pensa em voltar à política?
Não. Fiquei quase oito anos na política, e isso foi muito tempo. Eu vinha do mundo dos livros, gosto do mundo dos livros.
Acho saudável que as pessoas não permaneçam muito tempo na política, porque ela pode afastá-las da vida cotidiana. E, para mim, era muito importante preservar uma certa esperança na política. Quanto mais você a vê por dentro, mais difícil se torna manter essa esperança.
Foram oito anos muito bonitos. Não me arrependo. Mas foi o suficiente.
Como você se aproximou da política?
Na Espanha, houve uma grande mobilização social após a crise econômica de 2008 e as políticas de austeridade que retiraram muitos direitos. Surgiu então um movimento cidadão conhecido como os Indignados, do qual participei ativamente.
Sempre nos diziam: “Se vocês acham que fazemos tudo errado, apresentem-se às eleições”. E nós respondemos: muito bem, vamos nos apresentar.
Criamos um movimento cidadão que mais tarde daria origem ao Podemos. Eu não vinha da política institucional. Vinha do ativismo feminista, das ruas, das manifestações. Era editora, estudei literatura e sempre trabalhei com livros.
E você está escrevendo um novo livro?
Sim. Estou pesquisando a mortalidade nos manicômios espanhóis durante a Guerra Civil. Em alguns casos, ela chegou a 80%, uma taxa superior à observada em qualquer outro contexto semelhante.
As pesquisas mais recentes indicam que muitos pacientes foram deixados morrer de fome. A comida destinada aos internados passou a ser enviada aos soldados, e milhares de pessoas morreram.
Quero reconstruir essas histórias: quem eram essas pessoas e por que foram abandonadas dessa maneira. Há um manicômio em Barcelona onde 80% dos internados morreram e foram enterrados em valas comuns, no mesmo cemitério onde está enterrada minha família – uma família com nomes, lápides e memória.
Essas milhares de pessoas não têm nome. Suas famílias não podem visitá-las. Ninguém jamais falou delas.
Quero reconstruir suas vidas e denunciar o que aconteceu, porque o mundo continua tratando os loucos da mesma forma. Eles foram os últimos da guerra. Foram abandonados à própria sorte quando os médicos fugiram. São vítimas de guerra.
E descobri que isso não aconteceu apenas na Espanha. Na França, durante a Segunda Guerra Mundial, ocorreu algo semelhante. É um tema universal, mas quero contá-lo a partir da minha cidade, a partir do manicômio que fica ao lado da minha casa.






